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Por que os dias da infância nos parecem idílicos

Sua infância lhe parece por demais remota? [...] Há vinte anos, sim, mas nessa quadra da vida, não. Porque quanto mais perto me sinto do fim mais perto me sinto do princípio, como se fechasse o círculo.                            (Trecho de A Tale of Two Cities - Charles Dickens). 



Depois de assistir ao filme “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice, impressionei-me  com o simbolismo entrelaçado na história e também com os cenários e a fotografia. No entanto, o que me atraiu foram os olhos da menina atriz Ana Torrent – grandes, escuros e com uma expressão que parecia vir da alma – olhos com que ela observava o mundo e tudo ao seu redor. Isso me relembrou a infância.

Naqueles dias distantes a vida era mais simples, mas talvez fosse menos colorida do que a pintamos em nossa perspectiva atual. Seria porque ao figurá-la tendemos a iluminar os aspectos positivos do passado - mesmo os fugazes - e deixar de lado os ruins ou  insignificantes?  

De um ponto de vista “schopenhaueriano”, a representação da realidade pode ser entendida de outro modo: a lente através da qual víamos o mundo aos 9 ou 13 anos de idade era diferente. Não dispúnhamos dos critérios de avaliação que temos no presente, o que é compreensível, dado que éramos imaturos. 

Tampouco conhecíamos a linha do tempo dos eventos ao longo da qual assentamos nossa vivência. E esta faz-nos hoje romantizar a visão dos primeiros anos. É desnecessário fazer considerações de longo alcance para lembrar da época em que a mãe nos chamava  - “Venham tomar lanche!”- para o mingau de aveia, maisena ou uma vitamina de abacate. 

Embora nossa vontade quando crianças não fosse particularmente forte, o potencial inato para viver, aprender e imaginar era consideravelmente maior do que o atual. Se não havia meios de adquirir coisa melhor, contentávamo-nos em fazer alçar voo (altitude um pouco acima do telhado) uma ‘capucheta’ - pequena pipa sem estrutura de varetas e feita com papel de jornal. As demandas básicas eram satisfeitas. Havia sim as tarefas escolares e domésticas, aborrecimentos ocasionais e punições corretivas. Porém, as atividades lúdicas — ler, jogar bola de gude, empinar pipa, correr, saltar, pedalar, simular lutas, futebol — eram o nosso fio condutor. 

Inexistiam as grandes preocupações, uma vez que os pais e familiares garantiam-nos o bem-estar. A vida se estendia adiante e para um horizonte longínquo. Entrevíamos uma aura de esperança no futuro. Acreditávamos.

Principia na infância o interesse, não necessariamente virtuoso, pelo sexo oposto. Sejamos expansivos ou tímidos, ele subsiste latente. À parte da parceirinha da primeira quadrilha de festa junina aos cinco anos de idade, aos nove criamos afinidade com duas meninas de idade aproximada da nossa. Roseli, de índole suave - à imagem do que significa o nome, pele e cabelos claros (olhos verdes?) e Rosemary, a idade um pouco maior, morena de olhos castanhos, mais falante e com a vitalidade do alecrim, de cuja raiz etimológica – Rosmarinus officinalis - recebera a graça. Ignoro se eram irmãs, meio irmãs, primas ou amigas. Moravam longe, na Aclimação. Não obstante as visitas serem esparsas, nosso entrosamento era tão natural que tão logo nos víamos engatávamos a conversar e brincar animadamente como velhos amigos... e assim continuávamos o dia inteiro. Era uma harmonia rara, dada pouca frequência dos encontros e por ser verdadeiramente preciosa. 

Um dia soubemos que elas haviam se mudado para outra cidade. Nossos laços – que conquanto intermitentes se propunham auspiciosos – se desmancharam. Nunca mais as vimos. Junto ao bem-querer, ficou-nos a ideia do encanto feminino que nas duas antevíamos ao lhes surgirem os primeiros traços da adolescência. Lamento este desfecho mais profundamente hoje do que antes; afinal, o passado mostra-se mais interessante neste momento. Como transcorreram suas existências e como estariam, não há como saber.

As lembranças da meninice se alicerçam nos locais onde moramos. Um deles nos permitia transcender as cercanias prosaicas da casa, da rua e da escola. Próximos a um brejo fronteiriço (onde mais tarde construiriam uma larga avenida) dormíamos ao som dos grilos e do coaxar das rãs. À noite, ir atrás dos pirilampos. No verão havia os pernilongos, é verdade, mas nada que um espiral mata-mosquitos ‘Boa Noite’ não atenuasse ou, em casos extremos, o ‘Detefon’ (inseticida organoclorado tóxico, atualmente de uso doméstico proibido) mediante a precaução de se ficar de fora do quarto por meia hora após a aplicação. 

Para lá da extensão do gramado, das sebes e das árvores ficavam os hangares (e seus vestígios aromáticos de óleo, graxa e gasolina) e a plataforma de taxiamento, onde nos aventurávamos com alguma temeridade, visto ser proibida a circulação de pessoas não autorizadas e muito de menos de crianças. Para além dela, a pista, que em trechos mais afastados era flanqueada por um manto vegetal ermo e inacessível. As aeronaves chegavam e partiam e cada uma ostentava, junto com sua personalidade, o encanto do desconhecido.    

O “Parque” era um rico e vasto ambiente físico cheio de lugares para percorrer. Sim, eram espaços imensuráveis, mas cá entre nós, reconheço que sua amplitude aparentava ser então muito maior do que a percebemos hoje.  

A essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas do passado e do futuro”, são palavras de Thomas Mann. Todavia, o autor ponderava que o passado é o elemento e a atmosfera natural de quem conta histórias. 

Um e outro pensamento podem ser verdadeiros. E é com eles que enxergamos as cenas e eventos ao escrever sobre aquele tempo. Se quando jovens (e justamente por sermos jovens) as deixamos passar sem lhes dar a devida apreciação, hoje vividos, acolhemos a reflexão de Schopenhauer, que considerava serem elas as pedras do mosaico com as quais formamos a imagem do que recordamos da vida.  

Acho que acertou Mario Vargas Llosa quando disse que escrever é um ato de rebeldia contra a realidade.




El espíritu de la colmena/The Spirit of the Beehive (1973)