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Uma invenção secular

             A exemplo da natureza humana, ele existe para todos os gostos. Discreto ou ornamentado, refinado ou tosco, saudável ou anêmico; constituído de componentes nobres ou baratos, de feições simples e sabor sofisticado, ou feito apenas “para inglês ver”. Diz a história ter sido criado em 1762 ou 1765 por John Montagu, secretário de estado e chefe  do almirantado britânico, que teria comido um pedaço de carne bovina entre duas fatias de pão tostado para não ter que abandonar uma mesa de jogo.

Tornou-se moda desde então. Alguns viraram patrimônio cultural, como o Bauru, inventado em 1936 por um estudante de Direito procedente daquela cidade, cuja receita original, servida no Bar Ponto Chic de SP tinha pão francês, rosbife, queijo amarelo derretido e tomate; mais tarde incluiria picles e orégano. Com fórmulas variáveis, o  Americano, concebido na década de 1940 pela lanchonete Salada Paulista,  composto originalmente de pão francês, presunto, queijo, ovo, bacon, alface e tomate e, trazido por imigrantes árabes, o  Beirute - pão pita (ou pão sírio), rosbife, queijo, alface, tomate e ovo frito. 

Meu favorito é frugal: queijo branco, tomate e orégano apenas. Pode ser montado em pão de forma ou francês. Este último permite variar a aparência – o recheio é interposto entre as duas fatias de pão sem aquecer ou é imprensado em uma assadeira, o que integra as rodelas de tomate ao queijo. Partir ao meio é uma medida que contribui para que o  degustemos com parcimônia. Um já é suficiente se não somos vorazes.

Há pratos que embora na origem não sejam sanduíches, têm sido servidos com pão sírio. Segundo a Enciclopédia Britânica, Kebab provem de um termo persa com derivações para o árabe (kabāb) e o turco (kebap). Teriam surgido entre os povos transumantes da Ásia Central, cuja dieta rica em carne foi adaptada ao contexto urbano, em que os vegetais eram mais facilmente disponíveis. São uma escolha oportuna quando visitamos lugares cujos cardápios de refeições estão acima de nossos recursos. 

Todos nós, desde a infância, provamos tipos memoráveis, a começar com o simples pão com queijo prato que desembrulhávamos à hora do recreio escolar, ou em casa, esquentado em uma rudimentar sanduicheira para pão de forma feita de ferro. Logo atrás, vinha o pão com mortadela - servido em pedaços cortados de filão de pão - que competia em assiduidade com o sanduíche de patê de fígado de galinha. 

Todavia, além das qualidades organolépticas, o sanduíche traz uma virtude  agregada: a companhia que se desfruta ao se fazer a refeição. Vistos aos olhos de hoje, preparados por minha mãe quando éramos crianças, simples lanches com mortadela ou queijo transformam-se em iguarias (o presunto só vinha à mesa excepcionalmente aos domingos ou quando havia visitas). E contemplo a satisfação com que meu pai - que trabalhara em padaria - preparava sanduíches para nós.   

Mais tarde conheceríamos alguma sofisticação com o cheeseburger. Mas o requinte viria quando, calouros, conhecemos o Ponto Chic na rua Sacramento, em Campinas. Esqueci do nome e dos ingredientes, porém retive na memória o cenário e o sabor especial de novidade e início de camaradagem, visto ter sido aquele o primeiro bar da cidade em que pisamos. A seguir, com a convivência já sedimentada,  o renomado sanduíche de aliche do Facca Bar.

No tempo de faculdade, as incursões gastronômicas - ainda que para comer sanduíches – eram infrequentes. Vivíamos com o essencial, procurando gastar só o necessário para a subsistência. A importância de poupar se incrustara em nosso comportamento a tal ponto que, sem perceber, desenvolvemos conceitos de logística essenciais em uma economia de guerra, que exercitamos durante o tempo de moradia em comum.  Não havia, por exemplo, incentivo melhor para desenvolver a retórica do que voltar a SP de carona. E a emoção de entrar de graça no estádio nos 20 minutos finais de um jogo de futebol?

