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Pernas de andarilho

Dizem que eu caminho muito rápido. Acho que nem tanto, pois quem o diz costuma ser moderado nesse particular – pode ser que o tempo passe mais lentamente para essas pessoas. No entanto, já caminhei ao lado de algumas que me levaram a fazer um esforço extra para acompanhar. 

Porém, é verdade que não gosto de andar devagar. Seria bom que o fizesse, porque ainda hoje há coisas pelo caminho que merecem ser vistas com calma. Quem sabe a pressa seja uma herança de minha mãe – que ao contrário de meu pai era ansiosa e sempre procurava se antecipar às eventualidades. 

O primeiro percurso que fiz a pé sozinho foi para chegar até a escola, que distava 900 m de casa. Na época havia pouco trânsito de veículos, entre os quais o Chevrolet 1945 de cor preta, comumente utilizado como táxi. A partir da rua Paulo Maldi, uma vez na av. Nova Cantareira eu virava à esquerda e seguia atravessando com cuidado as ruas transversais até chegar ao meu destino. A escola, muito simples, em sua fachada exibia uma placa bem grande que informava: “...este estabelecimento de ensino é destinado a pessoas sem recursos financeiros...”. Porém, todos estudavam lá, independentemente de classe social, cor ou credo. Enquanto não tocava o sinal para a entrada, confraternizávamos, jogando “bafo’ debaixo de uma escada que dava acesso à marquise. Ao término das aulas, o alvoroço da saída e na calçada os vendedores de cocada, rapadura e puxa-puxa compunham o cenário daquelas tardes luminosas. Eu também costumava ir ao mercado municipal para comprar óleo a granel e demais mantimentos. Eram coisas impensáveis para um menino de 6 anos fazer hoje.

Caminhadas memoráveis – que estavam mais para marchas – eram as que eu empreendia de casa até o colégio onde cursava o 3o ano colegial noturno. Eram 2 km, dos quais aproximadamente um terço de ladeira, na rua Voluntários da Pátria, que tornava-se progressivamente íngreme. Mas me movia um objetivo: estar bem preparado para os exames vestibulares. Dado o tempo curto, tudo tinha que ser feito de modo planejado e metódico: sair de casa às 18h30 e chegar ao destino para as aulas, que começavam às 19h15. No dia seguinte acordar às 5h30, sair de casa às 5h45, chegar ao primeiro ponto de ônibus na rua Dr. Cesar às 6h05, e ao segundo, na Praça da República às 6h30 para então pegar o ônibus Circular Avenidas que me deixaria na avenida Paulista a tempo de entrar na classe do cursinho um pouco antes das 7h.

Até hoje eu percorro cinco quadras de um local de trabalho a outro. Mesmo havendo estação de metrô à porta, prefiro deixar esta alternativa para último caso. Quero manter um resquício de otimismo na humanidade. Ao andar, alimento a ilusão de descobrir pelo caminho uma mulher bonita, uma área em que ainda resta vegetação, o perfume da terra e das plantas depois da chuva. E tenho o ensejo de presenciar cenas curiosas, como a protagonizada por um transeunte idoso e baixinho, que às vezes me ultrapassa na altura do viaduto Pedro de Toledo. Vestindo camiseta e calção - o semblante determinado de quem tem uma missão importante e está certo de cumpri-la – ele caminha serelepe, imprimindo aos ombros movimentos simétricos peculiares, ritmados, rápidos e de amplitude muito curta, o que quiçá lhe confira aerodinâmica favorável para obter uma velocidade não condizente com seu tamanho.  

Havia as andanças prazerosas, como as que fazíamos quando, fortuitamente dispensados mais cedo da escola, voltávamos em companhia de um colega, a conversar sobre assuntos amenos, entre os quais a canção Poor side of Town, de Johnny Rivers ou sobre sua visita próxima ao Brasil. Ou as de um colorido singular, como aquela em que, descendo a rua Voluntários da Pátria logo após sair da Alfredo Pujol, ao vislumbrarmos duas belas jovens dentro de um Karman-Ghia estacionado, o meu colega disparou: “O que eu queria mesmo era entrar lá dento com uma garrafa de champanhe”. A feliz observação, feita de modo espontâneo e entusiasmado, levou-me a fantasiar no que se poderia fazer com elas naquele espaço apertado (ainda mais com champanhe a bordo). Certamente seria uma bela farra, mas não pude idealizar detalhes, visto que tinha apenas 11 anos de idade. 

