Dizem que eu caminho muito rápido. Acho que nem tanto, pois quem o diz costuma ser moderado nesse particular – pode ser que o tempo passe mais lentamente para essas pessoas. No entanto, já caminhei ao lado de algumas que me levaram a fazer um esforço extra para acompanhar.
Porém, é verdade que não gosto de andar devagar. Seria bom que o fizesse, porque ainda hoje há coisas pelo caminho que merecem ser vistas com calma. Quem sabe a pressa seja uma herança de minha mãe – que ao contrário de meu pai era ansiosa e sempre procurava se antecipar às eventualidades.
O primeiro percurso que fiz a pé sozinho foi para chegar até a escola, que distava 900 m de casa. Na época havia pouco trânsito de veículos, entre os quais o Chevrolet 1945 de cor preta, comumente utilizado como táxi. A partir da rua Paulo Maldi, uma vez na av. Nova Cantareira eu virava à esquerda e seguia atravessando com cuidado as ruas transversais até chegar ao meu destino. A escola, muito simples, em sua fachada exibia uma placa bem grande que informava: “...este estabelecimento de ensino é destinado a pessoas sem recursos financeiros...”. Porém, todos estudavam lá, independentemente de classe social, cor ou credo. Enquanto não tocava o sinal para a entrada, confraternizávamos, jogando “bafo’ debaixo de uma escada que dava acesso à marquise. Ao término das aulas, o alvoroço da saída e na calçada os vendedores de cocada, rapadura e puxa-puxa compunham o cenário daquelas tardes luminosas. Eu também costumava ir ao mercado municipal para comprar óleo a granel e demais mantimentos. Eram coisas impensáveis para um menino de 6 anos fazer hoje.
Caminhadas memoráveis – que estavam mais para marchas – eram as que eu empreendia de casa até o colégio onde cursava o 3o ano colegial noturno. Eram 2 km, dos quais aproximadamente um terço de ladeira, na rua Voluntários da Pátria, que tornava-se progressivamente íngreme. Mas me movia um objetivo: estar bem preparado para os exames vestibulares. Dado o tempo curto, tudo tinha que ser feito de modo planejado e metódico: sair de casa às 18h30 e chegar ao destino para as aulas, que começavam às 19h15. No dia seguinte acordar às 5h30, sair de casa às 5h45, chegar ao primeiro ponto de ônibus na rua Dr. Cesar às 6h05, e ao segundo, na Praça da República às 6h30 para então pegar o ônibus Circular Avenidas que me deixaria na avenida Paulista a tempo de entrar na classe do cursinho um pouco antes das 7h.
Até hoje eu percorro cinco quadras de um local de trabalho a outro. Mesmo havendo estação de metrô à porta, prefiro deixar esta alternativa para último caso. Quero manter um resquício de otimismo na humanidade. Ao andar, alimento a ilusão de descobrir pelo caminho uma mulher bonita, uma área em que ainda resta vegetação, o perfume da terra e das plantas depois da chuva. E tenho o ensejo de presenciar cenas curiosas, como a protagonizada por um transeunte idoso e baixinho, que às vezes me ultrapassa na altura do viaduto Pedro de Toledo. Vestindo camiseta e calção - o semblante determinado de quem tem uma missão importante e está certo de cumpri-la – ele caminha serelepe, imprimindo aos ombros movimentos simétricos peculiares, ritmados, rápidos e de amplitude muito curta, o que quiçá lhe confira aerodinâmica favorável para obter uma velocidade não condizente com seu tamanho.
Havia as andanças prazerosas, como as que fazíamos quando, fortuitamente dispensados mais cedo da escola, voltávamos em companhia de um colega, a conversar sobre assuntos amenos, entre os quais a canção Poor side of Town, de Johnny Rivers ou sobre sua visita próxima ao Brasil. Ou as de um colorido singular, como aquela em que, descendo a rua Voluntários da Pátria logo após sair da Alfredo Pujol, ao vislumbrarmos duas belas jovens dentro de um Karman-Ghia estacionado, o meu colega disparou: “O que eu queria mesmo era entrar lá dento com uma garrafa de champanhe”. A feliz observação, feita de modo espontâneo e entusiasmado, levou-me a fantasiar no que se poderia fazer com elas naquele espaço apertado (ainda mais com champanhe a bordo). Certamente seria uma bela farra, mas não pude idealizar detalhes, visto que tinha apenas 11 anos de idade.
