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A caneta tinteiro

Meu interesse pela caneta tinteiro ressurgiu fortuitamente em 2015, durante uma escala no aeroporto de Frankfurt quando eu retornava de Berlin. Eu tinha que resgatar milhagem do Programa Miles and More da Lufthansa. Pouco tempo de conexão, uma busca apressada pelas lojas, nada de interesse que coubesse no valor correspondente e eis que em uma delas, próxima ao portão de embarque, vi um modelo de desenho e nome diferentes – Lamy, de cor azul chamativa e preço compatível.  

Desde então, tomei gosto por escrever à mão. É aprazível dispor de tempo e tranquilidade para escrever, em papel apropriado com uma caneta tinteiro. Já perdi aquele modelo Lamy básico, e alguns outros bons exemplares pelo caminho e movido por embalos consumistas, adquiri novos. O último foi uma Parker, que vi em uma grande livraria–papearia em Praga, pela qual paguei 1.700 CZK.

Há poucos dias, uma boa notícia – um filho me disse estar com uma Parker 51 de corpo cinza e tampa dourada que pertenceu ao meu pai. O estado de conservação é satisfatório à exceção da haste da tampa, que foi perdida. 

As menções sobre as canetas-tinteiro vem desde o século XVII, segundo o site https://sagapens.com/history-of-the-fountain-pen/. A versão moderna teria sido desenvolvida por Lewis Waterman, um ex-corretor de seguros americano que por volta de 1883 patenteou uma caneta tinteiro que aproveitava o princípio da capilaridade. 

É melhor escrever com esse tipo de caneta. Os neurocientistas dizem que ativa circuitos neurais que facilitam a aprendizagem - o ato de ler a letra repete-se em nossa mente e favorece a memorização. Para Anne Mangen, da Universidade de Stavanger (Noruega), a caligrafia unifica a mão, os olhos e a atenção num único ponto no espaço e no tempo; daí a sensação referida por Brandon Keim em The Science of Handwriting (Scientific American, 2013) de não manipular blocos de texto,  como na tela, mas sim palavras e frases. E sobre a escrita digital tem-se a vantagem, de se “passar a limpo” um texto, o que além de aumentar a nossa atenção e fixar na mente o conteúdo da mensagem, renova a sensação de escrever. 

Canetas tinteiro são bonitas, diferenciando-se da banalidade das esferográficas. Ao escrever com elas, juntamos as atividades motora, visual e mental. É agradável deslizar a pena na superfície de um bom papel, usar tintas de diferentes cores (um aspecto lúdico) e gravar nossa marca pessoal. No lado prático 1) cansa menos a mão, desde que escrevamos sem pressa e com mínima pressão sobre a pena e 2) aumenta a percepção visual, por requerer mais atenção com o formato das letras. No sentimental, faz lembrar dos primeiros anos de escola – foi com ela que, nos anos 1960 praticamos a escrita. 

Voltando ao tempo de escola, minha primeira deve ter sido uma simples Compactor do modelo mais barato. Nos primeiros dias do segundo ano do curso primário, pouco afeito ao seu manuseio, eu costumava voltar para casa com a camisa ornada por borrões de tinta, problema do qual minha mãe não reclamava muito; afinal a tinta era a Parker Super Quink azul real lavável. E não me importo quando às vezes inadvertidamente mancho os dedos de tinta ao abastecer no tinteiro uma caneta de conversor - isso me conecta diretamente às coisas boas daquele tempo. 

Quando completei 9 anos ganhei do meu tio e padrinho João um conjunto de caneta tinteiro e lapiseira alemãs de corpo listrado de verde e preto e tampa preta (vice-versa na lapiseira) com pena e clip dourados.  Eu me achava importante escrevendo com elas e pensava em reservá-las para ocasiões especiais. Hoje, procurando na internet, descubro que a caneta era uma Pelikan Old Style verde, com preços em torno de 3 mil reais. Obviamente eu não a tenho mais. Perdeu-se no tempo, como os mata borrões, os papeis de carta (Par avion), as máquinas de escrever e outros instrumentos de escrita artesanal. 

Mas a caneta tinteiro sobrevive, como um símbolo, seja por força dos colecionadores ou dos que não fazem da escrita um ato simplesmente mecânico, banal e insosso.  Hoje vejo na internet que os sistemas educacionais de alguns estados americanos e de países escandinavos e até algumas escolas brasileiras têm estimulado a escrita à mão no ensino dos primeiros anos.

Com nossas canetas tinteiro imergimos em um mundo reservado – nele somos livres para escrever sem que ninguém nos veja e atrapalhe (até porque ninguém irá ler), usar diversas cores e tons de tinta e até passar a limpo um rascunho. Registramos ideias de grandes pensadores ou nossas, sem prestar satisfação a quem quer que seja. Fazemos anotações em artigos impressos e corrigirmos os textos dos alunos e o nossos. Sentimo-nos em casa. 

No curso da escrita aparecem à minha volta, fugazes, algumas cenas alusivas às cartas que eu escrevia para meus familiares do Sul, à caligrafia categórica de meu pai, graciosa de minha mãe, e desenvolta e concisa de minha tia Esther em suas cartas. E o entusiasmo com que meu avô me mostrava, em um simples caderno brochura, os salmos que ele transcrevia à mão (ainda que usando uma reles esferográfica Bic) ... imagens de um passado que evoca o lar e um tempo que, à vista de hoje, era sereno e auspicioso.