Mais tarde haveria as trilhas - como a que fizemos na floresta e sobre as rochas junto ao mar no parque Nacional de Tsitsikamma, na África do Sul, e aquela em que, no memo parque, enveredamos por uma área sinalizada como de acesso proibido por risco de desmoronamento – aviso que foi intrepidamente ignorado por minha companheira, que de uma hora para outra resolveu se mostrar corajosa (“que proibido que nada!”). Daí que seguimos adiante à burla da sinalização e não demorou 10’ para toparmos com áreas de deslizamento e alguns troncos caídos – o que era um mau augúrio. Ainda assim continuamos, e à medida que caminhávamos sem saber bem por onde, o fato de não enxergarmos mais nenhuma placa indicativa atestava ser aquela realmente uma área interditada. Então comecei a pensar no tributo a se pagar por uma decisão irrefletida, e mais seriamente em como sair dali vivo. Tendo perambulado por mais meia hora, nosso senso de direção ou o acaso permitiu que avistássemos uma faixa azul na linha do horizonte: existia uma saída para o mar! Sim, chegáramos ao topo de uma colina e torcemos para que que sua descida nos conduzisse à trilha de volta, o que finalmente aconteceu.

Outra ocasião em que nos vimos perdidos foi no Parque Nacional Real do Natal (ainda na África do Sul). Anoitecia quando, depois de transpor com cuidado e coragem as escarpas e fendas rochosas (esforço que consumiu algumas horas) nos demos conta de estar sem orientação. Ao atingir um chão de topografia mais regular e com cobertura vegetal, caminhávamos amparados pela esperança e instruídos pelo instinto, quando conseguimos avistar pontos de luz em um vale ao longe – sinal salvador de indício de presença humana. Quase trôpegos, a nos segurar na capoeira, descemos sob a escuridão até a planície onde ficava o alojamento. Já refeitos, ao ler o guia com atenção, ficamos sabendo que algumas pessoas haviam se extraviado naquela trilha, vindo a perecer.  

A seguinte seria no Parque Nacional de Los Glaciares (Patagônia argentina) em uma área entremeada por córregos, pedras e geleiras. A visão dos arredores era tão bela quanto inóspita e nos reteve por algum tempo para admirá-la e matar a fome a sede. Nosso enlevo, porém, durou até a hora em que resolvemos ir embora. Gradualmente foi dando lugar à preocupação de não acharmos qualquer ponto de referência para sair dali. E ali teríamos ficado para sempre se a Providência não nos mostrasse pessoas ao longe que se dirigiam ao local onde acampavam, próximo da subida para a Laguna Sucia (a quase 5 mil metros acima do nível do mar). Lagoa cercada pelo monte Fitz Roy, que para se alcançar seria preciso escalar uma encosta íngreme. Minha companheira declinou do convite. Mas eu estava determinado e porque gosto de lugares altos, comecei a subir, e à medida que subia, tinha que me segurar na vegetação. A perseverança foi recompensada. Ao chegar, dei com um lago de águas translúcidas, cor azul turquesa, rodeado pelo cinza das pedras e das rochas. Naquele lugar ermo era audível apenas o vaivém das águas agitadas pelo vento. Enxergar as dimensões diminutas da planície verde, rios e geleiras lá de cima dava sensação de isolamento, de se estar no fim do mundo, à mercê da natureza e ao mesmo tempo integrado a ela. Não me lembro de ter visto paisagem mais bonita. A operação de descida, que durou aproximadamente 1 h, tive que fazer de costas, gradualmente, com muito cuidado para não cair e segurando com mais força nos arbustos, dado o declive acentuado.

É notável que nas situações em que estamos perdidos e sem ter ideia de qual direção ou sentido tomar, continuamos caminhando decididamente e sem esmorecer da fé de encontrarmos nosso objetivo.  

Voltando ao tempo da infância, pergunto-me: qual seria a diferença entre as caminhadas daquele tempo e as atuais?

Eu caminhava para ir até a escola ou para cumprir os mandados de minha mãe - ir à padaria ou à granja comprar ovos (desta última eu não me agradava por ter que subir ladeira). No trajeto ia pensando em um jogo de futebol, em algum craque do nosso time ou nas peladas que disputávamos no campo de grama ou na quadra. Caso faltasse assunto, na professora e nas tarefas escolares. Havia uma expectativa quanto ao futuro - não sabíamos bem qual, mas era uma expectativa boa.

No pensamento vamos a qualquer parte.  Isso não é possível hoje dentro de uma estação ou vagão de metrô, onde a visão e o espaço são tomados por tipos não exatamente inspiradores que lá se aboletam (às vezes acomodando-se indevidamente nos assentos preferenciais) ou obstruem a passagem de quem quer sair do vagão...  

Subir o aclive da rua Voluntários não era penoso porque o fazíamos com música na cabeça.  O que pode ser penoso quando mentalizarmos os acordes e a harmonia de H̲a̲̲ve̲̲ Y̲o̲̲u̲̲ E̲̲̲ve̲̲r S̲e̲̲e̲̲n T̲he̲̲ R̲a̲̲i̲̲n ou L̲o̲̲o̲̲ki̲̲n' O̲̲̲u̲̲t M̲y B̲a̲̲ck D̲o̲̲o̲̲r cantados pelo Credence Clearwater Revival?  E ao avançar, nossa expectativa já era mais definida e otimista – entrar em uma boa universidade, definir nosso futuro profissional. Para vencer essa escalada,  confiávamos em nós e nas pessoas - pais e mestres - que nos orientavam. 

