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D’um film à l’autre* ou "Ir ao cinema no passado"

Morar em uma república de estudantes tem o lado bom e o lado ruim. Para dar certo é preciso ter espírito gregário, que é providencialmente acentuado nessa fase da vida. Se temos que nos adaptar à perda de privacidade, à rotina e às obrigações inerentes, em troca, além de recebermos o bem máximo da camaradagem podemos exercer atividades em comum, como o lazer. Um dos que me lembro com saudade é ir ao cinema. Este foi um hábito que compartilhamos durante os três ou quatro primeiros anos de escola. Não havia até então plantões noturnos para dar. Tivemos a sorte da cidade, que na época tinha por volta de trezentos mil habitantes, contar com bons cinemas - Windsor, Regente, Jequitibá, Ouro Verde - onde se podia assistir aos principais filmes que estavam em cartaz na capital. Não eram “cines de arte”, mas foi neles que iniciamos contato com alguns diretores clássicos, em sua maioria atuantes nos anos 1970 – Federico Fellini, Ingmar Bergman, Orson Welles, Woody Allen, Roman Polanski, Claude Lelouch. É que os filmes – e o gosto do público eram de muito melhor qualidade. Claro, tínhamos Lando Buzzanca e as pornochanchadas nacionais. Porém, Terence Hill e Bud Spencer estavam lá para equilibrar e por aqui havia produções até razoáveis.

Após nos instalarmos nas poltronas, esquecíamos da vida. Nosso único compromisso era viajar por caminhos e lugares mágicos, transportados por roteiros de tramas encenadas por Jean Paul Belmondo, Romy Schneider, Jacqueline Bisset, Ingrid Berman, Liv Ullmann, Barbra Streisand, Dustin Hoffman, John Voight, Donald Sutherland, Jack Nicholson e tantos outros. 

Terminada a sessão, comungávamos de um mesmo pensamento. Pouco importava se era um drama de cunho psicológico, saga, musical, triste, trágico ou engraçado. Animados, percorríamos os então tranquilos quarteirões de volta para casa a interpretar as ideias, o sentido da história, e às vezes da ilusão que acabávamos de viver.  E dessa forma, agraciados pela dádiva que a invenção dos irmãos Lumière nos concedeu, seguíamos até a hora de dormir. Livres de preocupações e encargos, pelo menos até a manhã do dia seguinte, quando acordávamos cedo para ir à escola.

*Alusão a um filme de Claude Lelouch

De onde adquiri o gosto pelo cinema? Procurando na memória, não demoro para  identificar o dia em que, levados por meu pai, fomos a uma sessão de cinema pela primeira vez. Foi em 1958 e eu devia ter uns 5 anos. Morávamos em Curitiba, no quarto de um hotel simples, de longa permanência, cujo banheiro ficava no corredor e servia a todos os hóspedes do andar. Eu e meu irmão dormíamos em colchões no chão e minha irmã, que tinha alguns meses de vida, em um berço. Meu pai quase não víamos, pois estava sempre no trabalho ou nos estudos e quando chegava já estávamos dormindo. Mas naquele dia ele entrara em férias e levou-nos ao cinema. Foi uma sessão matutina de sábado, que começou com um noticiário; do filme tenho vaga ideia - eram animações em preto e branco. Devo ter gostado e de qualquer modo, foi um começo. 

Da segunda vez eu me recordo mais nitidamente. Em um domingo à tarde minha mãe nos levou para assistir A Família Trapp (precursor de A noviça rebelde) – produção alemã que vinha sendo fartamente anunciada no jornal, o que nos criou expectativas. Fiquei impressionado com a história, os protagonistas e com a cores; suponho ter sido então que tomei gosto pela coisa. 

Já em São Paulo, meu pai nos levou para assistir à sessão matutina de A bela adormecida, conto de fadas de Charles Perrault que Walt Disney adaptou e produziu para o cinema. Era um feriado de 7 de setembro, em 1960. Pegamos um ônibus que nos deixou na avenida Ipiranga, onde ficava o cinema do mesmo nome. A sessão havia recém começado quando chegamos. Ver as imagens em uma tela enorme pareceu um sonho. A primeira cena mostrava um livro antigo e de capa luxuosa iluminado por uma vela. Então abriam-se páginas com gravuras medievais e uma voz começava a narrar assim: “Era uma vez, em um país bem distante, um, rei e uma rainha que havia muito desejavam uma criança. Finalmente viram seu desejo atendido: nasceu-lhes uma linda menina a que deram o nome de Aurora”. 

Enlevados pela trama, personagens, cores vivas e músicas, experimentamos momentos emocionantes, em especial meu irmão menor, que com medo da figura da bruxa, próximo das cenas finais tratou de se esconder no banheiro. Para que ele saísse de lá tivemos que convencê-lo de que já não havia perigo.

Depois daquela manhã histórica fizemos algumas incursões esparsas ao cinema levados por nossos familiares do Sul, em Porto Alegre ou quando vinham a São Paulo. Era uma festa quando eles nos visitavam. Foi em uma dessas ocasiões que conheci a menina Marisol, uma pequena atriz e cantora espanhola cativante, através do filme “Um raio de Luz”, que assisti com minha tia Esther em 1961. 

Um acontecimento importante viria tornar costumeiras nossas idas ao cinema. Fôramos morar em uma vila (Parque de Aeronáutica de São Paulo) em que todos os sábados às 20h era organizada uma sessão para os moradores. O que faltava em conforto – cadeiras duras de fórmica distribuídas na área improvisada de um salão refeitório e uma tela ao fundo onde eram projetadas fitas em carretel – era plenamente retribuído pela promessa da fantasia em que estávamos prestes a adentrar. As aventuras, épicos, romances e dramas, em geral tinham censura livre, embora me parecessem destinados a um público com pelo menos 12 anos de idade:  Helena de Troia (1956), As aventuras de Tom Sawyer (1938), Trapeze (1956; direção de Carol Reed, com Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida), Candelabro italiano (1962) com sua canção tema Al di Là - então um paradigma do romantismo (acho que até hoje) - cantada por Emilio Pericoli (link: https://www.youtube.com/watch?v=Bni1BnVGH-U0) e Afundem o Bismark! (1960) entre os que eu me recordo.

Para um olhar de menino não havia filmes ruins – todos, segundo meu juízo eram bons ou espetacularmente bons. 

E as atrizes? Amores platônicos que eu substituía a cada semana, pois elas me pareciam a cada filme ser diferentes e mais belas. Penso que eu imergia nas histórias guardadas nas películas de celuloide tão profundamente como nas dos livros que lia. Com a vivência - e as leituras - comecei a reunir parâmetros estéticos que me guiariam na agradável tarefa de qualificá-los.

Durariam até o final de 1964 aquelas jornadas cinematográficas. Dois anos e meio, durante os quais excepcionalmente deixei de comparecer. Nossa última foi para ver Tarzan e a mulher leopardo, protagonizado por Johnny Weissmuller. Infelizmente não chegaríamos a assistir Tarzan contra o mundo, que possivelmente marcou o final da sequência de sessões.

