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Como a música nos toca quando crianças

A música nos leva para lugares do pensamento onde as palavras não entram. As que começamos a ouvir quando crianças ficam perenes em nossa imaginação.

Uma das primeiras a me passar uma ideia elementar de melodia, harmonia e ritmo foi a guarânia “Cabecinha no Ombro” interpretada pelo Duo Guarujá, que eu ouvia em 1958, quando ainda morava em Curitiba. De beleza simples e um quê sentimental, melodia, na época, adquiriu para mim uma conotação singular. 

Eu estava com meu irmão a percorrer ruas desconhecidas em companhia de uma moça que supostamente era a nossa guia. Procurávamos por nossos pais, que deviam estar na casa de alguém nas redondezas e até hoje é um mistério porque fôramos parar ali. O fato de que estávamos a caminhar por algum tempo e a incerteza de encontrá-los nos afligia cada vez mais. A certa altura, meu irmão menor, mais angustiado que eu, começou a chorar. A moça, querendo consolá-lo (ou então, parecer engraçada), entoou as estrofes que diziam: “Encosta a tua cabecinha, no meu ombro e chora/E conta logo suas mágoas todas para mim/Quem chora no meu ombro eu juro, que não vai embora/Que não vai embora, que não vai embora […]. A tática, entretanto, surtiu efeito contrário. Ante o desalento e a mensagem comovente dos versos, também eu desandei a chorar.

Quando chegamos a SP após uma viagem de trem que durou 18 horas, atraiu minha curiosidade Cachito mio, que tocava no rádio da casa de nosso tio Adolfo, onde ficamos hospedados provisoriamente. A melodia alegre caía bem e a letra, em espanhol, expressava carinho por alguém. Ao lado da recepção que ele nos deu, aquela música, que ecoou nos meus ouvidos nos dias seguintes, representou um pano de fundo amistoso para quem acabava de chegar a um lugar distante e, à primeira vista, pouco atrativo.

Semanas depois, já em novo habitat, comecei a pesquisar programas radiofônicos no rádio de válvula e estojo de madeira, o único que tínhamos. Além dos programas de música sertaneja, eu gostava de sintonizar logo cedo a rádio Record para ouvir, apresentado por Joaquim Costa Almeida, “Bandas de todas as bandas”.  Aquelas marchas me contagiaram com sensações de júbilo e otimismo - o que servia para animar alguém com 6 anos de idade e afastado das suas referências de pessoas e lugares.

Sensações bem diferentes eu tinha com a vinheta da novela que minha mãe acompanhava no rádio, ao passar roupas. Eram os acordes iniciais da abertura do Concerto para Piano em Si bemol menor do Tchaikovski - eu os sentia carregados de drama e de uma tristeza bela e solene. Talvez, com sua arte, o compositor quisesse comunicar seus infortúnios, que não foram poucos. Foi a primeira composição clássica que conheci e talvez a primeira vez que identifiquei, nos sons de uma orquestra, instrumentos de sopro (trompa), piano e violino (hoje sei que havia também o violoncelo). 

Mas foi na casa da minha avó Julieta, no alto da Bronze, centro histórico de Porto Alegre, que comecei a ter alguma ideia da música erudita. Lá, onde ela morava com minha tia Esther e meus tios João e Raul, era o lugar idílico onde passávamos as férias de final de ano. Lá, onde matávamos as saudades de aconchego, mimos e regalias -  lembro-me da Helenita, então namorada do meu tio João, que além de eu achar bonita, com sua doçura e delicadeza tinha o dom de nos tranquilizar, porque sempre via o lado bom das coisas. Por não ter a obrigação de nos educar, eles nos davam o que não podíamos ter em casa. Era ótimo, porém, o efeito colateral era que ficávamos “‘estragados”’, e ao voltar para casa em SP tínhamos que voltar a “entrar nos eixos”, como minha mãe dizia. 

A casa era ampla, com um grande jardim nos fundos, ladeado por canteiros com rosas, margaridas, lírios, uma figueira, mamoeiros (entre as plantas que eu me lembro) e ao final, um galinheiro em que raramente entrávamos, por medo de ser bicados. No hall de entrada, à esquerda uma chapeleira dava boas-vindas. Provida de espelho, ganchos para pendurar sobretudos e base rebaixada para acomodar guarda chuvas, era uma peça distinta. Do lado oposto uma escada comprida, com passadeira que às vezes saía do lugar, dava acesso ao andar de cima e suas várias dependências, a começar pelos quartos e um banheiro único, mas espaçoso e com aquecedor a lenha.  

Continuando pelo corredor, a sala de estar, que emendava com a copa e o jardim de inverno. Em um canto próximo às duas grandes janelas que se abriam para o jardim, ficava a rádio vitrola – um móvel de madeira escura, alto e de ar sisudo. Aquilo era uma grande novidade, pois o dispositivo mais próximo que tínhamos em casa era o rádio de válvulas. Remexendo no seu interior vi um box com vários LPs e um encarte explicativo das obras - era a coleção Festival de Música Clássica Ligeira, organizada pelas Seleções do Reader’s Digest. Devidamente orientado, coloquei um disco no prato, ajustei o seletor para rodar em 33 rpm e o comando para acionamento automático do braço (acho que não fiz tudo isso da primeira vez; é provável que alguém tenha feito para mim) e, com o encarte nas mãos, sentei-me próximo dos alto falantes para ouvir. 

À medida que lia os títulos e a agulha percorria as diferentes faixas dos discos fui conhecendo as composições. Cavalaria ligeira (Leichte Kavallerie, de Franz von Suppé) e os movimentos finais das aberturas de Guilherme Tell, de Gioachino Rossini, adotada no seriado de TV The Lone Ranger (“Hi-yo, Silver!”) – por aqui batizado deZorro” - e de Orfeu no inferno (Offenbach), entre outras, despertaram meu interesse nas semanas seguintes de minha exploração. Como eu era pequeno, hoje não saberia definir exatamente o que sentia ao ouvi-las – acho que de início deslumbramento e depois entusiasmo. Eram fáceis de assimilar, mas eu não via ali nada frugal. Eu adentrava em um mundo imaginário de protagonistas heroicos, que travavam batalhas duras para triunfar bravamente no final.  Saía dali quando minha avó me chamava para alguma refeição.

Interessei-me igualmente por algumas músicas populares, cantadas, que contavam uma história de amor, alegria ou desilusão – os LPs de Francisco Egydio; Hebe Camargo (‘Quem é?’) e Edith Veiga (‘Faz-me rir’) que meu tio João comprava ou ganhava. O que mais me agradava era o do Francisco Egydio (Creio em ti, Escondido, Eu canto amore) - devo ter decorado todas as letras; quando eu não “vivia” o enredo, ao menos procurava entender seus sentimentos.

Certa tarde recebemos a visita de alguns conhecidos que presentearam minha avó com um compacto duplo. Pareciam animados e faziam comentários elogiosos sobre o disco - era a trilha sonora do filme “O Cangaceiro” (premiado no Festival de Cannes) interpretada por Zé do Norte e Vanja Orico.  Quando eles se foram, pus o disco para rodar (45 rpm) repetidas vezes. As canções ‘‘Mulher Rendeira’, ‘Lua Bonita’, ‘Sodade, meu bem sodade’ e ‘Meu Pinhão' me agradaram desde a primeira vez:

 “Lua bonita, se ‘tu não fosse’ casada eu preparava uma escada pra ir no céu te beijar/e se colasse teu frio com meu calor, pedia a Nosso Senhor para contigo casar”. Sua beleza rudimentar, representa para mim a essência do folclore nordestino “raiz”.  

De 1959 ouvi “A noite do meu bem”, canção criada e gravada por Dolores Duran, de melodia sublime e versos que denotavam uma promessa romântica não plenamente cumprida (a mensagem cética, no final, passava tristeza e resignação), e a paz de ‘O Barquinho’ (Menescal e Boscoli) na voz de Maysa. E em 1962 Telstar, composta pelo engenheiro de som Joe Meek e interpretada por The Tornados. Se alguma música instrumental tinha o poder de evocar confiança em um futuro promissor, era Telstar. O mesmo enlevo eu sentia ao ouvir a valsa ‘Criança Feliz’, cantada por Francisco Alves e o coro das crianças da Casa de Lázaro em cuja abertura a locutora declamava: “Brincando marcha o menino de hoje, lutando marchará o menino de amanhã. Crianças despreocupadas desse Brasil-Menino cujas glórias hão de colher os homens grandes que dominarão o Brasil-Gigante; esse Brasil grandioso que eu canto, que as crianças da Casa de Lázaro, felizes, cantarão numa esperança de vitórias e de alegrias”. Como vemos, vivia-se em um país diferente do de hoje. 