A considerar tal projeção,  subir a ladeira nunca foi difícil. Bem, deixando de lado por um momento a benevolência seletiva com que evocamos imagens do passado, reconheço que houve uma exceção: alguns anos antes, eu fizera o mesmo percurso a carregar com os braços, penosamente, uma lâmina de vidro de janela para repor a que havia quebrado durante um bate bola no pátio do colégio. O jogo estava mais para vôlei, mas a bola veio tão de jeito que espontaneamente eu a chutei para o alto. Foi um belo chute e tudo ficaria bem se estivéssemos em um campo ou quadra de esportes e não no pátio de recreio. Não esperava que a bola subisse à altura das janelas superiores do prédio. O vidro era de grandes dimensões e se arrebentou em estilhaços (felizmente não havia ninguém muito perto). Sumiram por encanto os alunos que participavam do jogo (parecia até que alguns nem mesmo estavam ali). Ante a patética prova de cooperação vi-me obrigado a tomar uma atitude voluntariosa, comuniquei o incidente a um funcionário e fui ter com o professor de educação física, que tirou as medidas da janela e com quem me comprometi a substituir o vidro que fora espatifado. Meu pai mandou confeccioná-lo, informando-me que o custo seria devidamente amortizado mediante a modesta contribuição de minha mesada. Caberia então a mim levá-lo até  ao colégio por meus próprios meios. E foi o que fiz. 

Permanece muito nítido na memória, talvez pelo propósito diverso dos demais, um trajeto nem um pouco fascinante que meu irmão e eu fazíamos, cada um em dias diferentes da semana. A partir de casa pegávamos a rua Lusitana e após um pequeno trecho na Doutor César subíamos a ladeira da Chemin del Pra, virávamos a Alfredo Pujol na esquina do CPOR e prosseguíamos por 1 km ou pouco mais, para chegar à então tranquila rua Heliodora.  A Alfredo Pujol, embora com algumas ondulações de plano, não era ruim. Vencidos alguns quarteirões passava-se defronte à Escola Estadual Barão Homem de Mello e mais um quarteirão adiante dobrava-se à esquerda. Compondo uma sequência de construções geminadas, situava-se a casa da Guiomar. Apertávamos o botão da campainha e dali a pouco ela surgia à porta. Em geral torcíamos para ninguém atender, mas salvo circunstâncias excepcionais isso não acontecia. Ela sempre aparecia e então, conformados, subíamos os poucos degraus até a porta de entrada onde ela nos esperava.  Guiomar era nossa professora de acordeon.  

Permito-me agora fazer algumas digressões. Caminhar até lá não era problema. Excetuando-se a ladeira do CPOR, o itinerário era até agradável e eu o fazia em pouco mais de 30 minutos. O problema eram as aulas da Guiomar. Sua didática (se é que posso definir assim) destoava muito da adotada pelo Bianchin e pela Leonor que, em compensação, eu considerava bonzinhos demais como professores. Porque lecionavam em um bairro distante, a Água Fria, e tinham compromissos mais relevantes, eles haviam sugerido que continuássemos as aulas com aquela nova professora. 

Do ponto de vista educativo, no meu entendimento, o que tínhamos com Guiomar não eram propriamente aulas. Seriam antes sessões de cativeiro musical ministradas por aquela mulher magra, de idade indefinida e que usava óculos. Nem bonita nem feia, ela não sorria para mim - provavelmente lhe faltariam motivos. Aos meus olhos seria considerada insípida não fosse a determinação de nos empurrar goela abaixo seus conceitos musicais. Para começar, eu não podia tocar uma música de modo espontâneo e corrigir os erros, ou simplesmente tocar lendo a partitura como fazia com o easy-going Bianchin. Tinha que fazê-lo sempre marcando o compasso e para tanto ela me exortava a levantar e baixar o pé e ao mesmo tempo proferir alternadamente as palavras “tesis” e “arsis”. Mas era difícil saber quando dizer “tesis” ou dizer “arsis” e quando levantar ou descer o pé. O significado disso, até há pouco era para mim um enigma. Li na Britannica que ‘arsis’, um vocábulo de origem grega, significa «levantar o pé ao marcar o ritmo». Refere-se, na poesia, à parte mais leve ou mais curta de um pé poético (a unidade rítmica fundamental na métrica que define o ritmo de um verso) e ‘tesis’ é a parte acentuada. Na poesia latina os significados destas palavras inverteram-se — ‘arsis’ passou a significar a parte acentuada e tesis’ a parte não acentuada. Seja lá o que for, não era algo fácil para uma criança entender. Eu não conseguia levar a bom termo aquela espécie de mantra integrada aos movimentos do pé. Meus erros e eventuais acertos eram saudados com expressões de exasperação ou de algum ânimo (estas mais raras) da Guiomar, que apesar da minha sofrível performance seguia em resoluta crença na infalibilidade de sua técnica pedagógica. Habitualmente a paciência de ambos findava antes que concluíssemos toda a leitura, quando então ela a interrompia (para meu alívio, porque estava a ponto de chorar). Bem ali ao lado estava um exemplar do método de divisão musical e solfejo Bona, que Guiomar em seguida abria para encetar uma segunda sessão de tomentos, se bem que menos requintada que a primeira. A propósito, se ela fosse um livro, estou certo de que seria um Bona. 