Provavelmente no passado não existia público em quantidade suficiente para a chamada “indústria cultural” enfiar no mercado tantas produções de má qualidade como vemos hoje. Mesmo nos anos 70, quando se intensificou o processo de massificação, havia espaço para filmes de qualidade. Quando saíamos de casa, era para assistir a longas-metragens que de antemão sabíamos ser conceituadas, pois entravam em cartaz aqui meses ou depois de lançados no exterior. Refiro-me a You only live twice (1967, com Sean Connery) Mash (1970, Robert Altman), Ardil 22 (1970, Mike Nichols), Pequenos Assassinatos (1971, Alan Arkin), A bela da tarde (1967, Luis Buñuel), Ao mestre com carinho (1967)  Gritos e sussurros e Cenas de um casamento (Ingmar Bergman), Easy Rider (1969, Denis Hopper), Midnight cowboy (1969, John Schlesinger), Sonhos de um sedutor (1972, Woody Allen), China Town (1974, Roman Polanski), Cantando chuva (1952). De Werner Herzog, O enigma de Kasper Hauser (1974), Aguirre, a cólera dos deuses (1972), Coração de Cristal (1976), Strozek (1977), Fitzcarraldo (1982); de Carlos Saura, Cria Cuervos (1976) e Mamãe faz 100 anos (1979)... 

Ficou na lembrança a tarde em que assistimos 2001, uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick), que assistimos no cine Regina, na avenida São João. Era 20 de julho de 1969, dia em que pela primeira vez o homem pisou na lua. Na volta fomos jogar futebol e trocamos impressões entusiasmadas.

Ainda olhando para trás, vejo-me na classe da escola estadual onde cursava o terceiro ano colegial noturno, na noite em que, não sei por qual motivo fôramos dispensados depois da primeira aula. Conversando com um amigo, resolvemos aproveitar a deixa para ir ao cinema. Embora fosse coisa impensável na fase de estudos em que estávamos, eu me mantinha mais ou menos inteirado da programação, pela sinopse dos filmes publicada nos jornais. Descemos do ônibus na Praça da República – parece que caía uma chuva fina - e caminhamos até o Cine Ipiranga. Os cartazes, logo na marquise do prédio, confirmaram o título: The Counterfeit traitor, dirigido por George Seaton e produzido pela Paramount, em que William Holden e Lili Palmer representam uma história verdadeira passada durante a II Guerra Mundial. Um executivo sueco de origem americana, Erick Erickson, é pressionado pela inteligência britânica para simpatizar com os nazistas e assim ter livre acesso à Alemanha a pretexto de fazer negócios, mas com o intuito de obter segredos estratégicos sobre a produção de petróleo. À medida que a história se desdobrava, identifiquei-a na leitura que fizera anos antes de uma condensação de livros editada pela Reader's Digest, publicada aqui como "O homem que enganou Himmler" e escrita por Alexander Klein. Todavia, conhecer vagamente a trama foi suficiente para impedir que a força dramática transmitida pelo roteiro e a qualidade cênica dos atores me contagiasse.  

A chuva já cessara ao ganharmos a rua. Pegando os trólebus Mandaqui, saltei na Voluntários da Pátria (meu amigo mais adiante, no final da av. Cruzeiro do Sul). Com as cenas gradualmente se esvanecendo na mente, marchei por uns 15’ até chegar em casa, já por volta da meia noite. A realidade me esperava dali a pouco – às 5h30 eu deveria estar de pé para ir ao cursinho pré-vestibular. Então, desfazendo-me dos efeitos cinematográficos que restavam, deitei-me e não demorei para adormecer. É possível ter sido aquela a única sessão de cinema a que assisti no período.

Cinco décadas se passaram e continuo a descobrir trabalho de cineastas que não tive o ensejo de conhecer quando eram ativos. São incontáveis, mas remoendo meu inventário de imagens, vejo os americanos Frederic March, Louise Brooks, Os irmãos Marx, Paulette Goddard, Edward G. Robinson, Jean Arthur, Joan Crawford, Joan Fontaine, Peggy Dow, Vincent Price, Glenn Ford, Humphrey Bogart, Gregory Peck, Joseph Cotten, Burt Lancaster, o diretor John Huston, Willian Holden, Cary Grant e James Stewart (este último, o que eu mais admiro); os britânicos Charles Chaplin, Claude Rains, Trevor Howard, Valerie Hobson, Ray Milland, David Niven, Audrey Hepburn e mais recentemente Peter Sellers, Charlotte Rampling, Emma Thompson e Anthony Hopkins, que vi em plena atividade; a atriz e inventora austríaca Hedi Lamarr, as alemãs Marlene Dietrich e Hildegarde Knef, os italianos Ugo Tognazzi, Claudia Cardinale e Marcello Mastroianni. Este último vi atuar em Ginger & Fred (1986, Federico Fellini) e já bem próximo de se despedir da vida, em Viagem ao Princípio do Mundo (Manuel de Oliveira 1997). 

Continuando, os franceses Louis de Funès – na personagem do resoluto e atrapalhado gendarme Ludovic Cruchot, Lino Ventura - o franco-italiano (que não se naturalizou francês) - a interpretar um inspetor de polícia durão com a mesma categoria com que representava um contraventor, e o grande Jean Gabin (A grande ilusão - 193, Cais das sombras - 1938 e A besta humana -1938). Estes são apenas alguns entre muitos, que podem ser vistos em Internet archive, ok.ru, vkvideo.ru, Belas Artes à La Carte ou em sites de cinema no Youtube.

Creio já ter assistido a uma boa parte dos grandes filmes, os mais e os menos conhecidos, os elogiados e os não tão elogiados. Obviamente não me lembro de muitos deles, mas de bate-pronto poderei nomear alguns: A noviça rebelde (1965); Mash (1970; A primeira noite de um homem (1967); Um corpo que cai (1958), Amargo pesadelo (1972); Amarcord (1973); O terceiro homem (de 1949 dirigido por Carol Reed; entre outros grandes atores, contou com a curta, mas decisiva atuação de Orson Welles); Meu tio (1958); As férias do Monsieur Hulot (1953) ambos de Jacques Tati, o já mencionado 2001, Uma odisséia no espaço (1968); Os incompreendidos (François Truffaut, 1959); os alemães Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982), “M”, o Vampíro de Dusseldorf (1931), Dr. Mabuse (série das décadas de 1920 e 1930), Metropolis (1927) estes últimos dirigidos por Fritz Lang, O gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920), Nosferatu (original: Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, de 1922, Werner Murnau); Casablanca (1942, direção de Michael Curtiz e atuação de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman entre outros notáveis), Grandes esperanças (David Lean,1946), Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 1957); Deu a louca no mundo (Stanley Kramer, 1963, com participação de Spencer Tracy); Fanny e Alexander (Ingmar Bergman, 1982), Cidadão Kane (Orson Welles, 1941),  Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975) e Asas do Desejo (Wim Wenders, 1987, com desempenhos inesquecíveis de Bruno Ganz e Peter Falk) além daqueles que a memória deixou para trás. 

Quase ia me esquecendo de O marido da cabeleireira (1990), do diretor Patrice Leconte. É a história de Antoine, um menino obcecado pela cabeleireira do bairro e que enfiou na cabeça que se casaria com uma quando crescesse. A direção e a surpreendente trilha sonora aliaram-se ao talento coreográfico de Jean Rochefort e à atriz italiana Anna Galiena em cenas em que o sensual, o burlesco, o alegre, o triste e o trágico se entrelaçaram para compor um filme que aguça o olhar e o espírito. Do mesmo diretor assisti a outros, ocorrendo-me agora o hilário e irreal Dança dos desejos (de 1993, com Philippe Noiret, Miou-Miou, Jean Rochefort), Ridicule (1996, com a bela Fanny Ardant e Jean Rochefort) e o comovente Passagem para a vida (2002, com Jean Rochefort e Johnny Hallyday). 

