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Com giz e quadro-negro

Poucos rituais são mais agradáveis do que - na hora fria das manhãs - nos servirmos da refeição que nós mesmos elaboramos. Hoje cedo tomei meu café, que preparo de forma tão artesanal quanto possível. Nessa hora, de regra faço-me acompanhar da leitura, o que acaba me distraindo das sensações proprioceptivas do paladar, mas um dia a deixarei momentaneamente de lado, para quem sabe, me inteirar dos efeitos viscerais ou espirituais deste último. 

Daqui a pouco enfrentarei as ruas no percurso de cinco quadras rumo ao hospital onde trabalho na atividade de ensinar.

Começo a caminhar, apresso o passo e na ausência de alguém para conversar, procuro pensar em alguma coisa durante o trajeto. Qualquer coisa serve para fugir da paisagem que dia a dia se desfigura, a exemplo dos tipos humanos que nela se movem ou se assentam.

Porém, muito além de ‘qualquer coisa’ - para compensar as decepções dos tempos atuais em relação ao ensino – acorre-me ideia de escrever sobre meus professores da escola primária e secundária. 

Os colégios em que estudamos residem em nossa memória, e também os professores que tivemos. Entre esses, do mesmo modo que tudo na vida, havia os que gostávamos, os que não gostávamos e os que nos eram indiferentes. 

A professora com quem aprendi a ler e escrever chamava-se Dona Martha. Uma figura neutra e sem traços marcantes, salvo pela ocasião em que me tomou um apito com o qual eu anunciara o início do horário do recreio. Eu tinha feito o anúncio de forma incisiva e absolutamente espontânea, mas ela não quis saber. Nunca mais vi o apito, apesar de eu lhe ter mostrado um bilhete escrito por minha mãe solicitando-o de volta. Levou-o embora e acredito que tenha se divertido bastante com ele. Concluí que ela não tinha espírito esportivo. Esta deve ter sido a experiência inicial a revelar meu inconformismo diante das injustiças do mundo.

Dona Maria do Carmo Rocha, nos seus 54 anos, era uma educadora nata que nos ensinou, ao lado do conteúdo curricular, noções básicas de bom senso e relacionamento humano, tudo de forma paciente e posso dizer, terna. Até para dar bronca ela tinha tato. Certa vez precisou faltar, sendo substituída por uma jovem inexperiente e que não sabia se impor, o que nós, meninos, interpretamos como um sinal verde para fazer uma bela algazarra. No dia seguinte, depois de chamar nossa atenção com firmeza, dona Maria do Carmo exortou-nos a tomar a água com que as meninas lavavam os pés à noite – tal qual uma espécie de poção medicinal que faria com que nos comportássemos melhor. Dessa forma, amenizando a repreensão com bom humor ela passou-nos sua mensagem. Sob sua regência aprendemos a cantar hinos, entre os quais o Hino à Bandeira, o mais belo de todos. Aquela senhora, com quem tive aulas no terceiro ano primário, é uma das minhas recordações carinhosas da infância. 

Lembro-me do professor de Ciências na segunda série ginasial. Moreno claro, de sua fronte larga saíam entradas que prediziam uma calvície não muito remota, apesar de aparentar menos de trinta anos. Vestia sempre terno e gravata azul marinho para contrastar com o tom claro da camisa. Um bigodinho fino remontava os idos da década de quarenta. Não se importava muito com a bagunça que fazíamos na classe. Para falar a verdade às vezes parecia até gostar. E nós também gostávamos do professor Daniel ou simplesmente "baiano", como o chamávamos, por ele ser despojado. Ganhou nossa simpatia definitiva quando o surpreendemos certa vez no recreio comendo um sanduíche, em vez de tomar o lanche com seus colegas na sala dos professores. Nunca chegamos a saber sua real procedência, embora seus traços revelassem ser ele um filho do Ceará. 

Eu disse que ele não se dava conta da bagunça durante as aulas? Bem, talvez fosse assim porque nossa classe era mista e em atenção às meninas ele contemporizasse. Disseram-nos os colegas da classe ao lado - constituída só de marmanjos, que certa vez, com os ânimos inflamados pela baderna, ele teria ameaçado tirar um revólver da cintura (segundo outra versão teria sido uma peixeira) dizendo qualquer coisa assim:

 – “Quero ver cabra macho pra me desrespeitar!”

De feitio oposto era o prof. Mistretta, com quem, na quarta série ginasial, conhecemos a tabela periódica dos elementos químicos. De compleição física pequena, era jovem e sua personalidade formal estendia-se à vestimenta, que usava com apuro - trajes sociais finos, que incluíam terno, gravata e sapatos, todos de uma vez (não sei se fora da classe usava chapéu). Tal formalismo se justificaria por ele ser novo no colégio ou porque era aquele mesmo o seu jeito. De maneiras cerimoniosas, sua imagem mimetizava um bonequinho bem vestido e bem-educado. Certa vez, exibindo sua bela caneta tinteiro disse - com o ar grave de quem faz um alerta importante - que a caneta esferográfica (a Bic começava a se popularizar em 1967) fazia mal à saúde. Não sei se era verdade, mas é fato que a caneta tinteiro sobrevive até hoje, graças aos que (eu mesmo sou um deles) não fazem da escrita um ato simplesmente mecânico e insosso.   

À época, o ensino público mantinha uma boa qualidade, o que alicerçou nosso aprendizado e nos habilitou a atuar nas atividades ao longo da vida. No que hoje equivale à sexta e sétima série, aprendemos o idioma Francês. Minha primeira professora foi Dona Jane, uma moça alta, de cabelos loiros e olhos verdes. Tinha 26 anos (ela sugeriu isso um dia). Além da capacidade didática (não falava em Português durante as aulas), Dona Jane era uma beldade. Em uma época em que moças usavam vestidos (e enfeite de homem era bigode), dizia-se que alguns colegas, de forma sorrateira, posicionavam um espelhinho no chão que ela pisava ao se deter diante da carteira de algum aluno para verificar sua lição de casa. Particularmente eu considerava aquilo uma lorota. 

A primeira frase que me lembro dela ter pronunciado e escrito na lousa foi Qu’est-ce que c’est? A princípio achei complicada de escrever, mas ela nos fez logo entender de modo simples, quase sem recorrer ao Português. Sabia explicar de modo seguro e elegante ou de forma lúdica, quando nos ensinava a entoar as canções Frère Jacques, Quand trois poules s'en vont aux champs ou a La Marsaillese - essa por ocasião da vinda do presidente Charles De Gaulle ao Brasil. 

Além do atributo formosura, Dona Jane harmonizava clareza e concisão com seu jeito categórico e ao mesmo tempo suave de falar. Na simplicidade de meus 11 anos eu me comprazia em admirar sua beleza - tão próxima e ao mesmo tempo intangível. As aulas de Francês com ela eram um maná celestial quando comparadas às de Desenho (não pela matéria e sim por quem a lecionava na primeira série). 

No ano seguinte passamos a aprender o idioma com um senhor, que apesar de se autointitular Monsieur, era brasileiro – a mim parecia um octogenário chato e a antítese perfeita de Dona Jane. Se bem que pude desfazer tal impressão quando, em uma volta para casa, conversarmos amistosamente no banco traseiro do trólebus, 

Dona Maria do Céu viria a substituí-lo no segundo semestre. Embora sem os mesmos atrativos femininos que a primeira, era simpática e comunicativa. Para um trabalho de final de ano, incumbira-nos de escrever uma monografia e apresentar a sinopse diante da classe. Tendo escolhido o tema Revolução Francesa, na capa em cartolina desenhei uma ilustração sugestiva: a invenção do Dr. Guillotin, que meticulosamente pintei com lápis de cor marrom. Até hoje recordo de sua expressão exaltada ao ver o desenho: “- Vocês sabem o que é isso, crianças”? E fez um discurso veemente a respeito da guilhotina e temas afins. 

A base teórica da Língua Francesa que recebi naqueles dois anos não foi esquecida. O mesmo ocorreu com o Inglês, sob a condução de Dona Norma e Mister Melo. A primeira, que nos deu os fundamentos gramaticais do idioma, era expressiva, hábil em sua didática e sabia nos motivar. Mr. Melo já era diferente. Passando um pouco da meia idade, primava pela fleuma e por ser absolutamente impessoal no trato com os alunos. Não sorria, mas diziam que fora do ambiente escolar era bastante amistoso, o que fora evidenciado quando recebera alunos em sua casa de Campos de Jordão durante as férias de julho.  Por suas proporções corporais diminutas, entre nós era chamado de ‘Melinho’. A propósito, no segundo ano colegial, por ocasião do dia dos professores, nossa classe presenteou-o com uma lata de Neston.   

Apesar de sua frieza aparente, ‘Melinho’, cuja pronúncia possivelmente adquirira nos 2 anos em que residira nos EUA – sabia ensinar. Organizava seminários sobre assuntos diversos, que podíamos ilustrar com cartazes e expor diante da classe. De forma lúdica, auxiliados pelo gravador de fita cassete que ele trazia, aprendemos a cantar Light my fire (na versão interpretada por Jose Feliciano) e The sounds of silence (Simon & Garfunkel), grandes sucessos em 1968 e 1969. 

Acho ele nunca pronunciou uma palavra em Português durante as aulas. Era imperturbável, até mesmo no caso de tomar medidas disciplinares. Em uma segunda-feira, logo após a semana santa, ele chamou um aluno à frente para contar o que havia feito durante o feriado. Mal o aluno começara a falar, foi interrompido por um colega que exclamou em Português: 

- “Diga que comeu bacalhau na sexta-feira santa! ”

A fisionomia inflexível e o tom de voz de Mr. Melo, com o dedo em riste a apontar para a porta e proferindo a frase: “The clown, in the circus” – foi um recado que o galhofeiro entendeu de imediato, retirando-se da sala. 