Eu disse há pouco que salvo circunstâncias excepcionais Guiomar abria a porta quando tocávamos a campainha. Tais circunstâncias, confesso, eram desencadeadas unicamente por minha vontade: ao chegar ao portão da casa eu pressionava o botão de modo tão suave que ela dificilmente soaria. Esperava por um tempo correspondente ao habitual para ela aparecer, e como não aparecia, arrancava de volta para casa com uma sombra de remorso, que era logo espantada pelas sensações de alento e leveza que sobrevinham. Seja por seus métodos pedagógicos ou por não lhe ver nenhum encanto (mesmo que oculto) eu desisti de aprender aquele instrumento de que até gostava. 

E vejam que Guiomar dava aulas não apenas de acordeon, mas também de violão e piano, ostensivamente dispostos na parte da frente de sua sala de estar, preparada para tal. Alguns meses mais tarde, ganhei de minha tia um violão Giannini com cordas de aço, que chegou trazido por uma sempre benfazeja portadora – a Kombi da VARIG. A Guiomar, nossa única referência, era a alternativa natural para me familiarizar com o novo instrumento. Minha vontade era a de aprender a solar, mas Guiomar limitava-se a ensinar acompanhamento. Pois aprenderia com ela os primeiros acordes, o que afinal, era melhor do que nada. 

E voltei a fazer o trajeto até a rua Heliodora. No começo até entusiasmei-me com “Lampião de Gás” (Inezita Barroso), “O teu orgulho” (Carlos José) e “Ensinando a bossa-nova” (versão de Blame it to bossa nova, de Eydie Gormé, interpretada pelo Trio Esperança) - canções que além de executar a harmonia básica eu tinha que cantar, em geral secundado por ela (ou vice versa). Mas esta é outra história. 

Decorridos dez anos, vejo-me agora, já no 5o ano da faculdade, a retornar do  hospital onde, no centro cirúrgico, passara a tarde a fazer postectomias a troco de auxiliar outras tantas, sob orientação de um residente japonês que já devia estar farto de operar as levas de internos de uma fundação que cuidava de menores. Já era noite e eu marchava para casa sentindo-me de um urologista nato ou pelo menos alguém que ponderava ser um. 

Uma das jornadas que mais me agrada recordar é a que, em 1999, fiz durante uma viagem solitária à Irlanda. Mal chegara a Dublin, saí no final da tarde da Hydra House, casa onde me hospedara, na Ionna Road, rumo a Temple Bar, zona boêmia tradicional. A perspectiva de ir à procura do novo suavizava o esforço. De posse do Frommer’s Guide,  de um mapa fornecido pelo Johnny (meu anfitrião) venci – após algumas desavenças com mapa - dez quarteirões até chegar à ponte sobre o rio Liffey. Anoitecia e transitando pelas imediações, onde passava muita gente, me surpreendi de ver muitos jovens. Um tanto eufórico, já tinha me esquecendo de coisas básicas quando fui alertado por um aroma de peixe frito e batatas – especialidade da Beshoff Bross desde 1905. Decidi arriscar, entrei no self-service e não obstante o teor nutricional pouco saudável, dei boas-vindas à refeição. 

No regresso, a caminhada me pareceu mais branda e já próximo à moradia, avistei o Mapples Pub. Vindo do interior do pub, um convite sonoro me atraiu e entrei. Aos poucos, identifiquei a harmonia e a cadência daqueles sons: às vezes cheia de energia e movimento ou transmitindo suavidade e quietude, mas sempre passando longe do convencional. Lá dentro, dei com uma atmosfera bem distante da agitação e barulho dos botecos comuns – nada de gente a gritar ou a rir alto, apenas pessoas conversando serenamente.  Acomodar-me - auxiliado por um generoso copo de cerveja – e sintonizar com a harmonia do ambiente, decorado com móveis estofados de cor vermelha e ares dos anos 1940, diminuiu gradualmente o estado hiperdinâmico em que eu estava. Saí de lá descansado e entrevendo que meu caminho por aquelas terras seria promissor. 

Confirmei o prognóstico ao me embrenhar pelos recônditos do Jardim Botânico dublinense. Era outono, estação em que no hemisfério norte as folhas das árvores atingem sua beleza suprema e derradeira. Percorri as acolhedoras alamedas e dei com as majestosas estufas brancas que se erguiam bem alto contra o fundo azul da manhã. Lá dentro, contemplei as flores, orgulhosas a se exibir para escolares adolescentes, que as desenhavam tão absortos que parecia que eles é que estavam a posar. Do lado de fora, monitoras passeavam suas crianças por uma orgia de ideias coloridas... 

Mas tarde, a caminho do ponto de ônibus, eu parava por instantes diante das entradas de algumas das casas da Ionna Road para admirar as belas portas dublinenses, junto das quais se via, sobre o tapete da entrada, o pão e o leite. 