Gostava de ouvir a música italiana romântica da década de 1960. Porque além da estrutura musical simples e ao mesmo tempo refinada e da qualidade dos intérpretes, trazia em suas letras a saudade de amores remotos ou de paixões presentes, em geral idealizadas. Gostava dos arranjos logo do primeiro compasso. Gostava das cordas, trompa (às vezes piano e flauta) e do coral de vozes – a andar tristes ou alegres, sempre em harmonia, de mãos dadas. Mas na música romântica há o risco de se resvalar no lugar comum, por isso não me agradavam as que eram piegas ou sentimentalóides. 

Annamaria abria com o eco do seu nome pronunciado ao longe por vozes masculinas; depois, um coro feminino, celestial, e o som agudo de sinos misturado ao dos violinos precediam a voz do Sergio Endrigo, tristemente conformado a relembrar um amor antigo. Nela, eu via o arquétipo da suavidade feminina. Até hoje me emociono quando a ouço - uma emoção plácida. Não vou além dos primeiros compassos, pois isso a tornaria banal de tanto ouvir.

Uma sensação aproximada eu tinha com Al Di Là (Emilio Pericoli), tema do filme Rome adventure (Candelabro italiano), que louvava um amor presente. Assim eu sentia Legata a Un Granello Di Sabbia, em que os violinos abrem espaço para voz carinhosa de Nico Fidenco, secundada por guitarra e coro, e em certo momento, um xilofone. É deste instrumento o primeiro toque da abertura de Sapore di sale, secundado por percussão e baixo, violoncelo, violinos e uma surpresa – o toque agudo e sagaz de um piano. Só então entra Gino Paoli, escoltado pelo som da trompa.

Em uma linha mais solta, Nel Blu Dipinto di Blu* (Volare), em que Domenico Modugno, como um Ícaro apaixonado passeava feliz pelo céu com sua amada - em sonho. Hoje, ao ver a forma como ele a interpretou no The Ed Sullivan Show, até eu tenho vontade de voar. Nunca vi atuação tão empolgante, seja desta ou de qualquer outra música. Ao final, o Ed Sullivan revelava uma razão especial para justificar aquela performance: o filho recém-nascido de Modugno. 

De outro lado, a voz resoluta de Michele Maisano -  surgindo como o motor de uma Ferrari - à qual o coro, o ritmo e a orquestração se uniam para clamar: Se mi vuoi lasciare, dimmi almeno perchè; Io non so capire perchè tu vuoi fuggire da me, ou em Cosa vuoi da me…

Da música romântica francesa, gostava em particular daquela que começa com as estrofes:

La mer/Qu'on voit danser le long des golfes clairs/A des reflets d'argent

La mer/Des reflets changeants/ Sous la pluie

Dizem que Charles Trenet escreveu La mer durante uma viagem de trem que fez pela costa mediterrânea francesa em 1943. Os versos são um hino ao mar, singelo e inspirador. Mas a melodia é a sua principal virtude. Para compô-la ele teve a ajuda do pianista Leo Chauliac. Gosto de três versões: a cantada pelo próprio poeta (de início contido e “soltando a franga” na última estrofe), a de Juliette Gréco (mais sóbria e solene em sua imanente nostalgia) e a da Orquestra do Ray Conniff. O maestro, conhecido por seus arranjos “easy listening”, reunia um coro de vozes masculinas e femininas, vários tipos de sopros - trombones, trompas, saxofone baixo, trompetes, clarinetes e saxofones altos, piano e até uma harpa. Sob sua regência, La mer ganhou matizes vibrantes e de grandiosidade. Esta foi a primeira versão que ouvi e a que mais me emocionou. 

Love me, please love me é uma canção que tocava bastante (ou eu é que tinha os ouvidos atentos para ela?) no rádio em 1966. Eu não entendia bem a letra em Francês, porém entendia muito bem o amor não correspondido cantado por Michel Polnareff, e sentia grande pena do protagonista, embora jamais tivesse vivido tal situação (e menos ainda a de um amante correspondido). Não sei se era pela melodia, volume e entonação da voz do Polnareff - que variava da mansidão ao desespero, ou pela introdução que ele tocava no piano - notas em escala decrescente que fluíam rapidamente seguidas de trechos furtivos, hesitantes, e logo voltando a rolar de modo marcante e desenvolto. O caso é que essa música me comovia.

É curioso eu me referir a coisas abstratas como amor, saudade, tristeza, júbilo, e paixão por uma mulher como dotes essenciais da música cantada. O que sabia eu do amor naquela época? Tudo isso aquelas canções me passavam. É possível que os amores ali glorificados fossem apenas invenções poéticas de seus autores - frutos de devaneio e não de uma experiência real. Mas de um jeito ou de outro, eram revelados da forma mais bela possível, idealizada. E eu representava tais sentimentos como algo fascinante, porque o veículo que usavam para expressá-las - a arte musical - é intrinsecamente fascinante.  E nada melhor para sonhar, mesmo quando se é menino, do que um amor idealizado.

Sim, porque desde pouca idade nós fazemos isso. Recordo-me de uma passagem quando eu, aos 7 anos, recém-admitido em uma classe de segundo ano primário que estava já em andamento havia dois meses, não conseguia fazer exercícios passados pela professora sobre assuntos que desconhecia. Ao notar minha preocupação, a colega de uma carteira próxima à minha veio sentar-se junto e passou a me explicar como resolvê-los. Das feições do seu rosto eu me esqueci; ficou-me, contudo, sua expressão agradável, disposta e acolhedora. Nosso contato foi breve, todavia cristalizou-se ali um dos paradigmas da índole feminina. Hoje penso que gostaria de ter associado a ela uma música, mas com a mudanças de domicílio e de escola que viriam, eu não a vi mais.  

Veio mais tarde a despertar minha atenção uma menina de tez clara, de cabelos pretos curtos e certo encanto em seus olhos azuis, que às vezes sentava na carteira à minha frente na classe do terceiro ano primário. Tínhamos ambos 8 anos. Conversávamos, eu a achava bonita e quando espontaneamente lhe dirigi um gracejo, ela devolveu a provocação, chamando-me de gracioso. Vi ali um ligeiro ar de censura e penso que não evoluímos além daquela prosa. Em consequência perdi o ensejo de associá-la a uma música, mesmo porque na época, meu horizonte neste quesito era bem restrito.

Houve ainda outra, no ginasial, uma morena clara e de cabelos castanhos à altura dos ombros, naturalmente altiva, cujo rosto tinha uma beleza bem delineada, serena e gentil. Seu nome era, sem a grafia italiana, o título da mencionada canção do Sergio Endrigo.

Annamaria

Annamaria/Tu non vuoi ricordare

Le nostre dolci sere/Ed i baci che mi hai dato

Ora viviamo/In sogni separati

Ma quel che è stato è stato/Non importa se è finita

Annamaria/Sei passata nel mio cielo

Come una rondine leggera (como uma andorinha ligeira)

E l'inverno è già tornato/Ma senza te

Annamaria/Di te mi resterà

Solo il tuo dolce nome/Il tuo nome/Annamaria

Nunca trocamos uma palavra. E é provável que, se vista de perto, ela não correspondesse à ideia do sublime feminino que a canção me transmitia. Foi melhor assim, que ela restasse confinada em meus domínios platônicos. Então, como aconteceu com as demais, sua imagem permanece intocada, tal como eu concebi de início. Felizmente, porque não sei como elas estariam hoje.

Velhotas sacudidas ou matronas obesas?

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A Dazzling Black Blue Friday*

Pulando do sol nascente para o poente (e não por isso menos belo e interessante) na última noite fui abordado por uma moça enquanto fazia compras no supermercado. Sendo a abertura da Black Friday, um movimento anormalmente grande de pessoas a empurrar e encher seus carrinhos de compras atrapalhava minhas andanças em busca de produtos; volta e meia tinha que ceder espaço ou pedir licença para passar com um carrinho de dimensões avantajadas, o único que sobrara.

Eu acabara de pegar alguns pêssegos (bons e não tão baratos) e começava a pesquisar no setor de peixes quando ouvi uma voz feminina bem-disposta: “senhor, acho que esses pêssegos são seus - o senhor os deixou cair”.

Virei-me e a vi, com suas mãos a me mostrar as frutas que acabara de apanhar do chão. Minha desatenção não me surpreendeu, porque ultimamente tenho deixado de notar coisas. A surpresa foi provocada pela atitude e mais além: pelas feições sorridentes da dona. Eu vi, em um rosto jovem e de expressão cortês, os cabelos castanho-claros lisos e um tanto longos e os olhos - verdes ou azuis - que cintilavam no conjunto. Deveria estar naquela casa da vida em que atingimos a plenitude, mas ainda expressamos jovialidade. Usava um vestido de cores, solto e amplo, dos que as gordinhas usam para esconder os excessos. Ao constatar ser este o caso, de imediato considerei-o um detalhe irrelevante, que não afetava a pintura geral, e talvez a tornasse até mais sedutora.