Com a licença dos cinéfilos de antigamente citarei um filme contemporâneo: Rois et Reine (2004). O diretor Arnaud Desplechin conseguiu reunir Emanuelle Devos, Mathieu Amalric e Catherine Deneuve em um pano de fundo em que personagens marcantes - porque visceralmente humanas - transitam com naturalidade entre o dramático e o jocoso. Em especial, a de Mathieu Amalric (aparentemente desvairada, mas no fundo, a mais lúcida). É um filme denso, que conversa sobre temas sérios sem ser pesado, sendo antes de tudo belo e às vezes, poético. Neste particular, chamou-me a atenção, entre outras passagens memoráveis, aquela em que Emanuelle Devos alude aos versos de Emily Dickinson, cuja versão em Português e o texto original transcrevo em seguida:  

A Água se aprende pela sede

A Terra pelos mares atravessados

O Êxtase pela agonia -

A Paz pelas batalhas vividas

O Amor pelos jazigos da memória

Os Pássaros, pela neve


Part Four: Time and Eternity, CXXXIII

WATER is taught by thirst; Land, by the oceans passed; Transport, by throe; 

Peace, by its battles told; Love, by memorial mould; Birds, by the snow.

Emily Dickinson (1830–86).  Complete Poems.  1924.


Os filmes que citei, além de outros, incontáveis, nos trouxeram enlevo, alegria, emoção, riso, medo, entusiasmo, surpresa - sensações que permitiam sublimar, por algum tempo, preocupações e contrariedades. 

Gostaria de ter tempo e inspiração para escrever sobre trilhas sonoras, como as compostas por Nino Rota para os filmes de Fellini, as músicas originalmente feitas para os filmes de Truffaut, as clássicas que Walt Disney inseria em suas animações de curta e longa metragem e as que Stanley Kubrick sabia, como só ele, integrar às suas obras. E quem sabe, sobre as comédias dançantes de Fred Astaire e Ginger Rogers. 

Até agora quase não falei sobre as salas de cinema da época. Algumas eram cômodas e podiam prover um ambiente favorável para se levar a namorada ou a moça com quem se pretendia namorar. Outras nem tanto: na praça Roosevelt por exemplo, os recintos apertados do Cine Bijou onde eram exibidas fitas de qualidade, e na rua da Consolação, as duas salas do Cine Belas Artes. Os cinemas do centro, como Paissandu, Metro e Marrocos já estavam decadentes, mas subsistiam o Metrópole e o Copan. E o Comodoro, na avenida São João, com três projetores em tela curva, onde em 1965 assistimos As 7 maravilhas do mundo. Os melhores situavam-se na região da avenida Paulista - as grandes salas do Bristol e do Liberty, no Center 3, o Astor, no conjunto Nacional e o Gazeta. Na rua Augusta, o hoje “Espaço Petrobras de Cinema” e no sentido Jardins, o Vitrine e o CineSesc (este o melhor de todos). Na avenida Paulista com Joaquim Eugênio de Lima, o Top Cine, onde assistimos aos filmes do Éric Rohmer e à fascinante sequência de François Truffaut, iniciada com Os incompreendidos (1959), continuando com Antoine e Colette (1962), Beijos Proibidos (1968), Domicílio Conjugal (1974) e Amor em fuga (1979), vivida por Jean-Pierre Léaud no papel de Antoine Doinel, segundo dizem, o alter ego do diretor. A propósito, em 1966 François Truffaut transformou a insólita distopia descrita no livro Farenheit 451 (Ray Bradbury) – em que bombeiros incendeiam casas onde tenham sido encontrados livros - em um bom filme, encenado por Julie Christie e Oskar Werner. Trata-se de uma metáfora tristemente atual, que alerta para se resistir com a leitura e o pensamento crítico diante da influência que a mídia, os formadores de opinião e os que detêm poder exercem sobre o grande público de não pensantes.   

Não poderia mencionar salas de cinema de outrora sem falar do Hollywood, tradicional cine de rua situado no aclive suave da Voluntários da Pátria, em Santana. Com mais de mil assentos e provido de todos os equipamentos (inclusive lanterninhas uniformizadas e bomboniere que vendia drops Dulcora) era confortável para um cinema de bairro e poderia até ser considerado como uma instituição. Lá assistimos A Noviça Rebelde, os clássicos de Alfred Hitchcock como o insuperável suspense psicológico Um corpo que cai (Vertigo, cujos locais de filmagem visitei décadas depois), Frenesi, Marnie, confissões de uma ladra e Disque M para matar, A corrida maluca (1968) ...os pseudo-épicos da série Maciste e afins (décadas de 1950 e 1960) e na onda dos filmes-catástrofe, O destino do Posseidon (1972). 

Santana na época era quase provinciana, mas tinha vida e identidade próprias. Perto de hoje, era um bairro pacato. Sua arquitetura, o comércio, a atmosfera social e os tipos humanos que se via nas ruas ainda não haviam tomado o rumo da deterioração que mais tarde viria a desfigurá-los. Eram pontos de referência clássicos as paróquias Sant’ana, Santa Terezinha e N.Sa. Salete, as construções em estilo normando da Biblioteca Municipal Narbal Fontes e do castelo, as padarias Estrela Polar, do Comércio, Aviação e Morávia, o CPOR, o Campo de Marte, o antigo Grupo Escolar Buenos Aires... no Alto de Santana os colégios Santana, Imperatriz Leopoldina e CEDOM, o Hospital do Mandaqui, a caixa d’água e o restaurante Chácara Souza. Na rua Voluntários da Pátria (onde na Quaresma passava uma procissão) e em suas imediações o “Cordão de ouro discos”, a fábrica de chocolates LAF, Violões Di Giorgio, Casas Pernambucanas, Bar do Justo...e o cine Hollywood. 

Vamos nos lembrar daquele universo peculiar tal como era nos anos 50 e 60. Só quem nele habitou poderia se dar a estas divagações...

A continuar como “Minha vinda para Santana”

Abril, 2024. 









Pernas de andarilho

Dizem que eu caminho muito rápido. Acho que nem tanto, pois quem o diz costuma ser moderado nesse particular – pode ser que o tempo passe mais lentamente para essas pessoas. No entanto, já caminhei ao lado de algumas que me levaram a fazer um esforço extra para acompanhar. 

Porém, é verdade que não gosto de andar devagar. Seria bom que o fizesse, porque ainda hoje há coisas pelo caminho que merecem ser vistas com calma. Quem sabe a pressa seja uma herança de minha mãe – que ao contrário de meu pai era ansiosa e sempre procurava se antecipar às eventualidades. 

O primeiro percurso que fiz a pé sozinho foi para chegar até a escola, que distava 900 m de casa. Na época havia pouco trânsito de veículos, entre os quais o Chevrolet 1945 de cor preta, comumente utilizado como táxi. A partir da rua Paulo Maldi, uma vez na av. Nova Cantareira eu virava à esquerda e seguia atravessando com cuidado as ruas transversais até chegar ao meu destino. A escola, muito simples, em sua fachada exibia uma placa bem grande que informava: “...este estabelecimento de ensino é destinado a pessoas sem recursos financeiros...”. Porém, todos estudavam lá, independentemente de classe social, cor ou credo. Enquanto não tocava o sinal para a entrada, confraternizávamos, jogando “bafo’ debaixo de uma escada que dava acesso à marquise. Ao término das aulas, o alvoroço da saída e na calçada os vendedores de cocada, rapadura e puxa-puxa compunham o cenário daquelas tardes luminosas. Eu também costumava ir ao mercado municipal para comprar óleo a granel e demais mantimentos. Eram coisas impensáveis para um menino de 6 anos fazer hoje.