Tudo isso eu observei logo nos primeiros dias. Foram cenas que me transportaram a um Brasil de antes, perdido no tempo. Sinto tristeza ao retornar aos dias atuais.

Abril, 2026



Por que os dias da infância nos parecem idílicos

Sua infância lhe parece por demais remota? [...] Há vinte anos, sim, mas nessa quadra da vida, não. Porque quanto mais perto me sinto do fim mais perto me sinto do princípio, como se fechasse o círculo.                            (Trecho de A Tale of Two Cities - Charles Dickens). 



Depois de assistir ao filme “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice, impressionei-me  com o simbolismo entrelaçado na história e também com os cenários e a fotografia. No entanto, o que me atraiu foram os olhos da menina atriz Ana Torrent – grandes, escuros e com uma expressão que parecia vir da alma – olhos com que ela observava o mundo e tudo ao seu redor. Isso me relembrou a infância.

Naqueles dias distantes a vida era mais simples, mas talvez fosse menos colorida do que a pintamos em nossa perspectiva atual. Seria porque ao figurá-la tendemos a iluminar os aspectos positivos do passado - mesmo os fugazes - e deixar de lado os ruins ou  insignificantes?  

De um ponto de vista “schopenhaueriano”, a representação da realidade pode ser entendida de outro modo: a lente através da qual víamos o mundo aos 9 ou 13 anos de idade era diferente. Não dispúnhamos dos critérios de avaliação que temos no presente, o que é compreensível, dado que éramos imaturos. 

Tampouco conhecíamos a linha do tempo dos eventos ao longo da qual assentamos nossa vivência. E esta faz-nos hoje romantizar a visão dos primeiros anos. É desnecessário fazer considerações de longo alcance para lembrar da época em que a mãe nos chamava  - “Venham tomar lanche!”- para o mingau de aveia, maisena ou uma vitamina de abacate. 

Embora nossa vontade quando crianças não fosse particularmente forte, o potencial inato para viver, aprender e imaginar era consideravelmente maior do que o atual. Se não havia meios de adquirir coisa melhor, contentávamo-nos em fazer alçar voo (altitude um pouco acima do telhado) uma ‘capucheta’ - pequena pipa sem estrutura de varetas e feita com papel de jornal. As demandas básicas eram satisfeitas. Havia sim as tarefas escolares e domésticas, aborrecimentos ocasionais e punições corretivas. Porém, as atividades lúdicas — ler, jogar bola de gude, empinar pipa, correr, saltar, pedalar, simular lutas, futebol — eram o nosso fio condutor. 

Inexistiam as grandes preocupações, uma vez que os pais e familiares garantiam-nos o bem-estar. A vida se estendia adiante e para um horizonte longínquo. Entrevíamos uma aura de esperança no futuro. Acreditávamos.

Principia na infância o interesse, não necessariamente virtuoso, pelo sexo oposto. Sejamos expansivos ou tímidos, ele subsiste latente. À parte da parceirinha da primeira quadrilha de festa junina aos cinco anos de idade, aos nove criamos afinidade com duas meninas de idade aproximada da nossa. Roseli, de índole suave - à imagem do que significa o nome, pele e cabelos claros (olhos verdes?) e Rosemary, a idade um pouco maior, morena de olhos castanhos, mais falante e com a vitalidade do alecrim, de cuja raiz etimológica – Rosmarinus officinalis - recebera a graça. Ignoro se eram irmãs, meio irmãs, primas ou amigas. Moravam longe, na Aclimação. Não obstante as visitas serem esparsas, nosso entrosamento era tão natural que tão logo nos víamos engatávamos a conversar e brincar animadamente como velhos amigos... e assim continuávamos o dia inteiro. Era uma harmonia rara, dada pouca frequência dos encontros e por ser verdadeiramente preciosa. 

Um dia soubemos que elas haviam se mudado para outra cidade. Nossos laços – que conquanto intermitentes se propunham auspiciosos – se desmancharam. Nunca mais as vimos. Junto ao bem-querer, ficou-nos a ideia do encanto feminino que nas duas antevíamos ao lhes surgirem os primeiros traços da adolescência. Lamento este desfecho mais profundamente hoje do que antes; afinal, o passado mostra-se mais interessante neste momento. Como transcorreram suas existências e como estariam, não há como saber.

As lembranças da meninice se alicerçam nos locais onde moramos. Um deles nos permitia transcender as cercanias prosaicas da casa, da rua e da escola. Próximos a um brejo fronteiriço (onde mais tarde construiriam uma larga avenida) dormíamos ao som dos grilos e do coaxar das rãs. À noite, ir atrás dos pirilampos. No verão havia os pernilongos, é verdade, mas nada que um espiral mata-mosquitos ‘Boa Noite’ não atenuasse ou, em casos extremos, o ‘Detefon’ (inseticida organoclorado tóxico, atualmente de uso doméstico proibido) mediante a precaução de se ficar de fora do quarto por meia hora após a aplicação. 