Ao notar minha atrapalhação para colocar os pêssegos de volta ao saco plástico - e  ao carrinho de compartimentos diferentes - ela prosseguiu: “o senhor quer que eu lhe ajude? ”, oferta que eu orgulhosamente declinei. Agradeci por sua gentileza e quando ela se afastou, parcialmente refeito, tirei os pacotes de peixe do freezer e os coloquei no carrinho. Ao voltar, avistei-a a conversar animadamente com suas amigas. Ela deve ter percebido minha curiosidade espontânea, pois devolveu o olhar, ainda que de soslaio. Mas eu não mantive o meu.

Olhando retrospectivamente, eu deveria ter perguntado o seu nome e me apresentado. Quem sabe, movido por um enlevo tolo, beijasse a mão que resgatou os pêssegos. Mas foi tudo rápido e no meu estado de admiração, tudo o que fiz foi agradecer sua gentileza com uma efusividade formal.

‘O homem deixou cair umas frutas do carrinho; eu posso apenas avisá-lo, mas vou apanhá-las e entregar para ele’, ela deve ter pensado.

As circunstâncias foram banais. Então o que  fez a diferença? O sentido diverso que se deu a elas, os pormenores, as cores. E estes temperos estão no seio das individualidades humanas, embora nem todos sejamos agraciados para distinguir ou fazer-lhes uso.

Um acontecimento corriqueiro levou a uma atitude gentil. São os imprevistos que acontecem e nos encantam. Vamos pensar assim.

Ela me pareceu bonita e a partir do seu gesto eu projetei uma imagem ainda mais bonita. Sei que pela lógica não a encontrarei de novo e se isso acontecer, provavelmente não a reconhecerei. Então, vou lhe dedicar uma música. 

Talvez, aquela que diz assim:

 

*Volare, oh oh

Cantare, oh oh oh oh

Nel blu dipinto di blu

Felice di stare lassù

[…]

Volare oh oh/cantare oh oh oh oh

nel blu degli occhi tuoi blu,

felice di stare quaggiù,

nel blu degli occhi tuoi blu [...]


E depois, sairei voando...

 

Nov./2025

Viagem a Praga

Chegara o dia de voar para Praga, onde aconteceria o ESPEN 2025. Considerando a fase atual, eu não estava motivado, porém, por menos que se esteja, há sempre uma expectativa em relação a uma viagem como essa - boa ou ruim, e não se sabe qual delas será concretizada. 

Peguei o ônibus em Congonhas, que me deixou em GRU com antecedência de mais de 4h. Mesmo assim, a fila para o despacho de bagagem nos guichês da Swiss já era grande. Cumprida essa etapa, passei pelos controles de passaporte e de Raios X, onde fui “sorteado” para uma inspeção mais detalhada; ao sair de lá, apalpei os bolsos para me certificar que estavam no lugar passaporte e carteira, operação que viria a repetir mais vezes ao longo da viagem.  

Segui então para uma regalia que eu queria experimentar: o lounge VIP – VISA Airport Companion. Após mais um pouco de fila e burocracia digital no celular (tive que criar outra senha), a moça detrás do balcão, anunciou, com ligeira afetação solene, que eu era bem-vindo. Com uma moderada sensação de triunfo (que duraria pouco) entrei no bufê, onde havia gente circulando e uma certa efervescência. Todos já estavam acomodados em suas mesas, a comer e conversar ruidosamente. Perguntei a um garçom e ele indicou onde eu poderia me servir. A comida era posta em bancadas compridas e notei que certas ‘iguarias’, conforme o interesse específico da freguesia, logo desapareciam. Não tendo avistado mesas ou nichos individuais desocupados, instalei-me em uma mesa estreita, comprida e com bancos dos dois lados. O cenário ali não se ajustava com a afetação do nome e se eu pensasse em um lugar sossegado, não seria aquele. Para se ter ideia do movimento, quando saí em busca de mais algum comestível para completar o meu repasto - que naquelas alturas tinha macarrão como o prato chefe - ao voltar à mesa um cara já havia tomado o meu lugar. Porém, ao perceber que eu estava ocupando aquele espaço, ele amistosamente sentou-se do lado oposto. A julgar pelo tamanho da amostra que lá se empanturrava, imagino haver um bom número de VIPs no país...

Deixando o lounge, procurei pelo portão de embarque para Zürich. Ao chegar – eu tinha bastante tempo - acomodei-me e puxei o livro ‘Olhai os lírios do campo’, que serviu para iniciar contato com uma senhora de Ribeirão Preto que ia à Suíça visitar os filhos que lá trabalham. Nossa prosa fluiu e imaginei que isso seria um bom augúrio. Às vezes é agradável conversar com pessoas de idade provecta como a nossa.  A propósito, uma das vantagens de se estar na fase de older adult - termo do qual tomei conhecimento ao ler no Am J Clin Nutr um recente artigo sobre sarcopenia - é a de se poder conversar com pessoas da mesma geração e ser compreendido. Dada a maior vivência, sempre temos algo a contar e elas também (salvo se forem alienadas e sua sabedoria não tenha se convertido em teimosia). Da nossa parte, se não lembrarmos exatamente de uma passagem antiga, sempre é possível inventar, o que frequentemente torna a versão de momento mais interessante. É também mais fácil de alinhar as perspectivas. 

Poucas situações são tão decepcionantes em uma aula ou diálogo, quando ao mencionamos, por exemplo, Nelson Rodrigues ou Federico Fellini para ilustrar algum conceito abstrato, o interlocutor mantém a expressão impassível ou então sorri acanhado, assumindo saber quem foi um ou outro (o que é pior, pois perdemos a chance de esclarecer), mandando por água abaixo o nosso esforço de argumentação. É como perder a sintonia de uma rádio – só que além do ruído de estática, temos aqui o ruído de comunicação. Isso supostamente é mais difícil de acontecer quando dialogarmos com alguém nascido há mais tempo, também porque o sujeito provavelmente não recebeu a influência da mídia digital e da deterioração da linguagem escrita sobre seu desenvolvimento intelectual. Maryanne Wolf, autora de ‘O cérebro no mundo digital’ e ‘O cérebro do leitor”, aponta os possíveis efeitos da tendência cultural para a homogeneização da linguagem: desde o estreitamento das escolhas lexicais para se produzir manuscritos mais breves até a menor complexidade sintática e o menor uso da linguagem figurada – dois recursos que exigem um conhecimento de fundo que parece estar hoje em falta. 

Voltando aos older adults, a outra vantagem é nos confortarmos com a solidariedade – o tácito entendimento de que se estamos ferrados, menos mal se estamos ferrados juntos. Admito, contudo, que quando menino ou jovem, era natural que preferisse conversar com os da minha idade. Os adultos, com suas ideias prontas, eram chatos ou seus temas, em geral, não me interessavam. Hoje concluo que, embora haja coisas maravilhosas que se pode fazer ou imaginar em silêncio (e em certos casos é melhor que seja assim...), de um modo ou de outro, a conversa é uma das coisas boas que ainda não tiraram da gente *(ver nota ao final do texto). 

Embarque tranquilo, retribui à dita senhora os votos de boa viagem e tomei meu lugar no avião. Constatei que existia um incômodo estreitamento do espaço lateral do assento que, no entanto, era bem amplo em relação ao assento da frente. Seria melhor ter escolhido a poltrona do meio ou da janela. Nessas viagens, cujos poucos momentos positivos são as sorridentes boas-vindas na entrada e as despedidas que nos dão os tripulantes ao desembarcarmos, em geral não penso na probabilidade de acidentes aeronáuticos. O que receio é topar com seres que não foram bem aquinhoados no quesito propriocepção, ou são apenas chatos. Isso se aplica a quem vai no assento do lado, da frente ou de trás e também aos que, menosprezando a mochila que tão cuidadosamente acomodamos no bagageiro superior, esmagam-na ao colocar por cima uma mala de material rígido. Ao menos nesta última situação, tenho sido categórico em chamar o incauto à razão, mas nem sempre com bom resultado, pois algum comissário acaba aparecendo para ‘ajeitar’ e não ajeita nada – apenas fecha o compartimento. 