Caminhadas memoráveis – que estavam mais para marchas – eram as que eu empreendia de casa até o colégio onde cursava o 3o ano colegial noturno. Eram 2 km, dos quais aproximadamente um terço de ladeira, na rua Voluntários da Pátria, que tornava-se progressivamente íngreme. Mas me movia um objetivo: estar bem preparado para os exames vestibulares. Dado o tempo curto, tudo tinha que ser feito de modo planejado e metódico: sair de casa às 18h30 e chegar ao destino para as aulas, que começavam às 19h15. No dia seguinte acordar às 5h30, sair de casa às 5h45, chegar ao primeiro ponto de ônibus na rua Dr. Cesar às 6h05, e ao segundo, na Praça da República às 6h30 para então pegar o ônibus Circular Avenidas que me deixaria na avenida Paulista a tempo de entrar na classe do cursinho um pouco antes das 7h.

Até hoje eu percorro cinco quadras de um local de trabalho a outro. Mesmo havendo estação de metrô à porta, prefiro deixar esta alternativa para último caso. Quero manter um resquício de otimismo na humanidade. Ao andar, alimento a ilusão de descobrir pelo caminho uma mulher bonita, uma área em que ainda resta vegetação, o perfume da terra e das plantas depois da chuva. E tenho o ensejo de presenciar cenas curiosas, como a protagonizada por um transeunte idoso e baixinho, que às vezes me ultrapassa na altura do viaduto Pedro de Toledo. Vestindo camiseta e calção - o semblante determinado de quem tem uma missão importante e está certo de cumpri-la – ele caminha serelepe, imprimindo aos ombros movimentos simétricos peculiares, ritmados, rápidos e de amplitude muito curta, o que quiçá lhe confira aerodinâmica favorável para obter uma velocidade não condizente com seu tamanho.  

Havia as andanças prazerosas, como as que fazíamos quando, fortuitamente dispensados mais cedo da escola, voltávamos em companhia de um colega, a conversar sobre assuntos amenos, entre os quais a canção Poor side of Town, de Johnny Rivers ou sobre sua visita próxima ao Brasil. Ou as de um colorido singular, como aquela em que, descendo a rua Voluntários da Pátria logo após sair da Alfredo Pujol, ao vislumbrarmos duas belas jovens dentro de um Karman-Ghia estacionado, o meu colega disparou: “O que eu queria mesmo era entrar lá dento com uma garrafa de champanhe”. A feliz observação, feita de modo espontâneo e entusiasmado, levou-me a fantasiar no que se poderia fazer com elas naquele espaço apertado (ainda mais com champanhe a bordo). Certamente seria uma bela farra, mas não pude idealizar detalhes, visto que tinha apenas 11 anos de idade. 

Mais tarde haveria as trilhas - como a que fizemos na floresta e sobre as rochas junto ao mar no parque Nacional de Tsitsikamma, na África do Sul, e aquela em que, no memo parque, enveredamos por uma área sinalizada como de acesso proibido por risco de desmoronamento – aviso que foi intrepidamente ignorado por minha companheira, que de uma hora para outra resolveu se mostrar corajosa (“que proibido que nada!”). Daí que seguimos adiante à burla da sinalização e não demorou 10’ para toparmos com áreas de deslizamento e alguns troncos caídos – o que era um mau augúrio. Ainda assim continuamos, e à medida que caminhávamos sem saber bem por onde, o fato de não enxergarmos mais nenhuma placa indicativa atestava ser aquela realmente uma área interditada. Então comecei a pensar no tributo a se pagar por uma decisão irrefletida, e mais seriamente em como sair dali vivo. Tendo perambulado por mais meia hora, nosso senso de direção ou o acaso permitiu que avistássemos uma faixa azul na linha do horizonte: existia uma saída para o mar! Sim, chegáramos ao topo de uma colina e torcemos para que que sua descida nos conduzisse à trilha de volta, o que finalmente aconteceu.

Outra ocasião em que nos vimos perdidos foi no Parque Nacional Real do Natal (ainda na África do Sul). Anoitecia quando, depois de transpor com cuidado e coragem as escarpas e fendas rochosas (esforço que consumiu algumas horas) nos demos conta de estar sem orientação. Ao atingir um chão de topografia mais regular e com cobertura vegetal, caminhávamos amparados pela esperança e instruídos pelo instinto, quando conseguimos avistar pontos de luz em um vale ao longe – sinal salvador de indício de presença humana. Quase trôpegos, a nos segurar na capoeira, descemos sob a escuridão até a planície onde ficava o alojamento. Já refeitos, ao ler o guia com atenção, ficamos sabendo que algumas pessoas haviam se extraviado naquela trilha, vindo a perecer.  

A seguinte seria no Parque Nacional de Los Glaciares (Patagônia argentina) em uma área entremeada por córregos, pedras e geleiras. A visão dos arredores era tão bela quanto inóspita e nos reteve por algum tempo para admirá-la e matar a fome a sede. Nosso enlevo, porém, durou até a hora em que resolvemos ir embora. Gradualmente foi dando lugar à preocupação de não acharmos qualquer ponto de referência para sair dali. E ali teríamos ficado para sempre se a Providência não nos mostrasse pessoas ao longe que se dirigiam ao local onde acampavam, próximo da subida para a Laguna Sucia (a quase 5 mil metros acima do nível do mar). Lagoa cercada pelo monte Fitz Roy, que para se alcançar seria preciso escalar uma encosta íngreme. Minha companheira declinou do convite. Mas eu estava determinado e porque gosto de lugares altos, comecei a subir, e à medida que subia, tinha que me segurar na vegetação. A perseverança foi recompensada. Ao chegar, dei com um lago de águas translúcidas, cor azul turquesa, rodeado pelo cinza das pedras e das rochas. Naquele lugar ermo era audível apenas o vaivém das águas agitadas pelo vento. Enxergar as dimensões diminutas da planície verde, rios e geleiras lá de cima dava sensação de isolamento, de se estar no fim do mundo, à mercê da natureza e ao mesmo tempo integrado a ela. Não me lembro de ter visto paisagem mais bonita. A operação de descida, que durou aproximadamente 1 h, tive que fazer de costas, gradualmente, com muito cuidado para não cair e segurando com mais força nos arbustos, dado o declive acentuado.

É notável que nas situações em que estamos perdidos e sem ter ideia de qual direção ou sentido tomar, continuamos caminhando decididamente e sem esmorecer da fé de encontrarmos nosso objetivo.  

Voltando ao tempo da infância, pergunto-me: qual seria a diferença entre as caminhadas daquele tempo e as atuais?

Eu caminhava para ir até a escola ou para cumprir os mandados de minha mãe - ir à padaria ou à granja comprar ovos (desta última eu não me agradava por ter que subir ladeira). No trajeto ia pensando em um jogo de futebol, em algum craque do nosso time ou nas peladas que disputávamos no campo de grama ou na quadra. Caso faltasse assunto, na professora e nas tarefas escolares. Havia uma expectativa quanto ao futuro - não sabíamos bem qual, mas era uma expectativa boa.

No pensamento vamos a qualquer parte.  Isso não é possível hoje dentro de uma estação ou vagão de metrô, onde a visão e o espaço são tomados por tipos não exatamente inspiradores que lá se aboletam (às vezes acomodando-se indevidamente nos assentos preferenciais) ou obstruem a passagem de quem quer sair do vagão...  