Mais tarde haveria as trilhas - como a que fizemos na floresta e sobre as rochas junto ao mar no parque Nacional de Tsitsikamma, na África do Sul, e aquela em que, no memo parque, enveredamos por uma área sinalizada como de acesso proibido por risco de desmoronamento – aviso que foi intrepidamente ignorado por minha companheira, que de uma hora para outra resolveu se mostrar corajosa (“que proibido que nada!”). Daí que seguimos adiante à burla da sinalização e não demorou 10’ para toparmos com áreas de deslizamento e alguns troncos caídos – o que era um mau augúrio. Ainda assim continuamos, e à medida que caminhávamos sem saber bem por onde, o fato de não enxergarmos mais nenhuma placa indicativa atestava ser aquela realmente uma área interditada. Então comecei a pensar no tributo a se pagar por uma decisão irrefletida, e mais seriamente em como sair dali vivo. Tendo perambulado por mais meia hora, nosso senso de direção ou o acaso permitiu que avistássemos uma faixa azul na linha do horizonte: existia uma saída para o mar! Sim, chegáramos ao topo de uma colina e torcemos para que que sua descida nos conduzisse à trilha de volta, o que finalmente aconteceu.
Outra ocasião em que nos vimos perdidos foi no Parque Nacional Real do Natal (ainda na África do Sul). Anoitecia quando, depois de transpor com cuidado e coragem as escarpas e fendas rochosas (esforço que consumiu algumas horas) nos demos conta de estar sem orientação. Ao atingir um chão de topografia mais regular e com cobertura vegetal, caminhávamos amparados pela esperança e instruídos pelo instinto, quando conseguimos avistar pontos de luz em um vale ao longe – sinal salvador de indício de presença humana. Quase trôpegos, a nos segurar na capoeira, descemos sob a escuridão até a planície onde ficava o alojamento. Já refeitos, ao ler o guia com atenção, ficamos sabendo que algumas pessoas haviam se extraviado naquela trilha, vindo a perecer.
A seguinte seria no Parque Nacional de Los Glaciares (Patagônia argentina) em uma área entremeada por córregos, pedras e geleiras. A visão dos arredores era tão bela quanto inóspita e nos reteve por algum tempo para admirá-la e matar a fome a sede. Nosso enlevo, porém, durou até a hora em que resolvemos ir embora. Gradualmente foi dando lugar à preocupação de não acharmos qualquer ponto de referência para sair dali. E ali teríamos ficado para sempre se a Providência não nos mostrasse pessoas ao longe que se dirigiam ao local onde acampavam, próximo da subida para a Laguna Sucia (a quase 5 mil metros acima do nível do mar). Lagoa cercada pelo monte Fitz Roy, que para se alcançar seria preciso escalar uma encosta íngreme. Minha companheira declinou do convite. Mas eu estava determinado e porque gosto de lugares altos, comecei a subir, e à medida que subia, tinha que me segurar na vegetação. A perseverança foi recompensada. Ao chegar, dei com um lago de águas translúcidas, cor azul turquesa, rodeado pelo cinza das pedras e das rochas. Naquele lugar ermo era audível apenas o vaivém das águas agitadas pelo vento. Enxergar as dimensões diminutas da planície verde, rios e geleiras lá de cima dava sensação de isolamento, de se estar no fim do mundo, à mercê da natureza e ao mesmo tempo integrado a ela. Não me lembro de ter visto paisagem mais bonita. A operação de descida, que durou aproximadamente 1 h, tive que fazer de costas, gradualmente, com muito cuidado para não cair e segurando com mais força nos arbustos, dado o declive acentuado.
É notável que nas situações em que estamos perdidos e sem ter ideia de qual direção ou sentido tomar, continuamos caminhando decididamente e sem esmorecer da fé de encontrarmos nosso objetivo.