Enquanto eu me distraia com tais pensamentos, chega a minha companhia de fileira -sem espalhafato ela e senta-se e começa a ler um livro digital. De novo entrou em cena o livro do Érico Veríssimo, que foi o trigger para um início de conversa. Ela lia a história de um alpinista e do alpinista passamos ao Amir Klink, e daí para outros assuntos. Surpreendeu-nos o fato de sermos colegas de profissão - ela se formara e fizera residência de Pediatria na USP, e de Psiquiatria no HSPE. Tem consultório psiquiátrico em Ulm, onde vive com o marido alemão e dois filhos. Suas feições e o jeito de se expressar lembravam a Gre, que conheci em 1983 no Curso de Saúde Materno Infantil na Faculdade de Saúde Pública da USP e que viria a ser minha boa colega no Hospital Pérola Byington. Viajara a SP para se submeter a uma cirurgia - disse ser o atendimento daqui melhor, e que os médicos alemães não dão muita bola para as queixas dos pacientes. Contou como fora parar em Ulm, sobre a família  e um pouco sobre como funciona a medicina na Alemanha. 

O serviço de bordo era feito por dois comissários de cavanhaque e fenótipo árabe: um caricato e loquaz em excesso e o outro, a quem pedi um garfo, deu-mo segurando-o pelo trinchador (higiene não era o seu forte). Pelo menos, a comida estava satisfatória. Após o pouso, continuamos conversando e no saguão da área de desembarque do aeroporto de Zürich despedi-me da colega, que passou seu número de telefone para eventual contato. Ela faria conexão para Munique, onde o marido e os filhos a estariam esperando. 

A sala de embarque da conexão para Praga, velha conhecida, estava quase repleta, com passageiros que esperavam seus voos. O nosso saiu com um pouco de atraso e ainda permanecemos no ônibus por uns 10’, pois o avião ainda não estava pronto. A viagem foi agradável; tive como colegas de poltrona brasileiros que iam para o congresso: um ‘nutrólogo’ do HC e uma de BH, os dois bem amistosos. 

No desembarque em Praga, a preocupação de sempre com o extravio da mala, que finalmente chegou. Na saída, avistei o motorista do Prague Airport Transfers segurando uma placa com meu nome. Com ele, estava um casal de idosos. Saímos, atravessamos a rua e entramos em uma VW Passat Variant de cor preta, que nos levaria aos hotéis. Como parte do pacote, recebemos uma garrafa d’agua, um guia ilustrado da cidade e um tour a pé pela cidade. O casal desceu primeiro, em um hotel aparentemente luxuoso. O trânsito estava lento por ser sexta feira, o que nos fez demorar aproximadamente 1h do aeroporto até o Avenue Legerova 19. 

Recepcionista loira, magrinha, bonita e afável. Quarto e banheiro com espaços suficientes, tudo bem funcional. Compenetrando-me da próxima missão a cumprir, tirei as roupas da mala, fechei-a e desci à recepção para me informar sobre como ir ao supermercado mais próximo. Ela pega um mapa e me explica o itinerário. Não foi possível achar, porque o caminho passava por um parque e havia diferentes vias de trânsito para confundir. Volto às proximidades do hotel e pergunto a um transeunte que, com paciência, indica uma direção em que teria que descer escadas.  Após a escadaria, saio em uma avenida; não sabendo qual o sentido tomar viro à esquerda, ando uns 100 m e decido perguntar a uma senhora: o Billa ficava no sentido oposto, a uns 400m dali. A unidade não era lá muito ampla, mas tinha um pouco de tudo. Comprei sanduíche, dois pães pequenos, queijo camembert, chocolate 70% de produção própria, amêndoas, cramberries desidratadas e uma garrafa d’água: 395 CZK. De volta ao hotel, fiz a minha farofa, tomei banho, assisti um pouco de TV (lixo) e fui dormir. 

No sábado o café abriu às 7h30. Havia uma pequena variedade de pratos para quem come bastante de manhã, o que não me interessou - fiquei no pão branco (integral só em fatias e industrializado), queijo, café com leite e maçã, que vinha cortada em pedaços (às vezes melancia). A nota negativa foram os vídeos “musicais” (força de expressão) no monitor de TV do refeitório a surrar os ouvidos e o espírito dos hóspedes. Contudo, a hospedagem no Avenue Legerova 19 era bastante satisfatória e a localização era próxima a facilidades, a poucas quadras da estação de metrô I.P. Pavlova. Além da loirinha simpática e prestativa da recepção, chuveiro bom, frigobar e equipamento para cozinhar pequenas refeições tornavam o lugar confortável. O único problema ocorreu por conta do fraco isolamento acústico – eventualmente à noite podia-se ouvir passos dos hóspedes do andar de cima e gente falando alto no corredor. 

O próximo ‘desafio’ era achar o caminho para o Prague Congress Centre. Eu sabia a direção, mas não o caminho a tomar, porque a Legerova avenue acaba em um parque ladeado por um viaduto e com duas vias de trânsito rápido. Entrei no parque, onde um ou outro transeunte apressado passeava com o cachorro. Achei que eles não me dariam atenção. Instantes depois, ao olhar para trás vi um chinês, que passeava devagar e sem cachorro; perguntei e ele, olhando no aplicativo me informou, sorrindo, o caminho: entrar no viaduto e seguir adiante uns 700 m. Comecei a marcha e no meio do caminho enxerguei ao longe o que parecia ser o prédio, mas era do lado oposto da avenida. Ao término do viaduto descia-se por uma escada até um hotel e uma passagem parecia dar lá. Tendo encontrado alguns árabes que aparentemente pretendiam ir ao mesmo lugar, comigo na dianteira seguimos mais ou menos juntos. Daí foi fácil até chegarmos à estação do metrô Vysehrad, bem ao lado do congresso. 

No saguão, enquanto imprimia o código de barras necessário para receber o crachá, dei com a Fe, que recebia instruções da recepcionista. Não nos deram bolsa e cadernos, apenas transporte urbano durante o congresso. Para isso teríamos que baixar um aplicativo e digitar códigos complicados - tudo digital e nada em papel. Naturalmente conseguimos acessar o vale de transporte com o auxílio de outra recepcionista – eficiente e, para nossa sorte, era brasileira, de Curitiba. A Fe esquecera seu pôster no avião e iria até um determinado lugar na cidade para imprimi-lo.  Eu participaria do tour fornecido pelo transfer, às 11h, devendo estar de volta às 15h para assistir à palestra do Sobotka. 

Rumamos então para o metrô; Fe desceu na estação seguinte (I.P. Pavlova) e eu faria baldeação na estação Muzeum para chegar à estação Starometská, na linha verde. Saindo da estação peguei a rua Kaprova (muita atenção em memorizar os nomes das ruas e as referências para não se perder) e cheguei à praça da cidade velha de onde vi, mais ao fundo, uma igreja bonita; continuei até dar com o relógio astronômico diante do qual uma horda de gente começava a se apinhar para ver o movimento das estátuas na hora cheia. 



Saindo dali fui fazer um reconhecimento pelo lugar de onde sairia o tour (esquina com a rua Paris – onde ficavam as lojas de griffe) e preventivamente comprei algum carboidrato em uma padaria próxima. Chegando ao ponto de encontro avistei a guia, baixinha, de meia idade (ela disse que era de 1970) segurando um guarda-chuvas vermelho (conforme as instruções do guia ilustrado). Ela me disse haver tempo para, caso eu quisesse, assistir ao movimento das figuras do relógio. Fui e quando voltei estavam com ela dois casais de sêniores, sendo um deles de chineses americanos. Partimos, ela sempre animada. Mostrou-nos monumentos de Jan Huss - precursor do luteranismo tcheco, uma igreja enrustida, mas de interior muito bonito, onde era celebrada missa alusiva a um evento histórico. Percorremos a cidade velha e a cidade nova, vimos o teatro onde se deu a estreia da ópera Don Giovanni de WA Mozart e conhecemos o bairro judeu (o cemitério estava fechado). Acho que ela se aprazia em falar sobre as desgraças que ocorreram em Praga – a queima na fogueira de Jan Huss, considerado herético por seus adversários; brigas entre católicos e protestantes (para variar). Paramos em frente a uma construção antiga (igreja?), diante da qual ocorreram execuções de pessoas durante várias horas – ela mostrou inscrições alusivas no calçamento. 
Além das referidas tragédias, nossa guia mencionou as famosas defenestrações de Praga, nas quais (acho que foram dois episódios) alguns membros do governo foram lançados pela janela do Castelo de Praga. Talvez fizesse algum bem para o país reproduzir tal ação em alguns dos que ocupam os edifícios da praça dos três poderes. Mostrou-nos também o monumento que representa a autoimolação de Jan Palach em protesto contra a invasão dos comunistas soviéticos, cujos tanques adentraram Praga em 1969, e outro que representava a dor sofrida por sua mãe. Ambos os monumentos são - disse a guia - de arquitetura moderna e gosto estético duvidoso, com o que concordamos. Mais andança e paramos em uma ponte de onde se via Castelo de Praga. Aqui o casal de chineses se despediu; atravessamos a ponte mais o outro casal e chegamos a um jardim bonito e aprazível. Ela continuava a falar, desta vez sobre obras de arte que foram surrupiadas pelos suecos em uma guerra com os tchecos. 