Nos anos 1960 ainda não havia o empobrecimento e a homogeneização da linguagem escrita e seus desastrosos efeitos sobre o desenvolvimento intelectual dos jovens. Aprendíamos com a leitura dos livros físicos que eram adotados pela escola. No curso fundamental era a Cartilha Sodré, ou a Caminho Suave, e depois as brochuras de conhecimentos gerais da Carolina Rennó Ribeiro de Oliveira. Mais tarde viriam os livros das diferentes matérias, incluindo o Atlas Geográfico Escolar do MEC. Caso precisássemos ampliar nossa ‘erudição’, servíamo-nos de um recurso mais complexo: a Enciclopédia BARSA que, ao lado de outros títulos interessantes, integrava o acervo da biblioteca do colégio. Todo o conhecimento do mundo estaria ali naquelas páginas, que eram anualmente atualizadas pelo “livro do ano”. 

Com o espaço físico simulando um aquário delimitado por duas paredes de vidro transparente e em sua lateral esquerda amplas janelas de onde era possível avistar o pátio e a piscina – o que lhe dava uma atmosfera agradável – a biblioteca era cuidada pelos olhos e ouvidos atentos de Dona Augusta. Quando nos reuníamos com colegas para trabalhos em grupo era inevitável conversarmos e inevitável sermos interrompidos por Dona Augusta que, com um olhar de madre superiora por cima dos óculos e o dedo indicador à frente dos lábios nos advertia sobre o princípio - hoje esquecido - de ser aquele um ambiente em que se deve guardar silencio.  

Louvo aqui menos três professores aos quais devo o bom emprego do nosso idioma: no ginasial, ‘Geraldão’ e Maria Aparecida e no colegial, Walter. O primeiro, pelo modo sistemático e paciente com que nos fez aprender todas as conjugações verbais, a segunda por nos iniciar nos autores brasileiros clássicos do século XIX - Machado de Assis e José de Alencar.  O terceiro, notável por sua elegância nos gestos e no falar – recurso do qual naturalmente se beneficiava a sua didática. 

‘Geraldão’, quando o conhecemos era um professor de meia idade, pele morena, cabelos curtos e ligeiramente grisalho. Notabilizava-se por seu ar pachorrento e a forma cadenciada de articular as palavras, em especial ao término das frases. Seu olhar sério por trás dos óculos de casco de tartaruga quase nunca se arregalava e ele não costumava se expressar sobre assuntos que se afastassem do programa das aulas. 

Gostava de passear pelas carteiras para ler o que anotávamos e por duas vezes ouvi sua voz (da segunda vez, menos sossegada) a me corrigir: “- Sujeito é com ‘Jota”! Intervenções proveitosas aquelas, pois se dali por diante se eu ainda ficasse em dúvida, ouviria sua voz a me alertar. Nunca mais errei a grafia.

Dificilmente perdia a paciência. Quando surpreendia uma menina em conversa, sua forma peculiar de chama-la à atenção era dizer, meio brincalhão, que ela estava muito agitada e aconselhava-a beber um chá de flor de laranjeira para se acalmar. Já com os meninos era mais rigoroso: tomava de uma caderneta preta (fazia questão de mostrá-la e ressaltar a sua cor) e anotava o nome do infeliz, asseverando que ao final do ano a abriria - uma espécie de dossiê a ser considerado para eventuais decisões que certamente não lhe seriam favoráveis. Nunca soubemos detalhes desse virtual desfecho embora alguns colegas se mostrassem preocupados (um deles chegou a chorar) ao terem seus nomes inscritos na tal cadernetinha preta. 

Certa vez, mal começara a aula, ‘Geraldão’ mandou vir à frente para ser submetido à chamada oral um aluno que estava a alegremente a tagarelar. Abandonando seu suingue vocal, após uma rápida admoestação, disparou três perguntas em série, aguardando a resposta ao final de cada uma:

- “O que é próclise? “ 

- “O que é ênclise? “

- “O que é mesóclise? ” 

O aluno - que de repente ficara sério - respondeu a todas corretamente. ‘Geraldão’ deve ter se desapontado, porque de modo lacônico, encerrou o interrogatório:  - “Vá sentar”! 

Porém, o maior legado que nos deixou ‘Geraldão’, além das redações às sextas feiras, foram as aulas semanais de conjugação verbal. Ele convidava um voluntário para ir à lousa (eram duas, sendo a lateral bem comprida, e tomavam duas paredes) e escrever todos os tempos possíveis de um determinado verbo. Pretérito perfeito, imperfeito, mais que perfeito, imperativo, futuro do subjuntivo, futuro do presente e do pretérito, e daí por diante. Quando o braço se cansava, ele chamava alguém para substituir. ‘Geraldão’ ensinava a conjugar e nós copiávamos no caderno aquelas formas verbais, que ficariam impressas de modo indelével em nossa na mente.    

Houve pessoas que passaram por nossas vidas escolares, por contingência do destino, para que tivéssemos um contato inicial com os incontáveis traços que compõem o espectro da personalidade humana. Por terem índole diversa, alguns professores davam a impressão de que o calor humano seria algo remoto. Me reportarei a um deles, dada a importância da matéria na grade curricular e porque era, no mínimo, uma personagem curiosa. Durante 3 ou 4 anos letivos intercalados por algumas substituições breves e inesperadas - períodos em que assumia a direção do colégio - tivemos um professor de Matemática cujo nome não revelarei aqui –  era o “A”, cujas iniciais eram OAC. 

“A”, em geral começava o ano animado e com evidente disposição de ensinar. De fato, ele conhecia muito bem o seu ofício. Era impossível deixar de aprender quando ele estava naquela fase. Emprestava então clareza e entusiasmo às explicações, e o entusiasmo aumentava quando - nas raras vezes em que mudava de assunto - resolvia dissertar sobre a cidade de Brodowski - berço de Cândido Portinari - e dos planos de um futuro museu que abrigaria as obras do pintor. Não é à toa que deram o nome de Professor “OAC” à biblioteca municipal daquela cidade. 

Até ali, estava tudo bem. O problema é que no decorrer do ano letivo OAC devia se enfadar: deixava então o empenho de lado e passava a ensinar de modo displicente, como se estivesse a dar a aula para si mesmo sem ter vontade. Independentemente do ânimo, não demonstrava empatia com os alunos e acho mesmo que os desprezava. Devia pensar que éramos todos uns “zé-manés”. Havia, contudo, exceções, que ele reservava às alunas bonitinhas. Se durante a aula, eventualmente as apanhasse em conversa paralela ou em atitude distraída, de modo jocoso ele as interpelava: 

- “Fulana, o que é que há com o teu peru? ”

“Ãh? ”

- ”...o quê, você não tem peru? ” 

Ou então:

- “Fulana, o que está olhando com tanto interesse pela janela? Está caçando homem? ”

- “?”

E o diálogo (que seria mais um monólogo) parava por ali. Talvez com aquela singular tentativa de prosa ele quisesse chamá-la aos brios e fazer com que prestasse atenção à aula. Nós, de certa forma nos acostumáramos a assistir tais abordagens, que de outro modo serviam de refrigério em nosso trabalho de acompanhar o raciocínio matemático. 

Com os meninos já era diferente. Certa vez, incomodado com o súbito burburinho provocado por uma sonora emissão de gases desferida por um aluno da retaguarda e as risadas que se seguiram, OAC, sem paciência para apurar responsabilidades (do emissor ou de quem iniciara o desproporcional alvoroço), mandou para fora da sala um terceiro, que não tivera absolutamente nada a ver com o incidente. O irônico é que o colega expulso era um modelo de seriedade e circunspecção, tendo sido de um dos zombeteiros a autoria do traque.

OAC costumava chamar-nos à pedra para atuar como “cobaias” na resolução, em conjunto com a classe, de exercícios do ponto que acabara de expor. O jeito de se safar disso era não cruzar nossos olhares com o dele, o que nem sempre dava resultado. Ocasionalmente ele requisitava o incauto com palavras de ânimo:  

“-Vai lá você, ô bucha de canhão! ”

E ai de quem não conseguisse resolver a equação. Ele o mandava de volta à carteira escoltado por vereditos promissores - “Futuro brilhante, heim? ”... e prosseguia:   “Futuro brilhante igual ao sol da meia noite”. Todavia, acho que a maioria de nós sobreviveu. 

   Se não havia reclamações de nossa parte, é porque sua postura denotava autoridade ou por ele, de quando em quando, ocupar o cargo de diretor. Na verdade, houve uma exceção, que me foi revelada décadas mais tarde, por um ex-aluno que conheci casualmente. Nos fundos do colégio havia uma área onde os professores estacionavam seus veículos. Entrando lá, ele abrira o capô e despejara cimento no radiador do carro do “A.” – um Chevrolet Belair 1957 de cor verde e capota branca (pintura “saia e blusa”). Uma forma pouco ortodoxa de protestar contra as mencionadas provocações feitas a uma queixosa amiga sua. Tendo sido denunciado por um alcaguete, em represália “o enchera de porrada” (conforme suas palavras textuais). Em função dos eventos, acabou sendo expulso do colégio.

Em contraponto, no colegial tivemos uma professora de Matemática que era a encarnação da amabilidade. Dona Nilze recém se formara, mas desde então mostrava ter nascido para lecionar. De cabelos curtos que atrás terminavam como uma discreta penugem, exibia bom gosto ao usar brincos que combinavam com seu rosto. Atraente e com voz acolhedora, logo criou afinidade com a classe. Escrevia na lousa em cores diferentes e com caligrafia pequena e bonita. 