Subir o aclive da rua Voluntários não era penoso porque o fazíamos com música na cabeça.  O que pode ser penoso quando mentalizarmos os acordes e a harmonia de H̲a̲̲ve̲̲ Y̲o̲̲u̲̲ E̲̲̲ve̲̲r S̲e̲̲e̲̲n T̲he̲̲ R̲a̲̲i̲̲n ou L̲o̲̲o̲̲ki̲̲n' O̲̲̲u̲̲t M̲y B̲a̲̲ck D̲o̲̲o̲̲r cantados pelo Credence Clearwater Revival?  E ao avançar, nossa expectativa já era mais definida e otimista – entrar em uma boa universidade, definir nosso futuro profissional. Para vencer essa escalada,  confiávamos em nós e nas pessoas - pais e mestres - que nos orientavam. 

A considerar tal projeção,  subir a ladeira nunca foi difícil. Bem, deixando de lado por um momento a benevolência seletiva com que evocamos imagens do passado, reconheço que houve uma exceção: alguns anos antes, eu fizera o mesmo percurso a carregar com os braços, penosamente, uma lâmina de vidro de janela para repor a que havia quebrado durante um bate bola no pátio do colégio. O jogo estava mais para vôlei, mas a bola veio tão de jeito que espontaneamente eu a chutei para o alto. Foi um belo chute e tudo ficaria bem se estivéssemos em um campo ou quadra de esportes e não no pátio de recreio. Não esperava que a bola subisse à altura das janelas superiores do prédio. O vidro era de grandes dimensões e se arrebentou em estilhaços (felizmente não havia ninguém muito perto). Sumiram por encanto os alunos que participavam do jogo (parecia até que alguns nem mesmo estavam ali). Ante a patética prova de cooperação vi-me obrigado a tomar uma atitude voluntariosa, comuniquei o incidente a um funcionário e fui ter com o professor de educação física, que tirou as medidas da janela e com quem me comprometi a substituir o vidro que fora espatifado. Meu pai mandou confeccioná-lo, informando-me que o custo seria devidamente amortizado mediante a modesta contribuição de minha mesada. Caberia então a mim levá-lo até  ao colégio por meus próprios meios. E foi o que fiz. 

Permanece muito nítido na memória, talvez pelo propósito diverso dos demais, um trajeto nem um pouco fascinante que meu irmão e eu fazíamos, cada um em dias diferentes da semana. A partir de casa pegávamos a rua Lusitana e após um pequeno trecho na Doutor César subíamos a ladeira da Chemin del Pra, virávamos a Alfredo Pujol na esquina do CPOR e prosseguíamos por 1 km ou pouco mais, para chegar à então tranquila rua Heliodora.  A Alfredo Pujol, embora com algumas ondulações de plano, não era ruim. Vencidos alguns quarteirões passava-se defronte à Escola Estadual Barão Homem de Mello e mais um quarteirão adiante dobrava-se à esquerda. Compondo uma sequência de construções geminadas, situava-se a casa da Guiomar. Apertávamos o botão da campainha e dali a pouco ela surgia à porta. Em geral torcíamos para ninguém atender, mas salvo circunstâncias excepcionais isso não acontecia. Ela sempre aparecia e então, conformados, subíamos os poucos degraus até a porta de entrada onde ela nos esperava.  Guiomar era nossa professora de acordeon.  

Permito-me agora fazer algumas digressões. Caminhar até lá não era problema. Excetuando-se a ladeira do CPOR, o itinerário era até agradável e eu o fazia em pouco mais de 30 minutos. O problema eram as aulas da Guiomar. Sua didática (se é que posso definir assim) destoava muito da adotada pelo Bianchin e pela Leonor que, em compensação, eu considerava bonzinhos demais como professores. Porque lecionavam em um bairro distante, a Água Fria, e tinham compromissos mais relevantes, eles haviam sugerido que continuássemos as aulas com aquela nova professora. 

Do ponto de vista educativo, no meu entendimento, o que tínhamos com Guiomar não eram propriamente aulas. Seriam antes sessões de cativeiro musical ministradas por aquela mulher magra, de idade indefinida e que usava óculos. Nem bonita nem feia, ela não sorria para mim - provavelmente lhe faltariam motivos. Aos meus olhos seria considerada insípida não fosse a determinação de nos empurrar goela abaixo seus conceitos musicais. Para começar, eu não podia tocar uma música de modo espontâneo e corrigir os erros, ou simplesmente tocar lendo a partitura como fazia com o easy-going Bianchin. Tinha que fazê-lo sempre marcando o compasso e para tanto ela me exortava a levantar e baixar o pé e ao mesmo tempo proferir alternadamente as palavras “tesis” e “arsis”. Mas era difícil saber quando dizer “tesis” ou dizer “arsis” e quando levantar ou descer o pé. O significado disso, até há pouco era para mim um enigma. Li na Britannica que ‘arsis’, um vocábulo de origem grega, significa «levantar o pé ao marcar o ritmo». Refere-se, na poesia, à parte mais leve ou mais curta de um pé poético (a unidade rítmica fundamental na métrica que define o ritmo de um verso) e ‘tesis’ é a parte acentuada. Na poesia latina os significados destas palavras inverteram-se — ‘arsis’ passou a significar a parte acentuada e tesis’ a parte não acentuada. Seja lá o que for, não era algo fácil para uma criança entender. Eu não conseguia levar a bom termo aquela espécie de mantra integrada aos movimentos do pé. Meus erros e eventuais acertos eram saudados com expressões de exasperação ou de algum ânimo (estas mais raras) da Guiomar, que apesar da minha sofrível performance seguia em resoluta crença na infalibilidade de sua técnica pedagógica. Habitualmente a paciência de ambos findava antes que concluíssemos toda a leitura, quando então ela a interrompia (para meu alívio, porque estava a ponto de chorar). Bem ali ao lado estava um exemplar do método de divisão musical e solfejo Bona, que Guiomar em seguida abria para encetar uma segunda sessão de tomentos, se bem que menos requintada que a primeira. A propósito, se ela fosse um livro, estou certo de que seria um Bona. 

Eu disse há pouco que salvo circunstâncias excepcionais Guiomar abria a porta quando tocávamos a campainha. Tais circunstâncias, confesso, eram desencadeadas unicamente por minha vontade: ao chegar ao portão da casa eu pressionava o botão de modo tão suave que ela dificilmente soaria. Esperava por um tempo correspondente ao habitual para ela aparecer, e como não aparecia, arrancava de volta para casa com uma sombra de remorso, que era logo espantada pelas sensações de alento e leveza que sobrevinham. Seja por seus métodos pedagógicos ou por não lhe ver nenhum encanto (mesmo que oculto) eu desisti de aprender aquele instrumento de que até gostava. 

E vejam que Guiomar dava aulas não apenas de acordeon, mas também de violão e piano, ostensivamente dispostos na parte da frente de sua sala de estar, preparada para tal. Alguns meses mais tarde, ganhei de minha tia um violão Giannini com cordas de aço, que chegou trazido por uma sempre benfazeja portadora – a Kombi da VARIG. A Guiomar, nossa única referência, era a alternativa natural para me familiarizar com o novo instrumento. Minha vontade era a de aprender a solar, mas Guiomar limitava-se a ensinar acompanhamento. Pois aprenderia com ela os primeiros acordes, o que afinal, era melhor do que nada. 

E voltei a fazer o trajeto até a rua Heliodora. No começo até entusiasmei-me com “Lampião de Gás” (Inezita Barroso), “O teu orgulho” (Carlos José) e “Ensinando a bossa-nova” (versão de Blame it to bossa nova, de Eydie Gormé, interpretada pelo Trio Esperança) - canções que além de executar a harmonia básica eu tinha que cantar, em geral secundado por ela (ou vice versa). Mas esta é outra história. 