 Eu teria que voltar a tempo para assistir à aula do Sobotka (Refeeding Syndrome) às 15h; a guia me dissera que o tour se encerraria tranquilamente por volta das 14h15, mas continuava a nos mostrar lugares e a falar. Sem fazer menção de parar, ela seguia cada vez mais para o interior do jardim, que possivelmente seria um caminho para se chegar ao castelo. Enfim sentou-se em um banco, dizendo estar cansada. Foi a deixa para eu agradecer, me despedir e começar a driblar grupamentos de turistas rumo à estação do metrô próxima à entrada do jardim - Malostranská - e dali até a Muzeum, de onde fiz a baldeação para a linha vermelha até Vyserhad – ao lado do Congress Center, onde pude assistir às aulas sobre Refeeding Syndrome.

De manhã e à tarde, a organização do congresso oferecia nos intervalos um bom serviço de bufê. O problema era conseguir chegar a tempo, pois a circulação era lenta (aprox. 4.700 inscritos). Com o tempo ficamos mais espertos - Fe e eu preferíamos os lugares mais afastados, nas extremidades, onde havia menos comensais e maior chance de achar mesas desocupadas.  
Quando da visita à cidade velha eu vira o anúncio na Igreja São Nicolau, de que às 17h haveria ali um concerto e à tarde segui para lá. A apresentação – dois violinistas e um pianista e organista - foi bonita, terminando pontualmente às 18h. Voltei rapidamente para o congresso, a tempo de assistir à aula do Prof. Lubos Sobotka - grande decano da área de metabolismo e nutrição - como parte da cerimônia de abertura. Não houve apresentação musical, mas a aula do Sobotka - sobre metabolismo e a evolução das espécies - terminou de modo emocionante, ao som de O Moldava de Smetana. Saímos um pouco antes do término da cerimônia de abertura, para evitar muita concorrência para acessar os comes e bebes.  
Voltando ao congresso na manhã seguinte, encontrei o Sobotka na escada rolante de acesso aos salões e lhe disse: “The best conference I’ve ever seen”, ao que ele segurou o meu braço, respondeu de modo humilde e sem afetação: ‘Thank you very much’ e seguiu célere, levando o seu poster debaixo do braço. 

À tarde, uma surpresa:  encontramos com a Ju, que está trabalhando em uma empresa de fórmulas lácteas em Londres. Como sempre tranquila, estava com uns quilinhos a mais e parecia satisfeita. Sando do congresso, pesquisei lojas de cristais - uma delas era famosa, fina, e naturalmente com os preços compatíveis com tais atributos. Decidi ir à outra casa sugerida pelo guia ilustrado onde, atendido por uma chinesa gentil e de formosos contornos, comprei dois cálices pequenos para repor os que eu quebrara em casa ao longo do tempo. Não me lembro se fui ao Bageterie Boulevard, mas por conta destes afazeres, acabei não indo jantar com Fe e esposo no restaurante U Pravdu. 
No dia seguinte, segunda-feira, saí cedo para ver a escultura Kafka Rotating Head antes de ir para o congresso. Cheguei no momento exato em que ela começava a se movimentar. Esta foi a única atração que pude apreciar sem estar acompanhado de uma ‘galera’ (quando eu estava saindo chegou uma oriental, mas ela teria que esperar, pois chegou na hora em que a cabeça estava em repouso. 


Eu procurava assistir às aulas que havia pré-selecionado; algumas eram simultâneas e era preciso decidir. Além do Sobotka, vários professores - Mete Berger, Philip Calder, Steven Heymsfield, Jeppesen, van Zanten, e outros nomes conhecidos na literatura formaram a base da boa qualidade científica do evento. Até o Loris Pironi com sua burocrática figura de guarda-livros antigo (só falta a viseira na testa) deu uma aula razoável, embora articulando seu habitual Inglês de acento italiano de forma insossa e protocolar. Não perdi tempo em assistir as aulas da seção pediátrica, cujos palestrantes provavelmente foram escolhidos por critério político. A Fe, que se aventurou, disse-me ter saído da sala a lastimar a qualidade da exposição. À tarde, combinei com ela e Ju de jantarmos naquela noite, em um restaurante que pesquisamos na internet. Haveria mais um concerto na Catedral de São Clemente, com um número de músicos maior, que assistiríamos antes do jantar. 

Chegando à catedral 1h mais cedo, ciscamos um pouco na Ponte Carlos – paisagem lindíssima - em frente à igreja. Aquela mudança de ambiente era bem-vinda e oportuna - não pensar em compromissos ainda que por breve tempo, trocar ideias com colegas de trabalho fora da rotina profissional e a promessa de ver coisas diferentes em um lugar tão bonito... 



Entramos na igreja e acomodamo-nos na quarta fileira de bancos. Os músicos eram bons e o concerto foi bonito – três violinos, um violoncelo, um contrabaixo e o órgão soaram peças bem conhecidas. O jantar nem tanto, pois a carne do goulash era entremeada por um pouco de gordura (dizem que é assim mesmo). Combinamos de tomar sorvete na Amorino, ali perto. Pagamos a conta e eu disse que iria rapidamente ao banheiro. Ao voltar (e eu fui mesmo rápido) estranhei, pois não vi ninguém à mesa, ou melhor, uma pessoa apenas - um homem de meia idade e de semblante sério e indiferente. Julgando que estivessem a me esperar à saída do restaurante, fui até lá, olhei em volta e passei pelo lado de fora à altura onde ficava a mesa – porém lá estava o mesmo homem, impassível. Mais uma vistoria no lado de dentro, voltei à rua e ao passar de novo pela janela o homem não estava mais lá. Intrigado, resolvi ir para a praça na esperança de encontrá-los, mas sem sucesso. Então entrei na Amorino, pedi o sorvete e fui me sentar do lado de fora. 
Decorridos poucos minutos, julgando ter ouvido ao longe algum alvoroço, olhei em direção à praça, onde avistei Fe, o esposo e Ju. Acenei para eles, que vieram. O que teria acontecido? Elas tinham ido ao banheiro quase no mesmo momento que eu, permanecendo na mesa apenas o cônjuge da Fe, a quem não reconheci de longe quando voltei. Com o retorno delas, como eu não aparecesse, ele foi ao banheiro me procurar. Não sei se não o reconheci por ter olhado de relance ou pelo fato de ele estar sorridente e descontraído durante o jantar – na verdade todos estávamos - não combinasse com o visual sério do cara que vi à mesa quando voltei do banheiro. Achei o fato estranho e preocupante, pois embora eu não guarde os nomes das pessoas, em geral tenho boa lembrança das fisionomias. 


Era a última manhã do congresso - assisti algumas aulas e saí por volta das 10h em busca de uma livraria, no intento de encontrar uma biografia do Beethoven. Para ir até a Shakespeare eu deveria descer na estação Malostranská; já do lado de fora, perguntei a uma mulher rechonchuda que, com cara de bons bofes e ar de quem sabe o que diz, indicou que eu deveria virar à esquerda. Só que ela estava errada (e olhe que quando eu perguntei novamente ela confirmou que o sentido era mesmo para a esquerda). Tendo caminhado por uns 10’ e suspeitando que aquele não era o caminho, recorri a uma senhora de meia idade e aspecto confiável, que gentilmente me acompanhou na direção ao sentido oposto, que era à direita da estação do metrô. Percorri algumas quadras e avistei a livraria: uma decepção – sobre música, só biografias de artistas contemporâneos e do gênero pop. Voltando, da estação Malostranská peguei o metrô e desci na estação Musek. Com a ajuda de transeuntes, percorrendo as redondezas consegui chegar a uma livraria - mas nada. Decidi então comer no Bageterie Boulevard (por 193 CZK). Depois fui até uma feira livre onde comprei uma carteira de couro por aproximadamente 600 CZK (que dei para o Bernardo). 






Voltando ao metrô, desci na Muzeum e entrei em outra livraria importante, também sem sucesso. No outro lado da rua ficava a Luxor, a maior rede entre as livrarias e papelarias de Praga. Também não tinham a biografia do Beethoven, mas acabei gastando algum dinheiro – uma caneta tinteiro Parker que achei bonita e não pensei muito antes de comprar (1.700 CZK) e dois cadernos de papel macio (tulipa), sendo o maior para a professora de piano, por sua pachorra em ensinar e me ouvir (ela diz que é bom para fazer sketches). À noite fui jantar no U Pravdu, distante algumas quadras do hotel. Ambiente, comida (peito de frango com queijo camembert e beterraba), cerveja meio-escura e atendimento bons. Voltaria lá não fosse aquela a última noite. Rara tranquilidade para ler e rever textos (Legere). 