Vejo-a agora com suas pernas finas, esbelta e com o sorriso que acompanhava o modo gentil de explicar. Por vezes sentava-se na carteira junto ao aluno, para tirar eventuais dúvidas, - gesto com o qual uma vez ela me agraciou. O inusitado foi que, ao sentar-se junto de mim, o semblante externando grande surpresa, ela perguntou:

- “Nossa, Heitor! Você se casou? E não disse nada? ”

O que Dona Nilze notara em minha mão esquerda era um anel que eu havia recém-ganho de minha avó e que estava casualmente virado ao contrário, o que lhe conferia a impressão de uma aliança. Devo ter ficado mais colorido do que os gizes que ela usava, pendendo francamente para o escarlate. Passada a comoção inicial, desvirei o anel e naturalmente esclareci os fatos, tendo então percebido seu alívio depois que revelei a verdade. Enquanto ela falava, cativado, eu a ouvia, e cheguei a devanear no que aconteceria caso eu, seguindo meu viés romântico, fosse adiante e lhe confidenciasse: 

“- Não, Dona Nilze, eu jamais lhe trairia”. Mas me contive e foquei em suas explicações matemáticas. E pelos dias seguintes permaneci assim, meio encantado, ao pensar na deferência com que ela me tratara.       

O esmero estético com que Dona Nilze escrevia na lousa era excepcional e de modo geral os professores dispunham desse recurso expositivo de modo mais ou menos ordenado e seguiam uma didática protocolar. Havia, entretanto, um caso incomum: o da professora de Biologia do curso colegial, Dona Maria Neves Calefi.  Penso que ela escolhia os temas de modo aleatório - botânica, citologia, histologia, genética, e se valia do quadro negro apenas para enfatizar algum conceito que julgasse essencial. A segurança e a empolgação com que ela argumentava eram tais, que parecia ter sido a descobridora original dos mecanismos biológicos que estava a descrever. Assim, ela tornava interessante qualquer assunto. Não usava maquiagem e eventualmente chegava na classe exibindo olheiras. Creio que fumava e em geral sua fisionomia não era lá muito alegre – dava, vez por outra, a ideia de estar atribulada, com o quê nunca soubemos. Parece-me ouvi-la, neste instante, a falar sobre as teorias da evolução natural:

 – “A necessidade não cria nada! ”, dizia, enfática, ao citar Lamarck. Comentava-se que Dona Maria Calefi dava aulas não como se fôssemos colegiais e sim alunos de faculdade. Para aprender com ela, não eram necessários decoreba ou livros – bastava entender - ela gostava de fazer os alunos pensarem. Se você prestasse atenção às explicações, iria bem nas provas.  

Uma disciplina que para mim era pura recreação (além de Canto Orfeônico, com a estimada Dona Maria Vitória, com quem aprendemos a cantar cantigas de roda) era História. Tivemos sorte de contar com Dona Nancy e Dona Ivete. A primeira era uma nissei bem-disposta, que admiravelmente interpretava as reações dos indígenas à chegada das naus portuguesas e as cenas dos primeiros contatos com os descobridores – nas quais reproduzia até os diálogos, e como teria sido trocar espelhos e quinquilharias pelo trabalho dos índios em cortar e levar toras de Pau-Brasil para as caravelas. Teria sido aquele o embrião que inspirou o funcionamento dos três poderes no país?  

Ambas eram comunicativas e não raro tornavam a retórica inflamada, o que ocorria sobretudo com Dona Ivete. Com mais idade - uma senhora na casa dos sessenta anos e de cabelos curtos - dramatizava ao narrar fatos da Antiguidade. Dava gosto, por exemplo, vê-la relatar, como se tivesse assistido, os embates de Martinho Lutero na Dieta de Worms, em face da Reforma Protestante. Se o tema era o Império Romano, ela nos jogava em pleno Coliseu no momento em que hordas famintas de sangue assistiam aos embates entre gladiadores ou estavam prestes a presenciar o sacrifício dos cristãos deixados à sanha dos leões. Era emocionante. 

Não poderia encerrar estas reminiscências sem saudar a memória do Prof. Ademar, ou ‘Bananão’, termo com o qual, carinhosamente o identificávamos. ‘Bananão‘ lecionava Artes Industriais na terceira série ginasial para os meninos (as meninas tinham Corte e Costura). Era novo no colégio, tendo ingressado alguns meses após o início do ano letivo (não me lembro de seu antecessor, mas certamente era alguém bem mais expedito).  

A razão do apelido possivelmente se devia ao estilo ‘boko moko’ ao qual ele juntava uma forma gradual de falar. Vestia um paletó surrado de tweed verde e um pouco justo, camisa de cor creme ou amarela, gravata vermelha e calças de qualquer cor escura, nada combinando muito... 

Se ele fosse um disco de vinil, seria posto para rodar nas vitrolas antigas a uma rotação de 16 rpm. Na primeira aula que tivemos com aquele cavalheiro de idade ao redor dos 45 anos, fenótipo lusitano, hirsuto e que usava óculos de lentes verdes e grau razoável, chamou-nos a atenção, ao discorrer sobre veículos automotores, a definição que ele passou de um caminhão, enquanto tentava, sem muito sucesso, desenhar um exemplar na lousa: 

- “Vamos ver, por exemplo... um caminhão...o que é um caminhão? Bem, um caminhão é um caminhão grande...”

Não havia correspondência entre sua lentidão ao argumentar e expor ideias e a fé que ele depositava em nós no cumprimento das tarefas que nos solicitava. Entre elas, a construção de uma maquete em madeira de uma via urbana (o que me deu bastante trabalho, pois na minha instalei até um poste com iluminação a pilha) e a montagem de uma campainha elétrica.

Porque víamos no Prof. ‘Bananão’ uma boa alma que acreditava em nós, habitualmente não o decepcionávamos. Bem, não posso generalizar. Em relação à última incumbência mencionada, ficou notório o caso do dispositivo fabricado por um colega, que ao ser testado em sala de aula, pegou fogo logo após ser ligado na tomada. Tudo foi repentino – ao som seco seguiu-se a fumaça e eu vi ambos - professor e aluno - estatelados no chão. Mas fora o susto, o cheiro de queimado e eventuais chamuscos, a demonstração parece não ter causado outros efeitos adversos. A não ser o fato de ‘Bananão’ ter desenvolvido uma certa cautela em relação ao construtor do artefato. 

“Bananão” era um idealista. No contexto pedagógico, seu sonho era restaurar o motor de uma Kombi velha estacionada próxima ao hall de entrada do teatro do colégio. Animava-se com a reforma e botava fé na gente para ajudá-lo a executar a empresa. Porém, os anos se sucediam e a Kombi continuava inerte no mesmo lugar. Por fim, constatamos, desapontados, que sua aspiração não se realizara provavelmente por falta de fundos. Mesmo sem o projeto ter se realizado, o que considero uma pena, foi estimulante alimentar a ideia – afinal, o Bananão, apesar do cunho da matéria que lecionava, como muitos de nós não abria mão de uma poesia...    

Olhando através das perspectivas de então e as de hoje, os professores que mencionei tiveram participação marcante em nossa formação primária e secundária, ou pelo menos eram os que mais próximos estiveram de nós. Obviamente havia outros e quero citar aqueles de quem eu gostava: Franco (Educação Física) – entusiasmado e cordial; Neide (Geografia) com sua boa vontade e empatia; Ademir Potiens (Português), sempre agradável nos poucos meses em que nos deu aulas; os sóbrios e competentes Edmur e Dona Jair (Desenho Geométrico) e no terceiro colegial noturno, a tranquilidade do Siegfried (Química) e o dinamismo da Conceição (Biologia). 

Na era da informação efêmera e descartável, os mecanismos de busca da internet identificarão muitos poucos dos nomes aqui citados. Decorridos cinco ou seis décadas, ignoro se o colégio guarda registros do período. Pode ser que se encontre alguma informação no Arquivo Público do Estado de São Paulo, mas da forma em que os dados estão lá armazenados, por experiência sei que demoraria muito tempo para se localizar informações de interesse. 

E o que importa? Suas lembranças permanecerão vivas nos corações e mentes dos alunos e também aqui, nestas linhas. 

Heitor, junho de 2026


Idealismos

“If we take the man as he really is we’ll make him worse, but if take a man as he should be (looking at him that high) we’ll make him capable of becoming what he can be. So, we have to be idealists in a way…” (palavras do Dr. Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco, na conferência Youth in Search of Meaning em 1972, citando J.W. Goethe).  

A melhor fase da vida é aquela em que somos idealistas. Acreditamos em nós, obviamente, e no próximo. 

Escreverei aqui uma visão panorâmica e de cunho pessoal sobre o lado acadêmico do caminho profissional que segui. Para esse propósito servirão as imagens que subsistem na memória e a vivência acumulada, que aos velhos permite desenvolver a noção do que é normal, do que é incomum e do que é preocupante. 

A nostalgia torna tudo mais bonito, no entanto, sua ótica benevolente faz deslizar para o devaneio. Por isso, evitarei pormenores. Demoraria muito e eu me esqueceria de passagens que, afinal, só interessariam ao autor. Tampouco citarei nomes. Então, tomando emprestada a linguagem cinematográfica, tentarei lançar um wide shot e alguns breves close-ups sobre as diferentes épocas que se sucederam - idos e atuais. 

No aprendizado clínico 

No 4o ano de Medicina, transposta a insipidez do curso básico, eu começava a gostar bastante da prática clínica e do contato com os pacientes. Ainda não via no horizonte uma especialidade a seguir, mas atraiu-me, ao passar pela Pediatria, a ideia de agir preventivamente para evitar doenças na idade adulta. Mais tarde, na disciplina de Técnica Cirúrgica aprendi a cortar, suturar e a fazer pequenas cirurgias. Paralelamente, a grade curricular nos levava a estagiar nas enfermarias, o que aumentou o meu gosto pela futura profissão. 