Decorridos dez anos, vejo-me agora, já no 5o ano da faculdade, a retornar do  hospital onde, no centro cirúrgico, passara a tarde a fazer postectomias a troco de auxiliar outras tantas, sob orientação de um residente japonês que já devia estar farto de operar as levas de internos de uma fundação que cuidava de menores. Já era noite e eu marchava para casa sentindo-me de um urologista nato ou pelo menos alguém que ponderava ser um. 

Uma das jornadas que mais me agrada recordar é a que, em 1999, fiz durante uma viagem solitária à Irlanda. Mal chegara a Dublin, saí no final da tarde da Hydra House, casa onde me hospedara, na Ionna Road, rumo a Temple Bar, zona boêmia tradicional. A perspectiva de ir à procura do novo suavizava o esforço. De posse do Frommer’s Guide,  de um mapa fornecido pelo Johnny (meu anfitrião) venci – após algumas desavenças com mapa - dez quarteirões até chegar à ponte sobre o rio Liffey. Anoitecia e transitando pelas imediações, onde passava muita gente, me surpreendi de ver muitos jovens. Um tanto eufórico, já tinha me esquecendo de coisas básicas quando fui alertado por um aroma de peixe frito e batatas – especialidade da Beshoff Bross desde 1905. Decidi arriscar, entrei no self-service e não obstante o teor nutricional pouco saudável, dei boas-vindas à refeição. 

No regresso, a caminhada me pareceu mais branda e já próximo à moradia, avistei o Mapples Pub. Vindo do interior do pub, um convite sonoro me atraiu e entrei. Aos poucos, identifiquei a harmonia e a cadência daqueles sons: às vezes cheia de energia e movimento ou transmitindo suavidade e quietude, mas sempre passando longe do convencional. Lá dentro, dei com uma atmosfera bem distante da agitação e barulho dos botecos comuns – nada de gente a gritar ou a rir alto, apenas pessoas conversando serenamente.  Acomodar-me - auxiliado por um generoso copo de cerveja – e sintonizar com a harmonia do ambiente, decorado com móveis estofados de cor vermelha e ares dos anos 1940, diminuiu gradualmente o estado hiperdinâmico em que eu estava. Saí de lá descansado e entrevendo que meu caminho por aquelas terras seria promissor. 

Confirmei o prognóstico ao me embrenhar pelos recônditos do Jardim Botânico dublinense. Era outono, estação em que no hemisfério norte as folhas das árvores atingem sua beleza suprema e derradeira. Percorri as acolhedoras alamedas e dei com as majestosas estufas brancas que se erguiam bem alto contra o fundo azul da manhã. Lá dentro, contemplei as flores, orgulhosas a se exibir para escolares adolescentes, que as desenhavam tão absortos que parecia que eles é que estavam a posar. Do lado de fora, monitoras passeavam suas crianças por uma orgia de ideias coloridas... 

Mas tarde, a caminho do ponto de ônibus, eu parava por instantes diante das entradas de algumas das casas da Ionna Road para admirar as belas portas dublinenses, junto das quais se via, sobre o tapete da entrada, o pão e o leite. 

Tudo isso eu observei logo nos primeiros dias. Foram cenas que me transportaram a um Brasil de antes, perdido no tempo. Sinto tristeza ao retornar aos dias atuais.

Abril, 2026



Por que os dias da infância nos parecem idílicos

Sua infância lhe parece por demais remota? [...] Há vinte anos, sim, mas nessa quadra da vida, não. Porque quanto mais perto me sinto do fim mais perto me sinto do princípio, como se fechasse o círculo.                            (Trecho de A Tale of Two Cities - Charles Dickens). 



Depois de assistir ao filme “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice, impressionei-me  com o simbolismo entrelaçado na história e também com os cenários e a fotografia. No entanto, o que me atraiu foram os olhos da menina atriz Ana Torrent – grandes, escuros e com uma expressão que parecia vir da alma – olhos com que ela observava o mundo e tudo ao seu redor. Isso me relembrou a infância.

Naqueles dias distantes a vida era mais simples, mas talvez fosse menos colorida do que a pintamos em nossa perspectiva atual. Seria porque ao figurá-la tendemos a iluminar os aspectos positivos do passado - mesmo os fugazes - e deixar de lado os ruins ou  insignificantes?  

De um ponto de vista “schopenhaueriano”, a representação da realidade pode ser entendida de outro modo: a lente através da qual víamos o mundo aos 9 ou 13 anos de idade era diferente. Não dispúnhamos dos critérios de avaliação que temos no presente, o que é compreensível, dado que éramos imaturos. 

Tampouco conhecíamos a linha do tempo dos eventos ao longo da qual assentamos nossa vivência. E esta faz-nos hoje romantizar a visão dos primeiros anos. É desnecessário fazer considerações de longo alcance para lembrar da época em que a mãe nos chamava  - “Venham tomar lanche!”- para o mingau de aveia, maisena ou uma vitamina de abacate. 

Embora nossa vontade quando crianças não fosse particularmente forte, o potencial inato para viver, aprender e imaginar era consideravelmente maior do que o atual. Se não havia meios de adquirir coisa melhor, contentávamo-nos em fazer alçar voo (altitude um pouco acima do telhado) uma ‘capucheta’ - pequena pipa sem estrutura de varetas e feita com papel de jornal. As demandas básicas eram satisfeitas. Havia sim as tarefas escolares e domésticas, aborrecimentos ocasionais e punições corretivas. Porém, as atividades lúdicas — ler, jogar bola de gude, empinar pipa, correr, saltar, pedalar, simular lutas, futebol — eram o nosso fio condutor. 

Inexistiam as grandes preocupações, uma vez que os pais e familiares garantiam-nos o bem-estar. A vida se estendia adiante e para um horizonte longínquo. Entrevíamos uma aura de esperança no futuro. Acreditávamos.

Principia na infância o interesse, não necessariamente virtuoso, pelo sexo oposto. Sejamos expansivos ou tímidos, ele subsiste latente. À parte da parceirinha da primeira quadrilha de festa junina aos cinco anos de idade, aos nove criamos afinidade com duas meninas de idade aproximada da nossa. Roseli, de índole suave - à imagem do que significa o nome, pele e cabelos claros (olhos verdes?) e Rosemary, a idade um pouco maior, morena de olhos castanhos, mais falante e com a vitalidade do alecrim, de cuja raiz etimológica – Rosmarinus officinalis - recebera a graça. Ignoro se eram irmãs, meio irmãs, primas ou amigas. Moravam longe, na Aclimação. Não obstante as visitas serem esparsas, nosso entrosamento era tão natural que tão logo nos víamos engatávamos a conversar e brincar animadamente como velhos amigos... e assim continuávamos o dia inteiro. Era uma harmonia rara, dada pouca frequência dos encontros e por ser verdadeiramente preciosa. 

Um dia soubemos que elas haviam se mudado para outra cidade. Nossos laços – que conquanto intermitentes se propunham auspiciosos – se desmancharam. Nunca mais as vimos. Junto ao bem-querer, ficou-nos a ideia do encanto feminino que nas duas antevíamos ao lhes surgirem os primeiros traços da adolescência. Lamento este desfecho mais profundamente hoje do que antes; afinal, o passado mostra-se mais interessante neste momento. Como transcorreram suas existências e como estariam, não há como saber.

As lembranças da meninice se alicerçam nos locais onde moramos. Um deles nos permitia transcender as cercanias prosaicas da casa, da rua e da escola. Próximos a um brejo fronteiriço (onde mais tarde construiriam uma larga avenida) dormíamos ao som dos grilos e do coaxar das rãs. À noite, ir atrás dos pirilampos. No verão havia os pernilongos, é verdade, mas nada que um espiral mata-mosquitos ‘Boa Noite’ não atenuasse ou, em casos extremos, o ‘Detefon’ (inseticida organoclorado tóxico, atualmente de uso doméstico proibido) mediante a precaução de se ficar de fora do quarto por meia hora após a aplicação. 