Voltando ao tempo da infância, pergunto-me: qual seria a diferença entre as caminhadas daquele tempo e as atuais?
Eu caminhava para ir até a escola ou para cumprir os mandados de minha mãe - ir à padaria ou à granja comprar ovos (desta última eu não me agradava por ter que subir ladeira). No trajeto ia pensando em um jogo de futebol, em algum craque do nosso time ou nas peladas que disputávamos no campo de grama ou na quadra. Caso faltasse assunto, na professora e nas tarefas escolares. Havia uma expectativa quanto ao futuro - não sabíamos bem qual, mas era uma expectativa boa.
No pensamento vamos a qualquer parte. Isso não é possível hoje dentro de uma estação ou vagão de metrô, onde a visão e o espaço são tomados por tipos não exatamente inspiradores que lá se aboletam (às vezes acomodando-se indevidamente nos assentos preferenciais) ou obstruem a passagem de quem quer sair do vagão...
Subir o aclive da rua Voluntários não era penoso porque o fazíamos com música na cabeça. O que pode ser penoso quando mentalizarmos os acordes e a harmonia de H̲a̲̲ve̲̲ Y̲o̲̲u̲̲ E̲̲̲ve̲̲r S̲e̲̲e̲̲n T̲he̲̲ R̲a̲̲i̲̲n ou L̲o̲̲o̲̲ki̲̲n' O̲̲̲u̲̲t M̲y B̲a̲̲ck D̲o̲̲o̲̲r cantados pelo Credence Clearwater Revival? E ao avançar, nossa expectativa já era mais definida e otimista – entrar em uma boa universidade, definir nosso futuro profissional. Para vencer essa escalada, confiávamos em nós e nas pessoas - pais e mestres - que nos orientavam.
A considerar tal projeção, subir a ladeira nunca foi difícil. Bem, deixando de lado por um momento a benevolência seletiva com que evocamos imagens do passado, reconheço que houve uma exceção: alguns anos antes, eu fizera o mesmo percurso a carregar com os braços, penosamente, uma lâmina de vidro de janela para repor a que havia quebrado durante um bate bola no pátio do colégio. O jogo estava mais para vôlei, mas a bola veio tão de jeito que espontaneamente eu a chutei para o alto. Foi um belo chute e tudo ficaria bem se estivéssemos em um campo ou quadra de esportes e não no pátio de recreio. Não esperava que a bola subisse à altura das janelas superiores do prédio. O vidro era de grandes dimensões e se arrebentou em estilhaços (felizmente não havia ninguém muito perto). Sumiram por encanto os alunos que participavam do jogo (parecia até que alguns nem mesmo estavam ali). Ante a patética prova de cooperação vi-me obrigado a tomar uma atitude voluntariosa, comuniquei o incidente a um funcionário e fui ter com o professor de educação física, que tirou as medidas da janela e com quem me comprometi a substituir o vidro que fora espatifado. Meu pai mandou confeccioná-lo, informando-me que o custo seria devidamente amortizado mediante a modesta contribuição de minha mesada. Caberia então a mim levá-lo até ao colégio por meus próprios meios. E foi o que fiz.
Permanece muito nítido na memória, talvez pelo propósito diverso dos demais, um trajeto nem um pouco fascinante que meu irmão e eu fazíamos, cada um em dias diferentes da semana. A partir de casa pegávamos a rua Lusitana e após um pequeno trecho na Doutor César subíamos a ladeira da Chemin del Pra, virávamos a Alfredo Pujol na esquina do CPOR e prosseguíamos por 1 km ou pouco mais, para chegar à então tranquila rua Heliodora. A Alfredo Pujol, embora com algumas ondulações de plano, não era ruim. Vencidos alguns quarteirões passava-se defronte à Escola Estadual Barão Homem de Mello e mais um quarteirão adiante dobrava-se à esquerda. Compondo uma sequência de construções geminadas, situava-se a casa da Guiomar. Apertávamos o botão da campainha e dali a pouco ela surgia à porta. Em geral torcíamos para ninguém atender, mas salvo circunstâncias excepcionais isso não acontecia. Ela sempre aparecia e então, conformados, subíamos os poucos degraus até a porta de entrada onde ela nos esperava. Guiomar era nossa professora de acordeon.