Para lá da extensão do gramado, das sebes e das árvores ficavam os hangares (e seus vestígios aromáticos de óleo, graxa e gasolina) e a plataforma de taxiamento, onde nos aventurávamos com alguma temeridade, visto ser proibida a circulação de pessoas não autorizadas e muito de menos de crianças. Para além dela, a pista, que em trechos mais afastados era flanqueada por um manto vegetal ermo e inacessível. As aeronaves chegavam e partiam e cada uma ostentava, junto com sua personalidade, o encanto do desconhecido.    

O “Parque” era um rico e vasto ambiente físico cheio de lugares para percorrer. Sim, eram espaços imensuráveis, mas cá entre nós, reconheço que sua amplitude aparentava ser então muito maior do que a percebemos hoje.  

A essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas do passado e do futuro”, são palavras de Thomas Mann. Todavia, o autor ponderava que o passado é o elemento e a atmosfera natural de quem conta histórias. 

Um e outro pensamento podem ser verdadeiros. E é com eles que enxergamos as cenas e eventos ao escrever sobre aquele tempo. Se quando jovens (e justamente por sermos jovens) as deixamos passar sem lhes dar a devida apreciação, hoje vividos, acolhemos a reflexão de Schopenhauer, que considerava serem elas as pedras do mosaico com as quais formamos a imagem do que recordamos da vida.  

Acho que acertou Mario Vargas Llosa quando disse que escrever é um ato de rebeldia contra a realidade.




El espíritu de la colmena/The Spirit of the Beehive (1973)

Uma invenção secular

             A exemplo da natureza humana, ele existe para todos os gostos. Discreto ou ornamentado, refinado ou tosco, saudável ou anêmico; constituído de componentes nobres ou baratos, de feições simples e sabor sofisticado, ou feito apenas “para inglês ver”. Diz a história ter sido criado em 1762 ou 1765 por John Montagu, secretário de estado e chefe  do almirantado britânico, que teria comido um pedaço de carne bovina entre duas fatias de pão tostado para não ter que abandonar uma mesa de jogo.

Tornou-se moda desde então. Alguns viraram patrimônio cultural, como o Bauru, inventado em 1936 por um estudante de Direito procedente daquela cidade, cuja receita original, servida no Bar Ponto Chic de SP tinha pão francês, rosbife, queijo amarelo derretido e tomate; mais tarde incluiria picles e orégano. Com fórmulas variáveis, o  Americano, concebido na década de 1940 pela lanchonete Salada Paulista,  composto originalmente de pão francês, presunto, queijo, ovo, bacon, alface e tomate e, trazido por imigrantes árabes, o  Beirute - pão pita (ou pão sírio), rosbife, queijo, alface, tomate e ovo frito. 

Meu favorito é frugal: queijo branco, tomate e orégano apenas. Pode ser montado em pão de forma ou francês. Este último permite variar a aparência – o recheio é interposto entre as duas fatias de pão sem aquecer ou é imprensado em uma assadeira, o que integra as rodelas de tomate ao queijo. Partir ao meio é uma medida que contribui para que o  degustemos com parcimônia. Um já é suficiente se não somos vorazes.

Há pratos que embora na origem não sejam sanduíches, têm sido servidos com pão sírio. Segundo a Enciclopédia Britânica, Kebab provem de um termo persa com derivações para o árabe (kabāb) e o turco (kebap). Teriam surgido entre os povos transumantes da Ásia Central, cuja dieta rica em carne foi adaptada ao contexto urbano, em que os vegetais eram mais facilmente disponíveis. São uma escolha oportuna quando visitamos lugares cujos cardápios de refeições estão acima de nossos recursos. 

Todos nós, desde a infância, provamos tipos memoráveis, a começar com o simples pão com queijo prato que desembrulhávamos à hora do recreio escolar, ou em casa, esquentado em uma rudimentar sanduicheira para pão de forma feita de ferro. Logo atrás, vinha o pão com mortadela - servido em pedaços cortados de filão de pão - que competia em assiduidade com o sanduíche de patê de fígado de galinha. 

Todavia, além das qualidades organolépticas, o sanduíche traz uma virtude  agregada: a companhia que se desfruta ao se fazer a refeição. Vistos aos olhos de hoje, preparados por minha mãe quando éramos crianças, simples lanches com mortadela ou queijo transformam-se em iguarias (o presunto só vinha à mesa excepcionalmente aos domingos ou quando havia visitas). E contemplo a satisfação com que meu pai - que trabalhara em padaria - preparava sanduíches para nós.   

Mais tarde conheceríamos alguma sofisticação com o cheeseburger. Mas o requinte viria quando, calouros, conhecemos o Ponto Chic na rua Sacramento, em Campinas. Esqueci do nome e dos ingredientes, porém retive na memória o cenário e o sabor especial de novidade e início de camaradagem, visto ter sido aquele o primeiro bar da cidade em que pisamos. A seguir, com a convivência já sedimentada,  o renomado sanduíche de aliche do Facca Bar.