Para lá da extensão do gramado, das sebes e das árvores ficavam os hangares (e seus vestígios aromáticos de óleo, graxa e gasolina) e a plataforma de taxiamento, onde nos aventurávamos com alguma temeridade, visto ser proibida a circulação de pessoas não autorizadas e muito de menos de crianças. Para além dela, a pista, que em trechos mais afastados era flanqueada por um manto vegetal ermo e inacessível. As aeronaves chegavam e partiam e cada uma ostentava, junto com sua personalidade, o encanto do desconhecido.    

O “Parque” era um rico e vasto ambiente físico cheio de lugares para percorrer. Sim, eram espaços imensuráveis, mas cá entre nós, reconheço que sua amplitude aparentava ser então muito maior do que a percebemos hoje.  

A essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas do passado e do futuro”, são palavras de Thomas Mann. Todavia, o autor ponderava que o passado é o elemento e a atmosfera natural de quem conta histórias. 

Um e outro pensamento podem ser verdadeiros. E é com eles que enxergamos as cenas e eventos ao escrever sobre aquele tempo. Se quando jovens (e justamente por sermos jovens) as deixamos passar sem lhes dar a devida apreciação, hoje vividos, acolhemos a reflexão de Schopenhauer, que considerava serem elas as pedras do mosaico com as quais formamos a imagem do que recordamos da vida.  

Acho que acertou Mario Vargas Llosa quando disse que escrever é um ato de rebeldia contra a realidade.




El espíritu de la colmena/The Spirit of the Beehive (1973)

Uma invenção secular

             A exemplo da natureza humana, ele existe para todos os gostos. Discreto ou ornamentado, refinado ou tosco, saudável ou anêmico; constituído de componentes nobres ou baratos, de feições simples e sabor sofisticado, ou feito apenas “para inglês ver”. Diz a história ter sido criado em 1762 ou 1765 por John Montagu, secretário de estado e chefe  do almirantado britânico, que teria comido um pedaço de carne bovina entre duas fatias de pão tostado para não ter que abandonar uma mesa de jogo.

Tornou-se moda desde então. Alguns viraram patrimônio cultural, como o Bauru, inventado em 1936 por um estudante de Direito procedente daquela cidade, cuja receita original, servida no Bar Ponto Chic de SP tinha pão francês, rosbife, queijo amarelo derretido e tomate; mais tarde incluiria picles e orégano. Com fórmulas variáveis, o  Americano, concebido na década de 1940 pela lanchonete Salada Paulista,  composto originalmente de pão francês, presunto, queijo, ovo, bacon, alface e tomate e, trazido por imigrantes árabes, o  Beirute - pão pita (ou pão sírio), rosbife, queijo, alface, tomate e ovo frito. 

Meu favorito é frugal: queijo branco, tomate e orégano apenas. Pode ser montado em pão de forma ou francês. Este último permite variar a aparência – o recheio é interposto entre as duas fatias de pão sem aquecer ou é imprensado em uma assadeira, o que integra as rodelas de tomate ao queijo. Partir ao meio é uma medida que contribui para que o  degustemos com parcimônia. Um já é suficiente se não somos vorazes.

Há pratos que embora na origem não sejam sanduíches, têm sido servidos com pão sírio. Segundo a Enciclopédia Britânica, Kebab provem de um termo persa com derivações para o árabe (kabāb) e o turco (kebap). Teriam surgido entre os povos transumantes da Ásia Central, cuja dieta rica em carne foi adaptada ao contexto urbano, em que os vegetais eram mais facilmente disponíveis. São uma escolha oportuna quando visitamos lugares cujos cardápios de refeições estão acima de nossos recursos. 

Todos nós, desde a infância, provamos tipos memoráveis, a começar com o simples pão com queijo prato que desembrulhávamos à hora do recreio escolar, ou em casa, esquentado em uma rudimentar sanduicheira para pão de forma feita de ferro. Logo atrás, vinha o pão com mortadela - servido em pedaços cortados de filão de pão - que competia em assiduidade com o sanduíche de patê de fígado de galinha. 

Todavia, além das qualidades organolépticas, o sanduíche traz uma virtude  agregada: a companhia que se desfruta ao se fazer a refeição. Vistos aos olhos de hoje, preparados por minha mãe quando éramos crianças, simples lanches com mortadela ou queijo transformam-se em iguarias (o presunto só vinha à mesa excepcionalmente aos domingos ou quando havia visitas). E contemplo a satisfação com que meu pai - que trabalhara em padaria - preparava sanduíches para nós.   

Mais tarde conheceríamos alguma sofisticação com o cheeseburger. Mas o requinte viria quando, calouros, conhecemos o Ponto Chic na rua Sacramento, em Campinas. Esqueci do nome e dos ingredientes, porém retive na memória o cenário e o sabor especial de novidade e início de camaradagem, visto ter sido aquele o primeiro bar da cidade em que pisamos. A seguir, com a convivência já sedimentada,  o renomado sanduíche de aliche do Facca Bar.

No tempo de faculdade, as incursões gastronômicas - ainda que para comer sanduíches – eram infrequentes. Vivíamos com o essencial, procurando gastar só o necessário para a subsistência. A importância de poupar se incrustara em nosso comportamento a tal ponto que, sem perceber, desenvolvemos conceitos de logística essenciais em uma economia de guerra, que exercitamos durante o tempo de moradia em comum.  Não havia, por exemplo, incentivo melhor para desenvolver a retórica do que voltar a SP de carona. E a emoção de entrar de graça no estádio nos 20 minutos finais de um jogo de futebol?

Algumas noites de sexta feira, à época em que morávamos na rua Treze de Maio, nos surpreendiam apenas com um resto de pó de café e um pouco de açúcar. Problemas como este nos despertavam alguma criatividade. Um teco de pão dormido com óleo e sal, ou um bolinho feito com Nescau e água poderiam ter um sabor especial, a depender da fome e da companhia.

Recordo de um feriado em que, ao aproximar-se da hora do almoço, a fome apertando, sem nada para comer e sem Toninha em casa, resolvemos fazer uma incursão à padaria próxima. Corria o ano de 1977 e aproximava-se a decisão do campeonato paulista de futebol. Encostado ao balcão, eu consultava a tabela de preços, quando ouvi o Grandão pedir um pãozinho. Um tanto intrigado, pois ele comia por duas pessoas normais, prestei atenção ao diálogo que se seguiu:

- “Mais alguma coisa?” perguntou o chapeiro, que usava um boné com distintivo do Corinthians.

- “Acho que vou levar um ovo também. Quanto sai tudo? Espere, você poderia colocá-lo na chapa, aproveitando o embalo?” Sem se dar conta, ele fez o que o Grandão pedia.

- “Esse ano vai ser nosso, hein companheiro?” disse o Mac para o rapaz, que repentinamente se animou ante aquela exaltação dos brios mosqueteiros.

Quando o ovo estava no ponto, o Grandão atacou novamente:

- “Falou, campeão! Agora, será que você me arranjaria uma folha de alface? Se não for incômodo, é claro!”

O rapaz atendeu. Pela sua expressão, via-se que estava feliz...

- “Do tomate, só duas rodelas... e se tiver uma fatiazinha de queijo sobrando...”

Ele não só acrescentou tomate e queijo, como espontaneamente incluiu uma fatia de presunto.