Algumas noites de sexta feira, à época em que morávamos na rua Treze de Maio, nos surpreendiam apenas com um resto de pó de café e um pouco de açúcar. Problemas como este nos despertavam alguma criatividade. Um teco de pão dormido com óleo e sal, ou um bolinho feito com Nescau e água poderiam ter um sabor especial, a depender da fome e da companhia.

Recordo de um feriado em que, ao aproximar-se da hora do almoço, a fome apertando, sem nada para comer e sem Toninha em casa, resolvemos fazer uma incursão à padaria próxima. Corria o ano de 1977 e aproximava-se a decisão do campeonato paulista de futebol. Encostado ao balcão, eu consultava a tabela de preços, quando ouvi o Grandão pedir um pãozinho. Um tanto intrigado, pois ele comia por duas pessoas normais, prestei atenção ao diálogo que se seguiu:

- “Mais alguma coisa?” perguntou o chapeiro, que usava um boné com distintivo do Corinthians.

- “Acho que vou levar um ovo também. Quanto sai tudo? Espere, você poderia colocá-lo na chapa, aproveitando o embalo?” Sem se dar conta, ele fez o que o Grandão pedia.

- “Esse ano vai ser nosso, hein companheiro?” disse o Mac para o rapaz, que repentinamente se animou ante aquela exaltação dos brios mosqueteiros.

Quando o ovo estava no ponto, o Grandão atacou novamente:

- “Falou, campeão! Agora, será que você me arranjaria uma folha de alface? Se não for incômodo, é claro!”

O rapaz atendeu. Pela sua expressão, via-se que estava feliz...

- “Do tomate, só duas rodelas... e se tiver uma fatiazinha de queijo sobrando...”

Ele não só acrescentou tomate e queijo, como espontaneamente incluiu uma fatia de presunto.

O fato é que todos nós matamos a fome naquela tarde. Quanto ao Grandão, pagou pelo seu sanduíche reforçado o preço que pagaria por um pão com ovo.  

Vivida quase uma década depois, vem-me à lembrança uma viagem muito almejada. Uma vez chegados em território europeu, de posse do Eurail Pass teríamos que cumprir várias escalas de trem, partindo de Madrid até Copenhague. Uma delas, em Paris, deu-nos algum tempo. Era de manhã quando desembarcados na Gare de Lyon e pegamos o metrô até a Gare du Nord.

Na estação, dirigi-me ao setor de informações. Enquanto esperava, reparei em  uma placa disposta acima da grade do guichê, que dizia: ”No English spoken”. A japonesa baixinha que estava à minha frente, por mais que se esforçasse não obteve outra resposta que não o dedo do funcionário a apontar para o aviso. Eu era o próximo da fila. Movido por um instinto atávico, revirei o Francês que aprendi no ginasial e, mesclando-o com um pouco de Espanhol, formulei minha pergunta. Tudo deve ter durado menos de 1 minuto. O funcionário passou-me com clareza a relação dos horários, a plataforma de embarque e como reforço deu-me um papelzinho com tais orientações.

Saindo de lá, atravessamos a rua atabalhoadamente à cata de um lugar para comer e entramos no primeiro bistrô que apareceu. Não havia lugar nas mesas, que estavam tomadas por homens que bebiam, fumavam e jogavam cartas. Em algumas faziam-se apostas.

Sentamo-nos ela e eu junto ao balcão e pedimos vinho da casa e sandwiches au fromage – acho que era Camembert. O queijo fedia, a ponto de trocarmos olhares desconfiados. Mas o cheiro forte é um bom sinal quando se trata de queijos, o que comprovamos ao experimentar o sabor.

Foi uma refeição comum, servida em um ambiente comum. Naquele contexto, tornou-se para nós excepcional. 

Hoje conhecemos um pouco a linha do tempo dos eventos ao longo dos quais vivemos nossas experiências - e comemos sanduíches. Posso então dizer que os que mencionei aqui – devido às circunstâncias e aos comensais – foram os que mais gostei.