No tempo de faculdade, as incursões gastronômicas - ainda que para comer sanduíches – eram infrequentes. Vivíamos com o essencial, procurando gastar só o necessário para a subsistência. A importância de poupar se incrustara em nosso comportamento a tal ponto que, sem perceber, desenvolvemos conceitos de logística essenciais em uma economia de guerra, que exercitamos durante o tempo de moradia em comum.  Não havia, por exemplo, incentivo melhor para desenvolver a retórica do que voltar a SP de carona. E a emoção de entrar de graça no estádio nos 20 minutos finais de um jogo de futebol?

Algumas noites de sexta feira, à época em que morávamos na rua Treze de Maio, nos surpreendiam apenas com um resto de pó de café e um pouco de açúcar. Problemas como este nos despertavam alguma criatividade. Um teco de pão dormido com óleo e sal, ou um bolinho feito com Nescau e água poderiam ter um sabor especial, a depender da fome e da companhia.

Recordo de um feriado em que, ao aproximar-se da hora do almoço, a fome apertando, sem nada para comer e sem Toninha em casa, resolvemos fazer uma incursão à padaria próxima. Corria o ano de 1977 e aproximava-se a decisão do campeonato paulista de futebol. Encostado ao balcão, eu consultava a tabela de preços, quando ouvi o Grandão pedir um pãozinho. Um tanto intrigado, pois ele comia por duas pessoas normais, prestei atenção ao diálogo que se seguiu:

- “Mais alguma coisa?” perguntou o chapeiro, que usava um boné com distintivo do Corinthians.

- “Acho que vou levar um ovo também. Quanto sai tudo? Espere, você poderia colocá-lo na chapa, aproveitando o embalo?” Sem se dar conta, ele fez o que o Grandão pedia.

- “Esse ano vai ser nosso, hein companheiro?” disse o Mac para o rapaz, que repentinamente se animou ante aquela exaltação dos brios mosqueteiros.

Quando o ovo estava no ponto, o Grandão atacou novamente:

- “Falou, campeão! Agora, será que você me arranjaria uma folha de alface? Se não for incômodo, é claro!”

O rapaz atendeu. Pela sua expressão, via-se que estava feliz...

- “Do tomate, só duas rodelas... e se tiver uma fatiazinha de queijo sobrando...”

Ele não só acrescentou tomate e queijo, como espontaneamente incluiu uma fatia de presunto.

O fato é que todos nós matamos a fome naquela tarde. Quanto ao Grandão, pagou pelo seu sanduíche reforçado o preço que pagaria por um pão com ovo.  

Vivida quase uma década depois, vem-me à lembrança uma viagem muito almejada. Uma vez chegados em território europeu, de posse do Eurail Pass teríamos que cumprir várias escalas de trem, partindo de Madrid até Copenhague. Uma delas, em Paris, deu-nos algum tempo. Era de manhã quando desembarcados na Gare de Lyon e pegamos o metrô até a Gare du Nord.

Na estação, dirigi-me ao setor de informações. Enquanto esperava, reparei em  uma placa disposta acima da grade do guichê, que dizia: ”No English spoken”. A japonesa baixinha que estava à minha frente, por mais que se esforçasse não obteve outra resposta que não o dedo do funcionário a apontar para o aviso. Eu era o próximo da fila. Movido por um instinto atávico, revirei o Francês que aprendi no ginasial e, mesclando-o com um pouco de Espanhol, formulei minha pergunta. Tudo deve ter durado menos de 1 minuto. O funcionário passou-me com clareza a relação dos horários, a plataforma de embarque e como reforço deu-me um papelzinho com tais orientações.

Saindo de lá, atravessamos a rua atabalhoadamente à cata de um lugar para comer e entramos no primeiro bistrô que apareceu. Não havia lugar nas mesas, que estavam tomadas por homens que bebiam, fumavam e jogavam cartas. Em algumas faziam-se apostas.

Sentamo-nos ela e eu junto ao balcão e pedimos vinho da casa e sandwiches au fromage – acho que era Camembert. O queijo fedia, a ponto de trocarmos olhares desconfiados. Mas o cheiro forte é um bom sinal quando se trata de queijos, o que comprovamos ao experimentar o sabor.

Foi uma refeição comum, servida em um ambiente comum. Naquele contexto, tornou-se para nós excepcional. 

Hoje conhecemos um pouco a linha do tempo dos eventos ao longo dos quais vivemos nossas experiências - e comemos sanduíches. Posso então dizer que os que mencionei aqui – devido às circunstâncias e aos comensais – foram os que mais me agradaram.   

A caneta tinteiro

Meu interesse pela caneta tinteiro ressurgiu fortuitamente em 2015, durante uma escala no aeroporto de Frankfurt quando eu retornava de Berlin. Eu tinha que resgatar milhagem do Programa Miles and More da Lufthansa. Pouco tempo de conexão, uma busca apressada pelas lojas, nada de interesse que coubesse no valor correspondente e eis que em uma delas, próxima ao portão de embarque, vi um modelo de desenho e nome diferentes – Lamy, de cor azul chamativa e preço compatível.  