Praga é uma cidade turística, cheia de atrações para se visitar e com muita gente a pulular nas principais, em contraste com aquela que eu conheci em 1984, na época da cortina de ferro. As pessoas me pareceram mais sérias, embora nada se compare aos semblantes sombrios que então eu presenciei.  No metrô, também muita gente, mas sem aglomeração. Os trens chegavam no horário previsto e em geral eu encontrava assento vago. Diferentemente do que acontece por aqui, os passageiros mais jovens deixam os lugares vagos para os que têm maior necessidade, mesmo não havendo alertas de reserva de assento. E os que estavam na plataforma, antes de entrar aguardavam os que iriam desembarcar. Hoje lamento que o tempo que dispendi com a infrutífera cata de livrarias não me permitiu revisitar a Igreja do Menino Jesus de Praga ou mesmo o Castelo. 

No dia da viagem de retorno, à 11h deixei as malas no hotel e fiz incursão a uma livraria café, que por informação da internet supostamente ficaria perto do hotel. O endereço existia, mas a livraria não mais. Em uma rua paralela almocei no diminuto 
Paprika Mediterranean Kitchen & Bar, de comida ídiche. Quando cheguei estava vazio, mas a meia dúzia de clientes que entrou em seguida deixou-o quase lotado. Depois fui a uma praça ali perto e sentei-me em um banco. Dali a pouco, um mendigo veio sentar-se ao meu lado e iniciou um ritual que consistia em tirar panos e demais petrechos de uma mochila, com a visível finalidade de melhor se acomodar para fazer a sua farofa. Pensei até em dar-lhe um pedaço de chocolate, mas ele, percebendo que havia vaga em  banco próximo mudou-se para lá. No que se sentou, a mulher que estava ao lado levantou-se e saiu – acho que porque ele vestia roupas um tanto encardidas. Saindo dali, andei mais um pouco e em uma área movimentada achei uma apotheque, onde comprei um creme para Eliane. De lá passei pelo Muzeum propriamente dito, ao lado do qual fica uma bela praça. A arquitetura antiga e o verde se encontravam ali em rara afinidade.

E voltei a pé para o hotel, para pegar a mala e aguardar o transfer para o aeroporto, que deveria chegar às 14h, permanecendo em uma sala confortável ao lado da recepção. Na hora exata, chegou alguém que pronunciou o meu nome – e vi um senhor de aparência teutônica, alto, elegante, vestindo paletó e gravata. Era o motorista. Despedi-me e agradeci à loirinha e saímos do hotel; estacionado bem ao lado estava o seu veículo - um BMW X5. O motorista informou que o percurso duraria aproximadamente 35’, ao que eu respondi não haver pressa, pois o voo sairia às 19h. Conversamos um pouco; ele disse ter familiares em Praia Grande – SP e que pretendia um dia visitá-los.  
No aeroporto, não vi ninguém detrás dos guichês. Recorri então a uma moça com camiseta da equipe de apoio, que de modo automático esclareceu que o despacho de mala era feito por máquina, de modo digital. Eu fizera o check-in online, mas lhe fiz ver que gostaria de ter os cartões de embarque físicos, ao que ela respondeu não ser preciso. Insisti e ela, no mesmo tom impessoal, sugeriu que se quisesse, poderia emiti-los pela máquina de autoatendimento. E deu as costas. Em outras palavras, eu que me virasse - e foi o que fiz. Entendo que a moça podia eventualmente estar com pressa, mas o atendimento por um robô teria sido mais amistoso... 

Ao chegar à área de embarque comprei mais um pouco de chocolate com os CZK que me restavam (os preços no freeshop não são convidativos e não há muita variedade) e fui até o portão do meu voo, onde tive algumas horas para continuar a leitura do Érico Veríssimo. Chegamos a Zürich com um pouco de atraso, mas o painel ainda não informava qual seria o portão de embarque do voo para SP. Fiquei apreensivo com o tempo, mas enfim apareceu: Gate A22. Peguei o trem interno que me deixou na área dos portões de embarque. Passagem pelo controle de passaportes e toca a andar até o A22. Chegando lá, novo controle de passaporte no balcão da Swiss e reencontro com os simpáticos ‘nutrólogos’ que conhecera no voo de Zürich a Praga. 

Enquanto aguardava o horário de chamada para o embarque, flagrei uma cena até então inédita:  dois indivíduos (não poderia dizer ‘cavalheiros’), aboletados em quatro cadeiras jogavam cartas animadamente. Bem à vontade, pareciam não se importar em tomar conta do espaço em detrimento dos demais, inclusive os idosos, que gostariam de se sentar. Eu já vira gente esticada em quatro cadeiras para relaxar, mas ocupar o espaço do semelhante com aquele propósito foi a primeira vez. Quem entra em uma sala de espera imagina que deve haver algum grau de civilidade entre as pessoas. Porém, não se deve subestimar a existência do ‘vulgo da humanidade’ (termo empregado por Arthur Schopenhauer), com quem sempre podemos nos deparar em qualquer parte.  

Tendo embarcado na primeira leva, em assento idêntico ao do voo de ida eu aguardava, sem muita esperança, a criatura que se sentaria na poltrona do meio. Mais levas passaram até que uma mulher magra, alta e de cabelos castanhos compridos irrompeu da fila e sentou-se ao meu lado. Vestida de modo informal, pele rosada, olhos claros e na casa dos trinta anos, ela murmurou Guten Abend, ao que eu, polidamente, respondi. 
Imediatamente senti a emanação corporal de alguém que tivesse jogado bola o dia inteiro e não tomasse banho. Tentei relevar, consolando-me com a ideia de que ninguém pode ter sorte sempre. Procurei não olhar para ela para ver se a coisa melhorava, o que acabou acontecendo, quando ela desembrulhou um doce de amendoim, cujo aroma competiu e ganhou daquele que exalava ao chegar. Todavia, o efeito foi fugaz: após o término da guloseima, o bouquet voltou. 
Mas lá pelas tantas, quando já deveríamos estar em altitude de cruzeiro, ela colocou um agasalho, o que filtrou o ar, cujas condições anteriores agora eu só sentia traços. Próximo ao jantar, a alemã (ou seria suíça?) começou a dar o ar da graça. Tendo confabulado com a passageira ao lado, que lhe disse já haver jantado, minha colega propôs que eu perguntasse se ela se importaria de aceitar a bandeja servida pela comissária e cedê-la para nós, com o que a moça concordou. Servidas as refeições, constatei que “para nós”, significava ser exclusivamente para minha colega de poltrona. Não satisfeita, quando lhe mostrei que a senhora idosa da poltrona do corredor não tocara em sua porção de queijo, ela pediu que eu lhe assistisse como intérprete para solicitar à senhora aquela iguaria. Solicitação feita, a vovó lhe forneceu não apenas o queijo, mas ainda um tablete de manteiga. Eu mesmo acabei por lhe oferecer minha garrafinha de vinho tinto - do qual só provara um pouco - o que ela prontamente aceitou, guardando-a. 

A impressão que tive inicialmente foi aos poucos se desfazendo - a ‘suíça-alemã’ era muito comunicativa, perguntava às aeromoças, em seu idioma, de que lugar elas eram e fazia comentários amistosos. Disse-me que morava em um lugar da Suíça, próximo de Bern, onde trabalhava no ramo de hotelaria. Com expressão viva e um tanto jocosa, revelou que se lhe perguntassem de onde era, diria não ser de lugar nenhum e que nem sua mãe e sua família sabiam de seu paradeiro naquele momento. Seu destino era Assunción – Paraguai, de onde seguiria para outra cidade onde se encontraria (assim presumia ela) com seu boy friend.  Parecia animada e um pouco ansiosa por ser a sua primeira viagem à América do Sul e fez algumas perguntas sobre como achar transporte ao chegar à capital paraguaia. Eu até proferi algumas frases em Alemão - a primeira (de modo errado) foi Ich habe dort gewesen, que ela delicadamente corrigiu para Ich bin dort gewesen. Diferentemente do costume atual, ela não ficou absorta em celular ou tela e deplorou a violência gratuita dos filmes que os passageiros dos assentos próximos assistiam durante o voo. Gostou da cor da tinta da caneta Lamy que eu usava e disse que queria aprender a extrair pigmentos coloridos a partir de plantas. 

No final das contas, ela foi uma companhia curiosa e interessante, o que ajudou a tornar mais tolerável o fictício enjoy your flight. 

Estas são as minhas impressões da viagem. Enxerguei-as detrás de uma lente panorâmica e de matizes alegres.  Através dela, voltando ao que dizia no início, concluo que ainda que parecesse remota, realizou-se a boa expectativa. Acaso ou motivo? 