O fato é que todos nós matamos a fome naquela tarde. Quanto ao Grandão, pagou pelo seu sanduíche reforçado o preço que pagaria por um pão com ovo.  

Vivida quase uma década depois, vem-me à lembrança uma viagem muito almejada. Uma vez chegados em território europeu, de posse do Eurail Pass teríamos que cumprir várias escalas de trem, partindo de Madrid até Copenhague. Uma delas, em Paris, deu-nos algum tempo. Era de manhã quando desembarcados na Gare de Lyon e pegamos o metrô até a Gare du Nord.

Na estação, dirigi-me ao setor de informações. Enquanto esperava, reparei em  uma placa disposta acima da grade do guichê, que dizia: ”No English spoken”. A japonesa baixinha que estava à minha frente, por mais que se esforçasse não obteve outra resposta que não o dedo do funcionário a apontar para o aviso. Eu era o próximo da fila. Movido por um instinto atávico, revirei o Francês que aprendi no ginasial e, mesclando-o com um pouco de Espanhol, formulei minha pergunta. Tudo deve ter durado menos de 1 minuto. O funcionário passou-me com clareza a relação dos horários, a plataforma de embarque e como reforço deu-me um papelzinho com tais orientações.

Saindo de lá, atravessamos a rua atabalhoadamente à cata de um lugar para comer e entramos no primeiro bistrô que apareceu. Não havia lugar nas mesas, que estavam tomadas por homens que bebiam, fumavam e jogavam cartas. Em algumas faziam-se apostas.

Sentamo-nos ela e eu junto ao balcão e pedimos vinho da casa e sandwiches au fromage – acho que era Camembert. O queijo fedia, a ponto de trocarmos olhares desconfiados. Mas o cheiro forte é um bom sinal quando se trata de queijos, o que comprovamos ao experimentar o sabor.

Foi uma refeição comum, servida em um ambiente comum. Naquele contexto, tornou-se para nós excepcional. 

Hoje conhecemos um pouco a linha do tempo dos eventos ao longo dos quais vivemos nossas experiências - e comemos sanduíches. Posso então dizer que os que mencionei aqui – devido às circunstâncias e aos comensais – foram os que mais me agradaram.   

A caneta tinteiro

Meu interesse pela caneta tinteiro ressurgiu fortuitamente em 2015, durante uma escala no aeroporto de Frankfurt quando eu retornava de Berlin. Eu tinha que resgatar milhagem do Programa Miles and More da Lufthansa. Pouco tempo de conexão, uma busca apressada pelas lojas, nada de interesse que coubesse no valor correspondente e eis que em uma delas, próxima ao portão de embarque, vi um modelo de desenho e nome diferentes – Lamy, de cor azul chamativa e preço compatível.  

Desde então, reaprendi a usá-la e tomei gosto por escrever à mão. Faço-o quando disponho de tempo e tranquilidade para escrever. Já perdi aquele modelo Lamy Safari básico, e alguns outros bons exemplares pelo caminho e movido por embalos consumistas, adquiri novos. O último foi uma Parker, que vi em uma grande livraria–papearia em Praga, pela qual paguei 1.700 CZK.

As menções sobre as canetas-tinteiro vêm desde o século XVII, segundo o site https://sagapens.com/history-of-the-fountain-pen/. A versão moderna teria sido desenvolvida por Lewis Waterman, um ex-corretor de seguros americano que por volta de 1883 patenteou uma caneta tinteiro que aproveitava o princípio da capilaridade. 

É melhor escrever com esse tipo de caneta. Os neurocientistas dizem que ativa circuitos neurais que facilitam a aprendizagem - o ato de ler a letra repete-se em nossa mente e favorece a memorização. Para Anne Mangen, da Universidade de Stavanger (Noruega), a caligrafia unifica a mão, os olhos e a atenção num único ponto no espaço e no tempo. Daí a sensação referida por Brandon Keim em The Science of Handwriting (Scientific American, 2013) de não manipular blocos de texto, como na tela, mas sim palavras e frases. E sobre a escrita digital tem-se a vantagem, de se “passar a limpo” um texto, o que além de aumentar a nossa atenção e fixar na mente o conteúdo da mensagem, renova a sensação de escrever. 

Canetas tinteiro são bonitas, diferenciando-se da banalidade das esferográficas. Ao escrever com elas, juntamos as atividades motora, visual e mental. Deslizar a pena sem esforço na superfície de um bom papel, usar tintas de diferentes cores (um aspecto lúdico) e gravar nossa marca pessoal, são efeitos que se obtêm a depender do jeito que nos posicionamos e seguramos a caneta, da pena, do tipo de papel e logicamente da ergonomia da caneta. No lado prático 1) cansa menos a mão, desde que escrevamos sem pressa e com mínima pressão sobre a pena. O papel deve ser apropriado - os de textura áspera arranham a pena e os muito lisos dificultam a aderência; 2) aumenta a percepção visual, por requerer mais atenção com o formato das letras. No sentimental, faz lembrar dos primeiros anos de escola – foi com ela que, nos anos 1960 praticamos a escrita. 

Voltando ao tempo de escola, minha primeira deve ter sido uma simples Compactor do modelo mais barato. Nos primeiros dias do segundo ano do curso primário, pouco afeito ao seu manuseio, eu costumava voltar para casa com a camisa ornada por borrões de tinta, problema do qual minha mãe não reclamava muito; afinal a tinta era a Parker Super Quink azul real lavável. E não me importo quando às vezes inadvertidamente mancho os dedos de tinta ao abastecer no tinteiro uma caneta de conversor - isso me conecta diretamente às coisas boas daquele tempo. 

Quando completei 9 anos ganhei do meu tio e padrinho João um conjunto de caneta tinteiro e lapiseira alemãs de corpo listrado de verde e preto e tampa preta (vice-versa na lapiseira) com pena e clip dourados.  Eu me achava importante escrevendo com elas e pensava em reservá-las para ocasiões especiais. Hoje, procurando na internet, descubro que a caneta era uma Pelikan Old Style verde e preta, com preços entre 2 e 3 mil reais. Obviamente eu não a tenho mais. Perdeu-se no tempo, como os mata borrões, os papeis de carta (Par avion), as máquinas de escrever e outros instrumentos de escrita artesanal. 

Mas a caneta tinteiro sobrevive, como um símbolo, seja por força dos colecionadores ou dos que não fazem da escrita um ato simplesmente mecânico, banal e insosso.  Hoje vejo na internet que os sistemas educacionais de alguns estados americanos e de países escandinavos e até algumas escolas brasileiras têm estimulado a escrita à mão no ensino dos primeiros anos.

Com nossas canetas tinteiro imergimos em um mundo reservado – nele somos livres para escrever sem que ninguém nos veja e atrapalhe (até porque ninguém irá ler), usar diversas cores e tons de tinta e até passar a limpo um rascunho. Registramos ideias de grandes pensadores ou nossas, sem prestar satisfação a quem quer que seja. Fazemos anotações em artigos impressos e corrigirmos os textos dos alunos e o nossos. Sentimo-nos em casa. 

No curso da escrita aparecem à minha volta, fugazes, algumas cenas alusivas às cartas que eu escrevia para meus familiares do Sul, à caligrafia graciosa de minha mãe, desenvolta e concisa de minha tia Esther e categórica de meu pai com sua Parker 51. E o entusiasmo com que meu avô me mostrava, em um simples caderno brochura, os salmos que ele transcrevia à mão (ainda que usando uma reles esferográfica Bic) ... imagens de um passado que evoca o lar e um tempo que, à vista de hoje, era sereno e promissor.