Já no 5o ano passei mais de uma tarde no centro cirúrgico a fazer postectomias a troco de auxiliar outras tantas, sob orientação de um R1 japonês que já devia estar farto de operar as levas de internos de uma fundação que cuidava de menores. Ao sair do hospital – já era noite – marchava para casa com a empolgação de um futuro urologista ou pelo menos de alguém que cogitava vir a ser um.  

Mas a ideia foi efêmera. Nos meses finais daquele ano, minha atenção voltaria a balançar, apontando para a Ginecologia-obstetrícia quando, orientado por um R3 coincidentemente japonês, levei a cabo uma laqueadura tubária “de pele a pele”. Ou seja, inverteram-se as funções – eu operei e ele auxiliou. A experiência cirúrgica inicial na especialidade sairia perfeita exceto pela incisão um pouquinho desviada da linha média abdominal, detalhe observado pelo assistente na visita às pacientes na manhã seguinte. O R3 assumiu o deslize e em nenhum momento revelou ter sido um quintanista o cirurgião. Graças à sua generosa disposição de ensinar eu viria a repetir minhas incursões cirúrgicas durante o ciclo - cesariana, partos em primigestas e amniocentese. 

Ao entrar no 6o ano, meu estágio opcional seria na Pediatria - área na qual eu pensava firmemente depois de uma entusiástica hipótese de pneumonia (propedêutica clínica típica, confirmada por raios X) que fizera em uma menina durante um plantão noturno no ano anterior. 

Era o primeiro dia útil do mês de janeiro quando cheguei – alguns minutos atrasado - à reunião introdutória (voltava de um plantão de 24h em uma cidade próxima). Mal tomara lugar à mesa junto aos demais internos, a coordenadora - uma renomada hemato-oncologista - sem se dirigir a mim, emendou o que estava a dizer com esta singela advertência: “...e outra coisa: não permitiremos atrasos”. O episódio ilustrou, como logo percebi, ser aquele um departamento que exigia dedicação e disciplina absolutas. Por sorte (ou eu escolhi) passei 1 mês na UTI sob a orientação de um R3 igualmente motivado e amigável, vindo a nascer dali minha aproximação por essa área específica. Seu estilo contrastava com o de uma docente, que costumava crescer para cima de internos caso estes não atendessem às suas demandas – habitualmente acompanhadas de uma inerente jactância (“quem foi o boneco que tirou o estetoscópio da UTI?”). Felizmente, os demais ensinavam sem lançar mão de tais recursos. Foi a partir dos seminários e visitas com eles que cristalizei a decisão de ser pediatra. Além de seus exemplos, o fato de sermos exigidos era uma razão para estimular (ou afugentar) os internos. Era-nos atribuída a responsabilidade direta sobre os pacientes - em geral com doenças graves - e nos procedimentos práticos púnhamos “a mão na massa”. 

Já desde o 5o ano, nos plantões noturnos era nossa obrigação controlar - madrugada adentro - dados vitais, estado de hidratação, frequência e aspecto das eliminações e o gotejamento do soro (inexistiam as bombas de infusão), que anotávamos em uma folha de papel fixada à parede, junto ao leito do paciente. Sendo os últimos em uma hierarquia em que o R2 era a autoridade operante in loco e o assistente a remota, tínhamos que prestar contas por eventual omissão ou piora do paciente. Como contrapeso, a qualidade teórico-prática do ensino, a riqueza de casos clínicos, a proximidade dos pacientes e o espírito de fazer o melhor possível por eles. 

Do mirante em que agora reexamino os decênios passados, constato que como quintanistas, embora víssemos como uma tarefa enfadonha registrar os controles de pacientes, era no silêncio daquelas noites que, de forma espontânea, aprendemos a usar um recurso fundamental em Pediatria: a observação!  

Todavia, o grau de exigência e a linha hierárquica severa me pareciam um pouco doentios. Este foi um senão que me fez hesitar ao se aproximar a data das inscrições para o exame de residência. A Pediatria era uma das mais disputadas e considerando o risco teórico de ficar de fora, analisei a possiblidade de me candidatar à Radiologia - um departamento formado por gente de índole mais tranquila, com menos disputa de vagas para residência e sem a exigência dos plantões. Como os jovens costumam projetar as perspectivas de modo otimista, acabei, um tanto em cima da hora, por seguir o chamado da vocação.

Eu poderia cursar a residência lá, mas ao avaliar os possíveis cenários resolvi fazê-lo em outro hospital. Sairia de uma atmosfera carregada e voltaria para São Paulo onde tinha meu convívio familiar e social.

Residência e pós-graduação

A renovação foi substancial: em um hospital moderno, arejado e de grandes dimensões, colegas de outros estados e seus regionalismos curiosos compunham um ambiente amistoso. Executávamos nossas funções de residentes com responsabilidade e de forma natural. Faltava, o espírito acadêmico (às vezes quase religioso) a que nos acostumáramos, mas havia preceptores competentes que nos estimulavam a estudar. Por outro lado, ver colegas em idade madura desatualizados e acomodados funcionava como feed back negativo (eu pensava: “daqui a alguns anos não gostaria de ficar como aquele cara”). Hoje reconheço que, em nossa inexperiência, ignorávamos que a vida às vezes obriga as pessoas a seguir rumos não pretendidos. 

Sem me deter no assunto, vivíamos numa era de anistia e abertura política. Foi nesse cenário que começou, no mês de abril, uma greve de residentes. Greve que fora decidida sorrateiramente em petit comité, em um sábado de aleluia, à revelia da decisão tomada em uma assembleia ocorrida dois dias antes em que participaram todos os residentes. Estranhamos a manobra, embora de início tenhamos encarado o movimento com algum ânimo (a bandeira era ‘carteira de trabalho para os residentes’). Sendo jovens e crédulos, nos deixávamos iludir por palavras de ordem e discursos bonitos cheios de símbolos e significados, sem entender-lhes o referente, isto é, a coisa concreta. Conduzidos habilmente por um R2 ardiloso, os residentes se deixaram tanger como uma boiada. Como resultado, decorridas algumas semanas fomos expulsos, sendo depois readmitidos por uma liminar judicial, e perdemos dois meses de treinamento. Beneficiou-se do movimento o finório colega, que ganhou a visibilidade política que anos mais tarde o ajudaria a virar deputado federal e líder de governo na câmara. 

Do ponto de vista técnico, respirar ar fresco serviu também para mostrar a base sólida de conhecimentos que recebêramos durante os anos de faculdade. Isso se evidenciou pela segurança com que desempenhávamos o trabalho no pronto socorro.

Em nossa turma, afortunadamente todos eram de bom trato, o que nos animava para descontrair o ambiente, em que as únicas duas meninas eram afáveis e muito estimadas. De uma delas, já no final da residência ouvi um comentário marcante: da importância de se aprimorar sempre, e entrar em domínios inexplorados. Suas palavras foram para mim significativas, se bem que eu achasse curioso que ela mesma se abstivesse de exercer na prática o que afirmava, limitando-se a cumprir apenas o “feijão com arroz”.

Após haver concluído a residência, eu prestara exame para ingressar em um curso de saúde pública (na época concorrido) com duração de 1 semestre. Deixando de lado matérias entediantes devido à inclinação ideológica de seus docentes, gostei particularmente de Epidemiologia e das noções básicas de estatística. Mas aquilo era pouco. Eu queria me aprofundar em áreas que gostava e entendi que a saída seria fazer uma pós-graduação stricto sensu em uma boa instituição. Para ser admitido como pós-graduando, o primeiro passo era ser apresentado por alguém de lá, conforme me disse o coordenador da mais próxima quando fui ter com ele. O problema era que eu - modesto trabalhador da linha de frente – não tinha relação próxima com figuras influentes. Saí da conversa com a sensação que devia ter um vendedor de aspirador de pó – uma personagem que antigamente visitava os domicílios – ao ser dispensado pela dona de casa logo na porta.

Minha intenção permaneceria em estado latente, transcorrendo-se mais cinco anos até que enfim pudesse fazer um estágio de 4 meses no setor que me interessava, levado pela mão de um professor na universidade que havia trabalhado no hospital onde eu fizera a residência. 

Dali até ser admitido na pós-graduação foi um processo natural, pois ao meu empenho aliava-se a maturidade adquirida ao longo de quase dez anos. O tempo que levou para eu conseguir concretizar o que pretendia e os fatos nele sucedidos acabaram determinando a escolha do campo no qual me especializei, sinalizando que às vezes os acontecimentos surgem na ocasião apropriada. 

A partir da observação clínica empírica dos pacientes e com o aval do meu orientador, escrevi o projeto que deu início a uma linha de pesquisa até ali quase inexplorada na Pediatria e que sobrevive, se bem que já a tenham banalizado. Aprendi, orientei, e posso dizer que certos estudos publicados se destacaram na comunicação médica internacional. 

A vida como ela é 

Talvez a maior lição aprendida no período de mestrado e doutorado foi a de que se você tem um trabalho a fazer, acredite e faça-o você mesmo. Não espere ajuda, ainda que possa vir a ser grato aos que porventura lhe ajudem. A sua vontade deve se traduzir em ação. 

Fiz boas parcerias e conheci gente capaz, com as quais o trabalho frutifica até hoje. Em contrapartida, durante o percurso, deparei-me com o chamado “vulgo da humanidade”, uma entidade que tem similar em outras espécies - vide os exemplos do chupim (ou chupim vira-bosta) e do pássaro cuco. Onipresentes, posam como coautores de artigos ou participam de eventos por critério exclusivamente político, sem ter mérito. No caso da coautoria de artigos científicos, a prática é adotada com frequência por alguns, que mesmo em face das recomendações do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) fazem ouvidos de mercador. 