Permito-me agora fazer algumas digressões. Caminhar até lá não era problema. Excetuando-se a ladeira do CPOR, o itinerário era até agradável e eu o fazia em pouco mais de 30 minutos. O problema eram as aulas da Guiomar. Sua didática (se é que posso definir assim) destoava muito da adotada pelo Bianchin e pela Leonor que, em compensação, eu considerava bonzinhos demais como professores. Porque lecionavam em um bairro distante, a Água Fria, e tinham compromissos mais relevantes, eles haviam sugerido que continuássemos as aulas com aquela nova professora.
Do ponto de vista educativo, no meu entendimento, o que tínhamos com Guiomar não eram propriamente aulas. Seriam antes sessões de cativeiro musical ministradas por aquela mulher magra, de idade indefinida e que usava óculos. Nem bonita nem feia, ela não sorria para mim - provavelmente lhe faltariam motivos. Aos meus olhos seria considerada insípida não fosse a determinação de nos empurrar goela abaixo seus conceitos musicais. Para começar, eu não podia tocar uma música de modo espontâneo e corrigir os erros, ou simplesmente tocar lendo a partitura como fazia com o easy-going Bianchin. Tinha que fazê-lo sempre marcando o compasso e para tanto ela me exortava a levantar e baixar o pé e ao mesmo tempo proferir alternadamente as palavras “tesis” e “arsis”. Mas era difícil saber quando dizer “tesis” ou dizer “arsis” e quando levantar ou descer o pé. O significado disso, até há pouco era para mim um enigma. Li na Britannica que ‘arsis’, um vocábulo de origem grega, significa «levantar o pé ao marcar o ritmo». Refere-se, na poesia, à parte mais leve ou mais curta de um pé poético (a unidade rítmica fundamental na métrica que define o ritmo de um verso) e ‘tesis’ é a parte acentuada. Na poesia latina os significados destas palavras inverteram-se — ‘arsis’ passou a significar a parte acentuada e tesis’ a parte não acentuada. Seja lá o que for, não era algo fácil para uma criança entender. Eu não conseguia levar a bom termo aquela espécie de mantra integrada aos movimentos do pé. Meus erros e eventuais acertos eram saudados com expressões de exasperação ou de algum ânimo (estas mais raras) da Guiomar, que apesar da minha sofrível performance seguia em resoluta crença na infalibilidade de sua técnica pedagógica. Habitualmente a paciência de ambos findava antes que concluíssemos toda a leitura, quando então ela a interrompia (para meu alívio, porque estava a ponto de chorar). Bem ali ao lado estava um exemplar do método de divisão musical e solfejo Bona, que Guiomar em seguida abria para encetar uma segunda sessão de tomentos, se bem que menos requintada que a primeira. A propósito, se ela fosse um livro, estou certo de que seria um Bona.
Eu disse há pouco que salvo circunstâncias excepcionais Guiomar abria a porta quando tocávamos a campainha. Tais circunstâncias, confesso, eram desencadeadas unicamente por minha vontade: ao chegar ao portão da casa eu pressionava o botão de modo tão suave que ela dificilmente soaria. Esperava por um tempo correspondente ao habitual para ela aparecer, e como não aparecia, arrancava de volta para casa com uma sombra de remorso, que era logo espantada pelas sensações de alento e leveza que sobrevinham. Seja por seus métodos pedagógicos ou por não lhe ver nenhum encanto (mesmo que oculto) eu desisti de aprender aquele instrumento de que até gostava.