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* ”Com espanto e temor a cobra olhou para um nicho brilhante em que a imagem de um rei venerável era mostrada em ouro puro. Seu corpo bem construído estava coberto por vestimentas simples e uma coroa de carvalho juntava-lhe os cabelos.

Assim que a serpente mirou esse augusto retrato, o rei começou a falar e perguntou:

- De onde vens?

- Dos abismos, redargüiu a serpente, onde brilha o ouro.

- O que é mais precioso do que o ouro? – perguntou o rei.

- A luz – respondeu a serpente.

- O que é mais agradável que a luz? – perguntou aquele.

- A conversa – respondeu esta.”

‘O conto da serpente verde e da linda Lilie’ (Das Märchen von der grünen Schlange und der schönen Lilie). Johann Wolfgang von Goethe. [tradução e posfácio Roberto Ahmad Cattani; e interpretação e comentários Oswald Wirth]. São Paulo. Editora Aquariana, 2012.

 


Ainda sem título

         Naquele dia, ao entrar na UTI quis saber como estava o T, um menino de 8-9 anos, internado havia 3 semanas com um quadro convulsivo de provável causa infecciosa (encefalite). O controle parcial das convulsões fora conseguido por meio de coma induzido por barbitúricos e outras drogas novas. Em meio a evidências de infecção, distúrbios eletrolíticos, crises convulsivas detectadas pelo eletroencefalograma, uso de drogas anticonvulsivantes, suportes cardiocirculatório, ventilatório, nutricional e antibióticos, ele vem sobrevivendo. Pela experiência com casos semelhantes sabemos que as chances de recuperação são muito pequenas e que, mesmo que haja melhora do quadro clínico geral, restarão sequelas neurológicas importantes. Naquela semana, mais uma complicação: apareceu-lhe um exantema polimorfo intenso, de provável causa medicamentosa. Como tememos pela síndrome de Stevens Johnson, na terça feira eu e o JC instamos com o P, neurologista, para que suspendesse o fenobarbital, o que ele fez sem muita convicção. Felizmente o exantema melhorou bastante, o que constatei pessoalmente (um provável caso de DRESS - Drug Reaction with Eosinophilia and Systemic Symptoms).

Sua mãe não percebeu quando entrei no quarto. Estava sentada ao lado direito do filho, imóvel, parecendo dormir, com as mãos pousadas sobre ele. Ao aproximar-me devagar e em silêncio para não incomodá-la, notei que logo abaixo de seus olhos, quase cerrados, revelava-se uma lágrima isolada. Cumprimentei-a, comentando sobre a melhora da pele – o que diante do panorama geral era uma boa nova. Ela sorriu, dizendo-me que ele já estava tendo alguma movimentação nas pernas. Procurando sintonizar com o seu discreto otimismo observei que este, em conjunto com outros dados – ele já estava há 24h sem crises – era um bom augúrio. A cena seria aparentemente comum, não fosse a visão do testemunho silencioso da dor materna que, por poucos segundos, despiu-me da máscara que os de minha profissão aprendem com o tempo a vestir, e que nos afasta de sentimentos que podem interferir em nosso raciocínio e prejudicar a terapêutica. 

        Médicos têm algum poder para mudar a evolução natural das doenças e isso, como ocorria aos pagés e feiticeiros, os distancia um pouco da realidade dos seres humanos. São sensações como a que me passou a lágrima da mãe que nos tornam outra vez pessoas comuns e conscientes de que estamos sujeitos às doenças e tragédias como todo o mundo. 

Como coordenador não tenho contato frequente com os pacientes da UTI e suas famílias, mas apenas uma visão panorâmica e pontual dos casos das crianças internadas. Entretanto, desde aquele momento penso neles como até então não o fizera.

O presente da Rosilene

         Era antevéspera de Natal, época em que a gente corre para atender alguns compromissos e driblar outros. Como eu não voltaria ao hospital nos próximos dias, decidi passar por lá rapidamente para instalar um programa de cálculo de nutrição parenteral e doar um livro ao centro de estudos. 

        No caminho, recebi ligação do JC, preocupado com presente da Rosilene, a enfermeira que tem nos ajudado com boa vontade nas tarefas de verificar o estado dos equipamentos e tratar com os fornecedores. Tranquilizei-o dizendo que pedira ao nosso colega LF para que providenciasse uma lembrança de Natal para ela, o que naquela altura já deveria ter feito. Ele comentou que na circunstância atual seria ainda mais importante dar-lhe alguma coisa pois, da sua parte, ela já lhe havia feito tal gentileza (“apareceu um presente da Rosilene aqui”). 

Quando nos encontramos no saguão do sexto andar, ao ver a Rosilene por perto, ele voltou ao assunto, demonstrando alguma inquietação. Queria saber se eu também havia ganho o meu presente. 

-- Não? Pois você também vai ganhar. Eu ganhei uma caixa de chocolates. Temos que saber se o LF deu uma lembrança da nossa parte, senão vai pegar mal.

Estando ela a uma certa proximidade nossa, desconversei para manter discrição. Porém, a partir daquele momento, a possibilidade do LF ter esquecido de sua missão começou a me incomodar. Liguei para o seu telefone celular que, como em outras ocasiões em que é necessário falar com ele, estava em regime de caixa postal.  

Um pouco mais tarde, já em nossa sala, enquanto preenchíamos a nota fiscal dos honorários repassados pelo hospital, o JC ainda estava intrigado: “Poxa, mas ela não deveria ter dado presentes a nós todos? Por que só eu fui agraciado?”

Desejando finalizar o assunto, respondi alguma coisa como:

-- “Ora, vai ver que ela está a fim de dar pra você!” Mas ele não se resignou: 

-- É provável que o LF também tenha ganhado. Ela gosta dele “pra caralho...”

Esta singela troca de impressões foi subitamente interrompida pela figura da nossa enfermeira, que surgiu à porta e cumprimentou-nos com jovialidade. Então, um JC solícito interrompeu o que estava fazendo e, em um tom mais amistoso do que de costume, levantou-se e disse:

- Ô menina, antes de mais nada eu quero lhe agradecer pelo presente que você me deu. Muito obrigado, mas não precisava se incomodar! – foram suas palavras em meio a votos de feliz natal, abraço e beijinhos como é praxe nessas situações. Terminada a confraternização, ela esclareceu, com ar divertido:

-- Mas que presente? Eu não dei presente nenhum!

-- Não mesmo? E a caixa de chocolates, quem foi que deu? 

-- Sei lá, mas eu não fui.

-- Ué... 

Risadinhas de lá e cá, a cena tornou-se um pouco mais cômica do que embaraçosa quando o JC saiu-se com um gracejo quase feliz: 

--É, mas o beijinho eu não devolvo!

Assim que ela se foi, meu amigo desabafou: “Aquele tonto do WP! Não sabe nem dar uma informação!”

-- O que ele disse pra você?

-- Que tinha um presente da Rosilene para mim! Se não foi da Rosilene de quem teria sido então? 

-- Não sei. É possível que o LF tenha se esquecido do presente, do contrário ela teria feito algum comentário agradecendo. Ponderei que ainda tínhamos tempo, pois ele estaria aqui na manhã seguinte, dia 24. Contudo, ficou a dúvida se Rosilene viria trabalhar na véspera de Natal.  

    Decorridos alguns dias do episódio, ao conversar com o LF soube ele havia sim comprado oportunamente uma  lembrança para a Rosilene e deixado com o WP, colega da UTI, para que o JC, naquele dia, a entregasse a ela em nome da nossa equipe.  Era a caixa de chocolates, segundo a informação do WP o tal “presente da Rosilene” que aparecera na UTI, e que o JC interpretara como sendo destinado a ele.   

    A realidade, cada um a enxerga como quer.


...e o que é uma noite de romance?

Há uma passagem no filme Rois et Reine, do diretor Arnaud Desplechin em que o ator Mathieu Amalric diz a um menino, para encorajá-lo a enfrentar os tempos vindouros que poderiam lhe ser difíceis: “O passado não é o que desapareceu. É o que nos pertence...quando você se sente solitário pode entrar no jardim dos pensamentos e conversar com sua imaginação. ”

Inspirado nessa abstração, narrarei a seguir um breve episódio de uma noite de romance, entre as vividas pelos protagonistas de “Um sorriso” (Crônica II, 2017). Muito tempo se passou desde então, mas  ele ainda encontra seus vestígios quando resolve passear pelas ruínas desse jardim.

Olhos postos no céu reluzente, tentavam identificar os astros conhecidos. Decorridos alguns minutos, se detiveram junto ao topo da escada do plano superior da plantação, de onde se via, mais abaixo, uma casa de tijolos aparentes com a fachada antecedida por agradável alpendre.