Vem-me aqui uma reflexão. Na jornada acadêmica doamos parte da nossa energia a pessoas que julgamos merecedoras de crédito. Foi uma dádiva encontrá-las no caminho. São personae gratae por terem correspondido ao nosso empenho; confiaram em si e nós depositamos confiança nelas. Mesmo estando fisicamente distantes, nunca as esquecemos.   

Outras acabam se distanciando por deixar de comungar das mesmas devoções, ou porque nossa função utilitária se tornou dispensável. Dada a carência de luz própria há, como em todo lugar, os que cultivam a inveja silenciosa. Uma parcela destes adota o comensalismo, em geral abrigando-se sob um véu de simpatia e efusividade. Nessa classe se esconde uma subespécie (ou ordem) que, além de instintos predadores, quem sabe por insegurança cuida em manter afastados os sabidamente mais aptos quando se trata de atuar em funções relevantes, ascender ou ocupar posições vantajosas. A ela adequa-se um pensamento de Schopenhauer: “toda a maldade, inveja e estupidez que tivemos que suportar não devem ser atiradas ao vento, e sim usadas como alimenta misanthropiae e continuamente lembradas para termos diante dos olhos a índole real dos homens, e não nos comprometermos com eles”. Tenho procurado adiar o exercício pleno desse pensamento e dele tirar conclusões definitivas.  De qualquer modo, na hora crepuscular em que estou, é tarde para isso.  

O que acontece hoje

É do decurso natural de tudo que existe a fase de ascensão, sendo este o caso do desenvolvimento e uso dos recursos tecnológicos para diagnosticar e tratar doenças. Nesse ponto o progresso é incontestável e o louvamos. No setor que deve gerar conhecimento, entretanto, vemos o atrativo por pesquisa decair em consonância com a qualidade da produção científica. Antes havia grande interesse dos alunos por entender a fisiopatologia ou as bases da doença. Esse interesse parece ter estagnado. Mudou a visão dos mais novos, a quem devemos ensinar. A mudança é multicausal e reforçada pelo advento da internet, que lhes despeja uma enchente de informações. E que também lhes atrofia a curiosidade científica e a capacidade de análise. “Dá muito trabalho” é um argumento empregado se lhes sugerimos um estudo original para desenvolverem seus TCCs – que acabam entregando na certeza de que ninguém irá ler, o que realmente acontece.  

Seria injusto atribuir só aos mais novos a queda do padrão dos graduandos e pós-graduandos em relação a outrora; eles estão “no fluxo” e sequer se dão conta. Seguem   o que é determinado por quem dirige e administra, em todos os níveis, as políticas de ensino, as escolas e a residência médica. O número de cursos de graduação em Medicina (423) quase sextuplicou no período. Só em 2024 foram aprovados 64 cursos. Ou seja, uma iniciativa que requer avaliação rigorosa de viabilidade e eventual benefício, transformou-se, com a anuência dos ‘semipensantes’ encarregados em cuidar do assunto, em um mero negócio. Tais cifras refletem a incompetência dos administradores - que colaboram para aviltar a natureza da formação médica - e atestam a lucidez de Nelson Rodrigues quando, lá atrás, previu o tipo de “gestores“ que tomariam conta das coisas.  

Em sintonia com o definhamento da qualidade, viceja a interferência burocrática nas atividades de pesquisa. Ter um simples estudo observacional aprovado por comitês de ética sem pendências e em tempo oportuno (como era normal ocorrer) virou motivo para se comemorar. 

Frequentei duas bibliotecas, providas além do acervo, de amplos espaços destinados à consulta, reuniões, salas de aula – um ambiente propício ao estudo e à reflexão. Eu gostava de percorrer as estantes de revistas e livros e folhear os que me chamavam a atenção.  

As dependências da excelente biblioteca do hospital onde fiz a residência mudaram e diminuíram bastante. Mesmo assim, ela sobrevive.  O que aconteceu com a biblioteca regional é mais grave - ela funciona unicamente no modo virtual. Perdeu-se com isso o estímulo à leitura em páginas impressas e o “olhar calmo” – este necessário para se elaborar uma análise crítica. A sobrecarga de informações jogadas nas telas vai contra a própria natureza da leitura, induz à perda da paciência cognitiva e irá afetar a capacidade de escrita (o que é factual). Estariam os administradores cientes destes efeitos colaterais?

Em conjunto com o atendimento aos pacientes, nossa instrução teórica baseava-se nas anotações das aulas que fazíamos nos cadernos e na leitura de livros físicos clássicos. Dava-nos satisfação estudar pela primeira vez e conhecer a fisiopatologia humana considerando a integração clínico-anatomopatológica. Entrar em uma biblioteca para pesquisar artigos em periódicos com o auxílio do Index Medicus ou percorrer as estantes com livros e consultá-los compunha o processo de aprendizagem – que passava pelo esforço exaustivo da procura, até se chegar à descoberta – “o aprendizado é a recompensa do cérebro”. Esta é uma experiência que a nova geração de nativos digitais desconhece. 

Assistimos ao desmonte gradual do corpo clínico do hospital onde cursamos a residência e trabalhamos – um hospital que foi pioneiro em áreas importantes. Em um dos serviços onde trabalhamos, a atividade de ensinar os residentes a interpretar uma informação científica é vista com indiferença por quem deveria incentivá-la.      

Como ficou a escola onde fui buscar mais conhecimento? As teses stricto sensu continuam sendo fabricadas a bem da produtividade dos programas de pós-graduação, porém com qualidade inferior às de antes – percebe-se a escrita pobre e a incapacidade em distinguir o essencial do acessório. Partes do texto ou em certos casos a tese inteira têm que ser reescritos pelo orientador. Levar a termo uma tese e redigir pelo menos um artigo pertinente - uma tarefa presumivelmente agradável - pode se converter em arrastada e penosa, em especial para o orientador.  

Títulos acadêmicos, habitualmente valorizados por colegas e pela “intelectualidade” brasileira, no presente nada significam. A proliferação de mestres e doutores, incentivada desde o início do milênio, caminha na razão inversa da qualidade. Em vez de buscarem o aprimoramento, os sistemas de recompensa são subvertidos para beneficiar os menos competentes, como um mecanismo de autodefesa de seu status de medíocres. Vivemos a era da mediocridade autossustentável. De mãos dadas com ela, prospera a “civilização do espetáculo”, em que é preciso estar em evidência – mais precisamente ‘aparecer’ – pouco importando o conteúdo e sim a coreografia. Este fenômeno da vida cultural, bem caracterizado pelo escritor Mario Vargas Llosa, vem crescendo rapidamente na esfera da comunicação cientifica. 

Atualmente o sistema é organizado de modo a dar respostas rápidas. Para deleite de alguns, com um clique (Reading Assistant, Summarize this article) gera-se explicações sucintas ou “mapas mentais” sobre um artigo científico, o que desmotiva o leitor potencial de lê-lo na íntegra. As informações produzidas por autores seminais são substituídas pelas de “autores” que não pesquisam nada. O que fazem é tão somente reverberar o que já é bem conhecido, tendo como porta-vozes as miríades de publicações redundantes que infestam editoras e bases de dados e atravancam a pesquisa bibliográfica. 

Instruir os residentes a apenas seguir as informações empacotadas de protocolos e algoritmos é insuficiente. Algoritmos são úteis, mas por serem direcionados a atender a um padrão genérico, é preciso, como em qualquer outra estratégia, adaptá-los sempre levando em conta o paciente como um ser individual. A maioria omite que os pacientes podem ter mais de uma condição, sendo necessário aplicar recomendações diferentes em paralelo. Porém, a aplicação simultânea de protocolo independentes em pacientes com várias condições simultâneas pode se associar a reações adversas graves relacionadas a interações medicamentosas ou entre medicamentos e doenças. Para os residentes, restringir-se aos protocolos traz um risco: o de passarem a agir como autômatos. Sem o pensamento crítico, eles cumprirão regras pré-estabelecidas. 

É oportuno citar aqui o que escreveu a educadora sueca Inger Enkvist em ‘Educação - guia para perplexos’ referindo-se aos sistemas educacionais ‘modernos’: “A educação não consiste em entender o passado e construir sobre ele, mas em encontrar um caminho fácil e rápido para o futuro”.

Cada vez mais se transmite informações sem se preocupar em formar sujeitos capazes de testar sua veracidade ou de compreende-las. Ontem assisti a uma sessão científica internacional online em que o palestrante (um holandês) descarregou uma profusão de dados sobre o tema. Seria até uma aula informativa, não fossem a velocidade excessiva com que articulava as frases, mudava os slides, e sobretudo a entonação. Afora os cacoetes (ahn, er...) sua voz era mecânica, monotônica como a gerada por um leitor de texto online ou das que se ouve em mensagens gravadas (embora estas já tenham recebido um acento similar ao humano, o que de outro modo as deixa mais enjoadas). A sessão da semana seguinte conseguiu ser pior, graças ao excesso de texto, tiques verbais que se interpunham entre as frases (Ahm…) e uma voz de barítono que mudava para mais grave à medida que corriam para o término, adquirindo então um timbre gutural. E em setembro último, em um congresso europeu, assisti a apresentações em que reconhecidos experts pareciam metralhadoras a atirar informações. Ao término, esvaziadas as munições, ficava-se em dúvida, uma vez que “mais estudos são necessários...” 

Exibições como as mencionadas são a antítese da arte de ensinar e evocam nostalgicamente nossos professores, que com propriedade, clareza e animação nos inspiraram. Se eu abrir o arquivo de cenas e impressões do passado - que à medida que envelheço revela-se mais interessante - enxergarei a disposição com que no estágio cirúrgico nos ensinavam a escrever uma monografia ou a interpretar distúrbios metabólicos, o docente do setor de Emergência e seu tesouro de  vivências clínicas, os bons preceptores da residência e as aulas de um professor da pós-graduação, que com simpatia, quadro negro e giz tornava o aprendizado de bioestatística descomplicado como como uma tabuada.   