E vejam que Guiomar dava aulas não apenas de acordeon, mas também de violão e piano, ostensivamente dispostos na parte da frente de sua sala de estar, preparada para tal. Alguns meses mais tarde, ganhei de minha tia um violão Giannini com cordas de aço, que chegou trazido por uma sempre benfazeja portadora – a Kombi da VARIG. A Guiomar, nossa única referência, era a alternativa natural para me familiarizar com o novo instrumento. Minha vontade era a de aprender a solar, mas Guiomar limitava-se a ensinar acompanhamento. Pois aprenderia com ela os primeiros acordes, o que afinal, era melhor do que nada.
E voltei a fazer o trajeto até a rua Heliodora. No começo até entusiasmei-me com “Lampião de Gás” (Inezita Barroso), “O teu orgulho” (Carlos José) e “Ensinando a bossa-nova” (versão de Blame it to bossa nova, de Eydie Gormé, interpretada pelo Trio Esperança) - canções que além de executar a harmonia básica eu tinha que cantar, em geral secundado por ela (ou vice versa). Mas esta é outra história.
Decorridos dez anos, vejo-me agora, já no 5o ano da faculdade, a retornar do hospital onde, no centro cirúrgico, passara a tarde a fazer postectomias a troco de auxiliar outras tantas, sob orientação de um residente japonês que já devia estar farto de operar as levas de internos de uma fundação que cuidava de menores. Já era noite e eu marchava para casa sentindo-me de um urologista nato ou pelo menos alguém que ponderava ser um.
Uma das jornadas que mais me agrada recordar é a que, em 1999, fiz durante uma viagem solitária à Irlanda. Mal chegara a Dublin, saí no final da tarde da Hydra House, casa onde me hospedara, na Ionna Road, rumo a Temple Bar, zona boêmia tradicional. A perspectiva de ir à procura do novo suavizava o esforço. De posse do Frommer’s Guide, de um mapa fornecido pelo Johnny (meu anfitrião) venci – após algumas desavenças com mapa - dez quarteirões até chegar à ponte sobre o rio Liffey. Anoitecia e transitando pelas imediações, onde passava muita gente, me surpreendi de ver muitos jovens. Um tanto eufórico, já tinha me esquecendo de coisas básicas quando fui alertado por um aroma de peixe frito e batatas – especialidade da Beshoff Bross desde 1905. Decidi arriscar, entrei no self-service e não obstante o teor nutricional pouco saudável, dei boas-vindas à refeição.
No regresso, a caminhada me pareceu mais branda e já próximo à moradia, avistei o Mapples Pub. Vindo do interior do pub, um convite sonoro me atraiu e entrei. Aos poucos, identifiquei a harmonia e a cadência daqueles sons: às vezes cheia de energia e movimento ou transmitindo suavidade e quietude, mas sempre passando longe do convencional. Lá dentro, dei com uma atmosfera bem distante da agitação e barulho dos botecos comuns – nada de gente a gritar ou a rir alto, apenas pessoas conversando serenamente. Acomodar-me - auxiliado por um generoso copo de cerveja – e sintonizar com a harmonia do ambiente, decorado com móveis estofados de cor vermelha e ares dos anos 1940, diminuiu gradualmente o estado hiperdinâmico em que eu estava. Saí de lá descansado e entrevendo que meu caminho por aquelas terras seria promissor.
Confirmei o prognóstico ao me embrenhar pelos recônditos do Jardim Botânico dublinense. Era outono, estação em que no hemisfério norte as folhas das árvores atingem sua beleza suprema e derradeira. Percorri as acolhedoras alamedas e dei com as majestosas estufas brancas que se erguiam bem alto contra o fundo azul da manhã. Lá dentro, contemplei as flores, orgulhosas a se exibir para escolares adolescentes, que as desenhavam tão absortos que parecia que eles é que estavam a posar. Do lado de fora, monitoras passeavam suas crianças por uma orgia de ideias coloridas...
Mas tarde, a caminho do ponto de ônibus, eu parava por instantes diante das entradas de algumas das casas da Ionna Road para admirar as belas portas dublinenses, junto das quais se via, sobre o tapete da entrada, o pão e o leite.
Tudo isso eu observei logo nos primeiros dias. Foram cenas que me transportaram a um Brasil de antes, perdido no tempo. Sinto tristeza ao retornar aos dias atuais.
Abril, 2026