Ele sentou-se no patamar, vindo ela de imediato acomodar-se em seu colo, de frente e na posição “a cavaleiro”. Com esse gesto, através do calor que seu períneo irradiava, manifestava, de forma implícita o seu anseio. Silêncio. Olhando-se nos olhos e enlevados pela previsão do que viria, começaram a se beijar. Em seguida, conduzidos pela vontade, desceram até a casa, de mãos dadas. Ao entrarem, ainda sem se soltarem as mãos, ele fechou a porta. A caminho do sofá reataram o beijo, e à medida que evoluíam ele esgueirou sua mão direita pela superfície de suas nádegas – gostava desse contato – e afagando-as, deslizou, procurando desvendar as veredas subjacentes, enquanto a ouvia sussurrar ternamente. Findo esse ligeiro reconhecimento topográfico e sensorial, principiou a lhe desabotoar a blusa e ao concluir, como sempre acontecia, aconchegou-se com a calidez de seu ventre.

O sofá se prestava apenas para acomodar as roupas à medida que ele a despia, no que era acompanhado por ela que, de forma doce, mas resoluta, lhe desafivelava o cinto e abria-lhe o fecho das calças. Cobertos apenas com um mínimo de trajes que pudessem tirar depois, seguiram para o quarto, ele a carregá-la no colo.

Então, sem pressa, ele desprendeu seu delicado sutiã furta-cor, pondo à vista expressivos atributos que evocavam duas polpudas mangas. E seus lábios, até então unidos aos dela, mudaram de pouso, vindo a abocanhar os graciosos bicos que pareciam crescer em tamanho à medida que ele prosseguia. Colocando-a de pé sobre a cama, ele a tomou pela mão, girando-a suavemente até se defrontar com a parte posterior de seus quadris: a visão daquele harmonioso conjunto anatômico era - como deduziu de relance - a prova viva e límpida da existência da Criação Divina. Impelido pela força nascida da confluência das vontades, ele passou a despi-la da única vestimenta que restara. Fê-lo com os dentes, passo a passo, e com delicadeza ajudou-a a deitar-se na cama.

O panorama que se descortinou, contemplado aos olhos de hoje, sugeria-lhe de forma explícita um quadro que mais tarde viria a conhecer durante uma visita ao museu D’Orsay: ‘A origem do mundo’, de Gustave Coubert. Sensibilizado, ele lhe entreabriu as coxas para enaltecer quem lhe dava acolhida em tão encantadora gruta. Acarinhou-a de forma gentil, empregando para tal o órgão destinado a transmitir ao cérebro as sensações gustativas. Ante as manifestações de regozijo por ela emitidas, considerou ser hora de finalizar o prelúdio e passar para ao andamento seguinte – o Andante con moto. 

Mal ele lhe metera a espada ela pediu, quase em tom de súplica “Me chama de meu amor!” Satisfazendo-lhe o desejo, ele recebeu em troca o mais sublime sorriso – mais que um sorriso, um tênue riso - que revelava ao mesmo tempo gratidão e euforia.  A partir daí, em afinada sintonia imprimiram o andamento “Alegro” que evoluiria para o “Alegro com brio” em seu gran finale.  

Durante o interlúdio, do mudo lá fora vinham apenas os sons do arvoredo ou do chuviscar. Mas até então haveria passagens sublimes e intensas, como quando ela pedia “Me bota no seu colo? ” ou “Me pega por trás?” – na qual ele a colocava em posição “gato” do Yoga - além de outras tantas, que não mencionarei aqui, e que com o tempo e a intimidade, tacitamente desenvolveram. Contudo, sempre com o intento de regalar um ao outro e como corolário que demonstrava o quanto se gostavam. Assim construíram um universo próprio de benquerença e reciprocidade. Tendo o vínculo definido por afinidade mútua, não havia entre eles espaço para monotonia e vulgaridade. Juntos aprenderam a diferença que existe entre simplesmente tocar as notas e decifrar os sinais e olhar as nuances de uma melodia para melhor interpretá-la. Afinal, como teria dito Beethoven, “Tocar uma nota errada é insignificante, mas tocar sem paixão é indesculpável”.

O momento “Me bota no seu colo? ”era dos que ela mais gostava, pois fora ela que originalmente o solicitara. Nessa configuração podiam realizar, em harmonia, diferentes andamentos, desde o Adagio até o Allegro, o Vivace e até mesmo o  Presto. Por permitir que ficassem tête-à-tête, seria talvez a que melhor comunhão sensitiva - visual e táctil - proporcionava aos dois. E ainda outorgava a ele a possibilidade de lhe aplicar raras palmadas na bunda (espontâneas e consentidas, naturalmente). Era a que adotavam com maior frequência, podendo-se dizer que seria a sua pièce de résistance.

A configuração “Me pega por trás”, que ela inicialmente desconhecia, mas da qual viria a gostar e pedir, também era concorrida. Dava ensejo a que ela exprimisse balbucios, manifestações verbais de agrado e às vezes movimentos que oscilavam entre o oferecimento e a salvaguarda que açulavam a animação dele. Em uma certa madrugada em que dormiam juntos, ele acordou e notando que tinha sua espada em riste, posicionou sua amada na sobredita configuração e principiou a enfiar-lhe a arma bainha adentro. Como não tivesse usado de muita cerimonia, ela se lamuriou um pouco, mas logo o regalou com receptividade, mulher dadivosa que era.

O que nela o cativara desde os primeiros dias? A suavidade que entregava nos suas ações e palavras e que, como ele viria a constatar mais tarde, se ampliava na delicadeza com que fazia amor. O hábito de empunhar e apertar sua espada de manhã cedo, quando ela a sentia a postos, e suas ternas expressões “Quero te fazer um carinho”, “Você é lindo, sabia? ”, “É meu! ”, “Vem...vem! ”) e “Eu quero ficar assim para sempre” quando estavam se amando, atiraram para longe dele a ideia de reparar em qualquer outra mulher, por mais sedutora que fosse.

Frágil epifania em que eles se elevavam para a uma atmosfera destituída de força da gravidade, libertando-se das contrariedades e inquietações ordinárias da existência! Ao erguer assim os pés da terra sentiam-se felizes e despreocupados – ao menos transitoriamente.

E até os dias de hoje, decorridas décadas de distanciamento, aquelas noites encantadas vem visitar o seu imaginário. Para revivê-las é só pular o muro do jardim....  

10/08/2025

  

Childhood time

Does your childhood seem distant? [...] Twenty years ago, yes, but not in this life stage. Because the closer I feel to the end, the closer I feel to the beginning, as if closing the circle. (To Charles Dickens – A Tale of Two Cities)

After watching Victor Erice's film "The Spirit of the Beehive," I was impressed not only by the symbolism interwoven in the story but also by the scenery and photography. However, the most striking aspect was the eyes of the child actress Ana Torrent and the perspective through which she portrayed the world and everything around her. This brought back memories of my childhood.

Writing on childhood memories. Why do the distant days of childhood and youth often seem idyllic to us? Life was easier, but perhaps it was not as joyful as we paint it. It is our present perspective that casts it in such a light. Could this be because we often recall the positive aspects of the past while glossing over the negative ones?

Alternatively, from a “Schopenhauerian” point of view, this perception can be understood as follows: the eyes through which we saw the world were the ones we had at that time. Today, they are different; they have evolved over the course of our lives. At the age of 9 or 13, our perception of reality was probably different from how we see it now. Perhaps life was not as wonderful as we remember, but our current perspective often paints it that way. At that age, we did not have the evaluation criteria that we have today. This is understandable, given our immaturity. Nor did we know the timeline of events on which we based our experiences. 

Although our will as children was not particularly strong, our innate potential to live and learn was considerably greater than it is today. We were in good health, and our needs were generally met. Apart from schoolwork and chores, occasional annoyances, and punishment for misbehavior, our lives were filled with playful activities—playing, reading books, playing soccer, and exploring the world—and everything was new. There were no major concerns because our parents and families ensured our well-being. We did not perceive the world as it truly is; instead, we saw a hopeful aura for the future. We had faith.

Finally, childhood memories move me because Parque de Aeronáutica, where we lived, allowed us to transcend the mundane boundaries of home, street, and school. The “Parque” was a vast and wonderful physical environment for playing and fantasizing. 

It is no coincidence that I recall the lines from the movie La Ronde (Max Ophüls, 1950): “Nous sommes dans le passé. J’adore le passé. C’est tellement plus remuant que le présent et tellement plus sûr que l’avenir” (We are in the past. I love the past. The past is far more peaceful than the present and much more reliable than the future).

When we write about the past, we often perceive it in this manner. As Mario Vargas Llosa aptly remarked, “Writing is an act of rebellion against reality.”