Haverá ainda margem para idealismo? 

Quando eu estava na graduação, ouvi de um “chegado” que no ano 2111 os homens estariam loucos. Ao atentar para suas palavras, notei-lhe no semblante um ar convicto e sereno, que condizia com o real significado do presságio. Apesar da entonação e do sentido da frase, despreocupei-me, porque logo adiante havia um amanhã em que acreditar. Vivíamos em um tempo promissor.

Decorridas 5 décadas, ao examinar a realidade que descrevo agora (e outras ao redor), constato desapontado, que a hipótese aludida está a se confirmar muito antes do previsto. E curiosamente, em seu próprio caso, o profeta se antecipou: semanas depois precisou ser internado em um serviço psiquiátrico. 

Prognósticos sombrios à parte, ante os eventos que retratam a decadência do que já foi bom, melhor do que esbravejar ou ficar inertes é entender as circunstâncias e continuar, caso permitam, a lida silenciosa - e casualmente quixotesca - de ensinar o que aprendemos. Tentar preservar o espaço do trabalho onde contribuímos e criamos valor. Até, por fim, sermos lançados longe pelas pás do moinho dos novos ventos, cujas engrenagens continuarão a girar, sem se importar com o que tenhamos feito. 

Tu te tornas eternamente decepcionado pela expectativa que cultivas", costumava lembrar um colega de turma, hábil prosador. Contrapondo-se à filosofia de Antoine de Saint-Exupéry (“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”) a sátira denota a sabedoria adquirida na vivência com seres humanos. Seria o produto final de nossas idealizações. 

Entretanto, as decepções podem servir de matéria-prima para forjar a vontade de mudança. E o homem precisa de uma ficção para viver. Então vamos acreditar, como aconselha o trecho introdutório. E testar mais uma vez a validade da premissa de J.W. Goethe. 


Fevereiro/Março/Abril de 2026


D’um film à l’autre* ou "Ir ao cinema no passado"

Morar em uma república de estudantes tem o lado bom e o lado ruim. Para dar certo é preciso ter espírito gregário, que é providencialmente acentuado nessa fase da vida. Se temos que nos adaptar à perda de privacidade, à rotina e às obrigações inerentes, em troca, além de recebermos o bem máximo da camaradagem podemos exercer atividades em comum, como o lazer. Um dos que me lembro com saudade é ir ao cinema. Este foi um hábito que compartilhamos durante os três ou quatro primeiros anos de escola. Não havia até então plantões noturnos para dar. Tivemos a sorte da cidade, que na época tinha por volta de trezentos mil habitantes, contar com bons cinemas - Windsor, Regente, Jequitibá, Ouro Verde - onde se podia assistir aos principais filmes que estavam em cartaz na capital. Não eram “cines de arte”, mas foi neles que iniciamos contato com alguns diretores clássicos, em sua maioria atuantes nos anos 1970 – Federico Fellini, Ingmar Bergman, Orson Welles, Woody Allen, Roman Polanski, Claude Lelouch. É que os filmes – e o gosto do público eram de muito melhor qualidade. Claro, tínhamos Lando Buzzanca e as pornochanchadas nacionais. Porém, Terence Hill e Bud Spencer estavam lá para equilibrar e por aqui havia produções até razoáveis.

Após nos instalarmos nas poltronas, esquecíamos da vida. Nosso único compromisso era viajar por caminhos e lugares mágicos, transportados por roteiros de tramas encenadas por Jean Paul Belmondo, Romy Schneider, Jacqueline Bisset, Ingrid Berman, Liv Ullmann, Barbra Streisand, Dustin Hoffman, John Voight, Donald Sutherland, Jack Nicholson e tantos outros. 

Terminada a sessão, comungávamos de um mesmo pensamento. Pouco importava se era um drama de cunho psicológico, saga, musical, triste, trágico ou engraçado. Animados, percorríamos os então tranquilos quarteirões de volta para casa a interpretar as ideias, o sentido da história, e às vezes da ilusão que acabávamos de viver.  E dessa forma, agraciados pela dádiva que a invenção dos irmãos Lumière nos concedeu, seguíamos até a hora de dormir. Livres de preocupações e encargos, pelo menos até a manhã do dia seguinte, quando acordávamos cedo para ir à escola.

*Alusão a um filme de Claude Lelouch

De onde adquiri o gosto pelo cinema? Procurando na memória, não demoro para  identificar o dia em que, levados por meu pai, fomos a uma sessão de cinema pela primeira vez. Foi em 1958 e eu devia ter uns 5 anos. Morávamos em Curitiba, no quarto de um hotel simples, de longa permanência, cujo banheiro ficava no corredor e servia a todos os hóspedes do andar. Eu e meu irmão dormíamos em colchões no chão e minha irmã, que tinha alguns meses de vida, em um berço. Meu pai quase não víamos, pois estava sempre no trabalho ou nos estudos e quando chegava já estávamos dormindo. Mas naquele dia ele entrara em férias e levou-nos ao cinema. Foi uma sessão matutina de sábado, que começou com um noticiário; do filme tenho vaga ideia - eram animações em preto e branco. Devo ter gostado e de qualquer modo, foi um começo. 

Da segunda vez eu me recordo mais nitidamente. Em um domingo à tarde minha mãe nos levou para assistir A Família Trapp (precursor de A noviça rebelde) – produção alemã que vinha sendo fartamente anunciada no jornal, o que nos criou expectativas. Fiquei impressionado com a história, os protagonistas e com a cores; suponho ter sido então que tomei gosto pela coisa. 

Já em São Paulo, meu pai nos levou para assistir à sessão matutina de A bela adormecida, conto de fadas de Charles Perrault que Walt Disney adaptou e produziu para o cinema. Era um feriado de 7 de setembro, em 1960. Pegamos um ônibus que nos deixou na avenida Ipiranga, onde ficava o cinema do mesmo nome. A sessão havia recém começado quando chegamos. Ver as imagens em uma tela enorme pareceu um sonho. A primeira cena mostrava um livro antigo e de capa luxuosa iluminado por uma vela. Então abriam-se páginas com gravuras medievais e uma voz começava a narrar assim: “Era uma vez, em um país bem distante, um, rei e uma rainha que havia muito desejavam uma criança. Finalmente viram seu desejo atendido: nasceu-lhes uma linda menina a que deram o nome de Aurora”. 

Enlevados pela trama, personagens, cores vivas e músicas, experimentamos momentos emocionantes, em especial meu irmão menor, que com medo da figura da bruxa, próximo das cenas finais tratou de se esconder no banheiro. Para que ele saísse de lá tivemos que convencê-lo de que já não havia perigo.

Depois daquela manhã histórica fizemos algumas incursões esparsas ao cinema levados por nossos familiares do Sul, em Porto Alegre ou quando vinham a São Paulo. Era uma festa quando eles nos visitavam. Foi em uma dessas ocasiões que conheci a menina Marisol, uma pequena atriz e cantora espanhola cativante, através do filme “Um raio de Luz”, que assisti com minha tia Esther em 1961. 

Um acontecimento importante viria tornar costumeiras nossas idas ao cinema. Fôramos morar em uma vila (Parque de Aeronáutica de São Paulo) em que todos os sábados às 20h era organizada uma sessão para os moradores. O que faltava em conforto – cadeiras duras de fórmica distribuídas na área improvisada de um salão refeitório e uma tela ao fundo onde eram projetadas fitas em carretel – era plenamente retribuído pela promessa da fantasia em que estávamos prestes a adentrar. As aventuras, épicos, romances e dramas, em geral tinham censura livre, embora me parecessem destinados a um público com pelo menos 12 anos de idade:  Helena de Troia (1956), As aventuras de Tom Sawyer (1938), Trapeze (1956; direção de Carol Reed, com Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida), Candelabro italiano (1962) com sua canção tema Al di Là - então um paradigma do romantismo (acho que até hoje) - cantada por Emilio Pericoli (link: https://www.youtube.com/watch?v=Bni1BnVGH-U0) e Afundem o Bismark! (1960) entre os que eu me recordo.

Para um olhar de menino não havia filmes ruins – todos, segundo meu juízo eram bons ou espetacularmente bons. 

E as atrizes? Amores platônicos que eu substituía a cada semana, pois elas me pareciam a cada filme ser diferentes e mais belas. Penso que eu imergia nas histórias guardadas nas películas de celuloide tão profundamente como nas dos livros que lia. Com a vivência - e as leituras - comecei a reunir parâmetros estéticos que me guiariam na agradável tarefa de qualificá-los.

Durariam até o final de 1964 aquelas jornadas cinematográficas. Dois anos e meio, durante os quais excepcionalmente deixei de comparecer. Nossa última foi para ver Tarzan e a mulher leopardo, protagonizado por Johnny Weissmuller. Infelizmente não chegaríamos a assistir Tarzan contra o mundo, que possivelmente marcou o final da sequência de sessões.

Provavelmente no passado não existia público em quantidade suficiente para a chamada “indústria cultural” enfiar no mercado tantas produções de má qualidade como vemos hoje. Mesmo nos anos 70, quando se intensificou o processo de massificação, havia espaço para filmes de qualidade. Quando saíamos de casa, era para assistir a longas-metragens que de antemão sabíamos ser conceituadas, pois entravam em cartaz aqui meses ou depois de lançados no exterior. Refiro-me a You only live twice (1967, com Sean Connery) Mash (1970, Robert Altman), Ardil 22 (1970, Mike Nichols), Pequenos Assassinatos (1971, Alan Arkin), A bela da tarde (1967, Luis Buñuel), Ao mestre com carinho (1967)  Gritos e sussurros e Cenas de um casamento (Ingmar Bergman), Easy Rider (1969, Denis Hopper), Midnight cowboy (1969, John Schlesinger), Sonhos de um sedutor (1972, Woody Allen), China Town (1974, Roman Polanski), Cantando chuva (1952). De Werner Herzog, O enigma de Kasper Hauser (1974), Aguirre, a cólera dos deuses (1972), Coração de Cristal (1976), Strozek (1977), Fitzcarraldo (1982); de Carlos Saura, Cria Cuervos (1976) e Mamãe faz 100 anos (1979)... 