Desde então, reaprendi a usá-la e tomei gosto por escrever à mão. Faço-o quando disponho de tempo e tranquilidade para escrever. Já perdi aquele modelo Lamy Safari básico, e alguns outros bons exemplares pelo caminho e movido por embalos consumistas, adquiri novos. O último foi uma Parker, que vi em uma grande livraria–papearia em Praga, pela qual paguei 1.700 CZK.

As menções sobre as canetas-tinteiro vêm desde o século XVII, segundo o site https://sagapens.com/history-of-the-fountain-pen/. A versão moderna teria sido desenvolvida por Lewis Waterman, um ex-corretor de seguros americano que por volta de 1883 patenteou uma caneta tinteiro que aproveitava o princípio da capilaridade. 

É melhor escrever com esse tipo de caneta. Os neurocientistas dizem que ativa circuitos neurais que facilitam a aprendizagem - o ato de ler a letra repete-se em nossa mente e favorece a memorização. Para Anne Mangen, da Universidade de Stavanger (Noruega), a caligrafia unifica a mão, os olhos e a atenção num único ponto no espaço e no tempo. Daí a sensação referida por Brandon Keim em The Science of Handwriting (Scientific American, 2013) de não manipular blocos de texto, como na tela, mas sim palavras e frases. E sobre a escrita digital tem-se a vantagem, de se “passar a limpo” um texto, o que além de aumentar a nossa atenção e fixar na mente o conteúdo da mensagem, renova a sensação de escrever. 

Canetas tinteiro são bonitas, diferenciando-se da banalidade das esferográficas. Ao escrever com elas, juntamos as atividades motora, visual e mental. Deslizar a pena sem esforço na superfície de um bom papel, usar tintas de diferentes cores (um aspecto lúdico) e gravar nossa marca pessoal, são efeitos que se obtêm a depender do jeito que nos posicionamos e seguramos a caneta, da pena, do tipo de papel e logicamente da ergonomia da caneta. No lado prático 1) cansa menos a mão, desde que escrevamos sem pressa e com mínima pressão sobre a pena. O papel deve ser apropriado - os de textura áspera arranham a pena e os muito lisos dificultam a aderência; 2) aumenta a percepção visual, por requerer mais atenção com o formato das letras. No sentimental, faz lembrar dos primeiros anos de escola – foi com ela que, nos anos 1960 praticamos a escrita. 

Voltando ao tempo de escola, minha primeira deve ter sido uma simples Compactor do modelo mais barato. Nos primeiros dias do segundo ano do curso primário, pouco afeito ao seu manuseio, eu costumava voltar para casa com a camisa ornada por borrões de tinta, problema do qual minha mãe não reclamava muito; afinal a tinta era a Parker Super Quink azul real lavável. E não me importo quando às vezes inadvertidamente mancho os dedos de tinta ao abastecer no tinteiro uma caneta de conversor - isso me conecta diretamente às coisas boas daquele tempo. 

Quando completei 9 anos ganhei do meu tio e padrinho João um conjunto de caneta tinteiro e lapiseira alemãs de corpo listrado de verde e preto e tampa preta (vice-versa na lapiseira) com pena e clip dourados.  Eu me achava importante escrevendo com elas e pensava em reservá-las para ocasiões especiais. Hoje, procurando na internet, descubro que a caneta era uma Pelikan Old Style verde e preta, com preços entre 2 e 3 mil reais. Obviamente eu não a tenho mais. Perdeu-se no tempo, como os mata borrões, os papeis de carta (Par avion), as máquinas de escrever e outros instrumentos de escrita artesanal. 

Mas a caneta tinteiro sobrevive, como um símbolo, seja por força dos colecionadores ou dos que não fazem da escrita um ato simplesmente mecânico, banal e insosso.  Hoje vejo na internet que os sistemas educacionais de alguns estados americanos e de países escandinavos e até algumas escolas brasileiras têm estimulado a escrita à mão no ensino dos primeiros anos.

Com nossas canetas tinteiro imergimos em um mundo reservado – nele somos livres para escrever sem que ninguém nos veja e atrapalhe (até porque ninguém irá ler), usar diversas cores e tons de tinta e até passar a limpo um rascunho. Registramos ideias de grandes pensadores ou nossas, sem prestar satisfação a quem quer que seja. Fazemos anotações em artigos impressos e corrigirmos os textos dos alunos e o nossos. Sentimo-nos em casa. 

No curso da escrita aparecem à minha volta, fugazes, algumas cenas alusivas às cartas que eu escrevia para meus familiares do Sul, à caligrafia graciosa de minha mãe, desenvolta e concisa de minha tia Esther e categórica de meu pai com sua Parker 51. E o entusiasmo com que meu avô me mostrava, em um simples caderno brochura, os salmos que ele transcrevia à mão (ainda que usando uma reles esferográfica Bic) ... imagens de um passado que evoca o lar e um tempo que, à vista de hoje, era sereno e promissor.