Ficou na lembrança a tarde em que assistimos 2001, uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick), que assistimos no cine Regina, na avenida São João. Era 20 de julho de 1969, dia em que pela primeira vez o homem pisou na lua. Na volta fomos jogar futebol e trocamos impressões entusiasmadas.

Ainda olhando para trás, vejo-me na classe da escola estadual onde cursava o terceiro ano colegial noturno, na noite em que, não sei por qual motivo fôramos dispensados depois da primeira aula. Conversando com um amigo, resolvemos aproveitar a deixa para ir ao cinema. Embora fosse coisa impensável na fase de estudos em que estávamos, eu me mantinha mais ou menos inteirado da programação, pela sinopse dos filmes publicada nos jornais. Descemos do ônibus na Praça da República – parece que caía uma chuva fina - e caminhamos até o Cine Ipiranga. Os cartazes, logo na marquise do prédio, confirmaram o título: The Counterfeit traitor, dirigido por George Seaton e produzido pela Paramount, em que William Holden e Lili Palmer representam uma história verdadeira passada durante a II Guerra Mundial. Um executivo sueco de origem americana, Erick Erickson, é pressionado pela inteligência britânica para simpatizar com os nazistas e assim ter livre acesso à Alemanha a pretexto de fazer negócios, mas com o intuito de obter segredos estratégicos sobre a produção de petróleo. À medida que a história se desdobrava, identifiquei-a na leitura que fizera anos antes de uma condensação de livros editada pela Reader's Digest, publicada aqui como "O homem que enganou Himmler" e escrita por Alexander Klein. Todavia, conhecer vagamente a trama não impediu que a força dramática transmitida pelo roteiro e a qualidade cênica dos atores me contagiasse.  

A chuva já cessara ao ganharmos a rua. Pegando os trólebus Mandaqui, saltei na Voluntários da Pátria (meu amigo mais adiante, no final da av. Cruzeiro do Sul). Com as cenas gradualmente se esvanecendo na mente, marchei por uns 15’ até chegar em casa, já por volta da meia noite. A realidade me esperava dali a pouco – às 5h30 eu deveria estar de pé para ir ao cursinho pré-vestibular. Então, desfazendo-me dos efeitos cinematográficos que restavam, deitei-me e não demorei para adormecer. É possível ter sido aquela a única sessão de cinema a que assisti no período.

Cinco décadas se passaram e continuo a descobrir trabalho de cineastas que não tive o ensejo de conhecer quando eram ativos. São incontáveis, mas remoendo meu inventário de imagens, vejo os americanos Frederic March, Louise Brooks, Os irmãos Marx, Paulette Goddard, Edward G. Robinson, Jean Arthur, Joan Crawford, Joan Fontaine, Peggy Dow, Vincent Price, Glenn Ford, Humphrey Bogart, Gregory Peck, Joseph Cotten, Burt Lancaster, o diretor John Huston, Willian Holden, Cary Grant e James Stewart (este último, o que eu mais admiro); os britânicos Charles Chaplin, Claude Rains, Trevor Howard, Valerie Hobson, Ray Milland, David Niven, Audrey Hepburn e mais recentemente Peter Sellers, Charlotte Rampling, Emma Thompson e Anthony Hopkins, que vi em plena atividade; a atriz e inventora austríaca Hedi Lamarr, as alemãs Marlene Dietrich e Hildegarde Knef, os italianos Ugo Tognazzi, Claudia Cardinale e Marcello Mastroianni. Este último vi atuar em Ginger & Fred (1986, Federico Fellini) e já bem próximo de se despedir da vida, em Viagem ao Princípio do Mundo (Manuel de Oliveira 1997). 

Continuando, os franceses Louis de Funès – na personagem do resoluto e atrapalhado gendarme Ludovic Cruchot, Lino Ventura - o franco-italiano (que não se naturalizou francês) - a interpretar um inspetor de polícia durão com a mesma categoria com que representava um contraventor, e o grande Jean Gabin (A grande ilusão - 193, Cais das sombras - 1938 e A besta humana -1938). Estes são apenas alguns entre muitos, que podem ser vistos em Internet archive, ok.ru, vkvideo.ru, Belas Artes à La Carte ou em sites de cinema no Youtube.

Creio já ter assistido a uma boa parte dos grandes filmes, os mais e os menos conhecidos, os elogiados e os não tão elogiados. Obviamente não me lembro de muitos deles, mas de bate-pronto poderei nomear alguns: A noviça rebelde (1965); Mash (1970; A primeira noite de um homem (1967); Um corpo que cai (1958), Amargo pesadelo (1972); Amarcord (1973); O terceiro homem (de 1949 dirigido por Carol Reed; entre outros grandes atores, contou com a curta, mas decisiva atuação de Orson Welles); Meu tio (1958); As férias do Monsieur Hulot (1953) ambos de Jacques Tati, o já mencionado 2001, Uma odisséia no espaço (1968); Os incompreendidos (François Truffaut, 1959); os alemães Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982), “M”, o Vampíro de Dusseldorf (1931), Dr. Mabuse (série das décadas de 1920 e 1930), Metropolis (1927) estes últimos dirigidos por Fritz Lang, O gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920), Nosferatu (original: Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, de 1922, Werner Murnau); Casablanca (1942, direção de Michael Curtiz e atuação de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman entre outros notáveis), Grandes esperanças (David Lean,1946), Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 1957); Deu a louca no mundo (Stanley Kramer, 1963, com participação de Spencer Tracy); Fanny e Alexander (Ingmar Bergman, 1982), Cidadão Kane (Orson Welles, 1941),  Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975) e Asas do Desejo (Wim Wenders, 1987, com desempenhos inesquecíveis de Bruno Ganz e Peter Falk) além daqueles que a memória deixou para trás. 

Quase ia me esquecendo de O marido da cabeleireira (1990), do diretor Patrice Leconte. É a história de Antoine, um menino obcecado pela cabeleireira do bairro e que enfiou na cabeça que se casaria com uma quando crescesse. A direção e a surpreendente trilha sonora aliaram-se ao talento coreográfico de Jean Rochefort e à atriz italiana Anna Galiena em cenas em que o sensual, o burlesco, o alegre, o triste e o trágico se entrelaçaram para compor um filme que aguça o olhar e o espírito. Do mesmo diretor assisti a outros, ocorrendo-me agora o hilário e irreal Dança dos desejos (de 1993, com Philippe Noiret, Miou-Miou, Jean Rochefort), Ridicule (1996, com a bela Fanny Ardant e Jean Rochefort) e o comovente Passagem para a vida (2002, com Jean Rochefort e Johnny Hallyday). 

Com a licença dos cinéfilos de antigamente citarei um filme contemporâneo: Rois et Reine (2004). O diretor Arnaud Desplechin conseguiu reunir Emanuelle Devos, Mathieu Amalric e Catherine Deneuve em um pano de fundo em que personagens marcantes - porque visceralmente humanas - transitam com naturalidade entre o dramático e o jocoso. Em especial, a de Mathieu Amalric (aparentemente desvairada, mas no fundo, a mais lúcida). É um filme denso, que conversa sobre temas sérios sem ser pesado, sendo antes de tudo belo e às vezes, poético. Neste particular, chamou-me a atenção, entre outras passagens memoráveis, aquela em que Emanuelle Devos alude aos versos de Emily Dickinson, cuja versão em Português e o texto original transcrevo em seguida:  

A Água se aprende pela sede

A Terra pelos mares atravessados

O Êxtase pela agonia -

A Paz pelas batalhas vividas

O Amor pelos jazigos da memória

Os Pássaros, pela neve


Part Four: Time and Eternity, CXXXIII

WATER is taught by thirst; Land, by the oceans passed; Transport, by throe; 

Peace, by its battles told; Love, by memorial mould; Birds, by the snow.

Emily Dickinson (1830–86).  Complete Poems.  1924.


Os filmes que citei, além de outros, incontáveis, nos trouxeram enlevo, alegria, emoção, riso, medo, entusiasmo, surpresa - sensações que permitiam sublimar, por algum tempo, preocupações e contrariedades. 

Gostaria de ter tempo e inspiração para escrever sobre trilhas sonoras, como as compostas por Nino Rota para os filmes de Fellini, as músicas originalmente feitas para os filmes de Truffaut, as clássicas que Walt Disney inseria em suas animações de curta e longa metragem e as que Stanley Kubrick sabia, como só ele, integrar às suas obras. E quem sabe, sobre as comédias dançantes de Fred Astaire e Ginger Rogers. 

Até agora quase não falei sobre as salas de cinema da época. Algumas eram cômodas e podiam prover um ambiente favorável para se levar a namorada ou a moça com quem se pretendia namorar. Outras nem tanto: na praça Roosevelt por exemplo, os recintos apertados do Cine Bijou onde eram exibidas fitas de qualidade, e na rua da Consolação, as duas salas do Cine Belas Artes. Os cinemas do centro, como Paissandu, Metro e Marrocos já estavam decadentes, mas subsistiam o Metrópole e o Copan. E o Comodoro, na avenida São João, com três projetores em tela curva, onde em 1965 assistimos As 7 maravilhas do mundo. Os melhores situavam-se na região da avenida Paulista - as grandes salas do Bristol e do Liberty, no Center 3, o Astor, no conjunto Nacional e o Gazeta. Na rua Augusta, o hoje “Espaço Petrobras de Cinema” e no sentido Jardins, o Vitrine e o CineSesc (este o melhor de todos). Na avenida Paulista com Joaquim Eugênio de Lima, o Top Cine, onde assistimos aos filmes do Éric Rohmer e à fascinante sequência de François Truffaut, iniciada com Os incompreendidos (1959), continuando com Antoine e Colette (1962), Beijos Proibidos (1968), Domicílio Conjugal (1974) e Amor em fuga (1979), vivida por Jean-Pierre Léaud no papel de Antoine Doinel, segundo dizem, o alter ego do diretor. A propósito, em 1966 François Truffaut transformou a insólita distopia descrita no livro Farenheit 451 (Ray Bradbury) – em que bombeiros incendeiam casas onde tenham sido encontrados livros - em um bom filme, encenado por Julie Christie e Oskar Werner. Trata-se de uma metáfora tristemente atual, que alerta para se resistir com a leitura e o pensamento crítico diante da influência que a mídia, os formadores de opinião e os que detêm poder exercem sobre o grande público de não pensantes.   

Não poderia mencionar salas de cinema de outrora sem falar do Hollywood, tradicional cine de rua situado no aclive suave da Voluntários da Pátria, em Santana. Com mais de mil assentos e provido de todos os equipamentos (inclusive lanterninhas uniformizadas e bomboniere que vendia drops Dulcora) era confortável para um cinema de bairro e poderia até ser considerado como uma instituição. Lá assistimos A Noviça Rebelde, os clássicos de Alfred Hitchcock como o insuperável suspense psicológico Um corpo que cai (Vertigo, cujos locais de filmagem visitei décadas depois), Frenesi, Marnie, confissões de uma ladra e Disque M para matar, A corrida maluca (1968) ...os pseudo-épicos da série Maciste e afins (décadas de 1950 e 1960) e na onda dos filmes-catástrofe, O destino do Posseidon (1972). 

Santana na época era quase provinciana, mas tinha vida e identidade próprias. Perto de hoje, era um bairro pacato. Sua arquitetura, o comércio, a atmosfera social e os tipos humanos que se via nas ruas ainda não haviam tomado o rumo da deterioração que mais tarde viria a desfigurá-los. Eram pontos de referência clássicos as paróquias Sant’ana, Santa Terezinha e N.Sa. Salete, as construções em estilo normando da Biblioteca Municipal Narbal Fontes e do castelo, as padarias Estrela Polar, do Comércio, Aviação e Morávia, o CPOR, o Campo de Marte, o antigo Grupo Escolar Buenos Aires... no Alto de Santana os colégios Santana, Imperatriz Leopoldina e CEDOM, o Hospital do Mandaqui, a caixa d’água e o restaurante Chácara Souza. Na rua Voluntários da Pátria (onde na Quaresma passava uma procissão) e em suas imediações o “Cordão de ouro discos”, a fábrica de chocolates LAF, Violões Di Giorgio, Casas Pernambucanas, Bar do Justo...e o cine Hollywood. 

Vamos nos lembrar daquele universo peculiar tal como era nos anos 50 e 60. Só quem nele habitou poderia se dar a estas divagações...

A continuar como “Minha vinda para Santana”

Abril, 2024. 









Pernas de andarilho

Dizem que eu caminho muito rápido. Acho que nem tanto, pois quem o diz costuma ser moderado nesse particular – pode ser que o tempo passe mais lentamente para essas pessoas. No entanto, já caminhei ao lado de algumas que me levaram a fazer um esforço extra para acompanhar. 

Porém, é verdade que não gosto de andar devagar. Seria bom que o fizesse, porque ainda hoje há coisas pelo caminho que merecem ser vistas com calma. Quem sabe a pressa seja uma herança de minha mãe – que ao contrário de meu pai era ansiosa e sempre procurava se antecipar às eventualidades. 

O primeiro percurso que fiz a pé sozinho foi para chegar até a escola, que distava 900 m de casa. Na época havia pouco trânsito de veículos, entre os quais o Chevrolet 1945 de cor preta, comumente utilizado como táxi. A partir da rua Paulo Maldi, uma vez na av. Nova Cantareira eu virava à esquerda e seguia atravessando com cuidado as ruas transversais até chegar ao meu destino. A escola, muito simples, em sua fachada exibia uma placa bem grande que informava: “...este estabelecimento de ensino é destinado a pessoas sem recursos financeiros...”. Porém, todos estudavam lá, independentemente de classe social, cor ou credo. Enquanto não tocava o sinal para a entrada, confraternizávamos, jogando “bafo’ debaixo de uma escada que dava acesso à marquise. Ao término das aulas, o alvoroço da saída e na calçada os vendedores de cocada, rapadura e puxa-puxa compunham o cenário daquelas tardes luminosas. Eu também costumava ir ao mercado municipal para comprar óleo a granel e demais mantimentos. Eram coisas impensáveis para um menino de 6 anos fazer hoje.

Caminhadas memoráveis – que estavam mais para marchas – eram as que eu empreendia de casa até o colégio onde cursava o 3o ano colegial noturno. Eram 2 km, dos quais aproximadamente um terço de ladeira, na rua Voluntários da Pátria, que tornava-se progressivamente íngreme. Mas me movia um objetivo: estar bem preparado para os exames vestibulares. Dado o tempo curto, tudo tinha que ser feito de modo planejado e metódico: sair de casa às 18h30 e chegar ao destino para as aulas, que começavam às 19h15. No dia seguinte acordar às 5h30, sair de casa às 5h45, chegar ao primeiro ponto de ônibus na rua Dr. Cesar às 6h05, e ao segundo, na Praça da República às 6h30 para então pegar o ônibus Circular Avenidas que me deixaria na avenida Paulista a tempo de entrar na classe do cursinho um pouco antes das 7h.

Até hoje eu percorro cinco quadras de um local de trabalho a outro. Mesmo havendo estação de metrô à porta, prefiro deixar esta alternativa para último caso. Quero manter um resquício de otimismo na humanidade. Ao andar, alimento a ilusão de descobrir pelo caminho uma mulher bonita, uma área em que ainda resta vegetação, o perfume da terra e das plantas depois da chuva. E tenho o ensejo de presenciar cenas curiosas, como a protagonizada por um transeunte idoso e baixinho, que às vezes me ultrapassa na altura do viaduto Pedro de Toledo. Vestindo camiseta e calção - o semblante determinado de quem tem uma missão importante e está certo de cumpri-la – ele caminha serelepe, imprimindo aos ombros movimentos simétricos peculiares, ritmados, rápidos e de amplitude muito curta, o que quiçá lhe confira aerodinâmica favorável para obter uma velocidade não condizente com seu tamanho.  

Havia as andanças prazerosas, como as que fazíamos quando, fortuitamente dispensados mais cedo da escola, voltávamos em companhia de um colega, a conversar sobre assuntos amenos, entre os quais a canção Poor side of Town, de Johnny Rivers ou sobre sua visita próxima ao Brasil. Ou as de um colorido singular, como aquela em que, descendo a rua Voluntários da Pátria logo após sair da Alfredo Pujol, ao vislumbrarmos duas belas jovens dentro de um Karman-Ghia estacionado, o meu colega disparou: “O que eu queria mesmo era entrar lá dento com uma garrafa de champanhe”. A feliz observação, feita de modo espontâneo e entusiasmado, levou-me a fantasiar no que se poderia fazer com elas naquele espaço apertado (ainda mais com champanhe a bordo). Certamente seria uma bela farra, mas não pude idealizar detalhes, visto que tinha apenas 11 anos de idade. 

Mais tarde haveria as trilhas - como a que fizemos na floresta e sobre as rochas junto ao mar no parque Nacional de Tsitsikamma, na África do Sul, e aquela em que, no memo parque, enveredamos por uma área sinalizada como de acesso proibido por risco de desmoronamento – aviso que foi intrepidamente ignorado por minha companheira, que de uma hora para outra resolveu se mostrar corajosa (“que proibido que nada!”). Daí que seguimos adiante à burla da sinalização e não demorou 10’ para toparmos com áreas de deslizamento e alguns troncos caídos – o que era um mau augúrio. Ainda assim continuamos, e à medida que caminhávamos sem saber bem por onde, o fato de não enxergarmos mais nenhuma placa indicativa atestava ser aquela realmente uma área interditada. Então comecei a pensar no tributo a se pagar por uma decisão irrefletida, e mais seriamente em como sair dali vivo. Tendo perambulado por mais meia hora, nosso senso de direção ou o acaso permitiu que avistássemos uma faixa azul na linha do horizonte: existia uma saída para o mar! Sim, chegáramos ao topo de uma colina e torcemos para que que sua descida nos conduzisse à trilha de volta, o que finalmente aconteceu.

Outra ocasião em que nos vimos perdidos foi no Parque Nacional Real do Natal (ainda na África do Sul). Anoitecia quando, depois de transpor com cuidado e coragem as escarpas e fendas rochosas (esforço que consumiu algumas horas) nos demos conta de estar sem orientação. Ao atingir um chão de topografia mais regular e com cobertura vegetal, caminhávamos amparados pela esperança e instruídos pelo instinto, quando conseguimos avistar pontos de luz em um vale ao longe – sinal salvador de indício de presença humana. Quase trôpegos, a nos segurar na capoeira, descemos sob a escuridão até a planície onde ficava o alojamento. Já refeitos, ao ler o guia com atenção, ficamos sabendo que algumas pessoas haviam se extraviado naquela trilha, vindo a perecer.  

A seguinte seria no Parque Nacional de Los Glaciares (Patagônia argentina) em uma área entremeada por córregos, pedras e geleiras. A visão dos arredores era tão bela quanto inóspita e nos reteve por algum tempo para admirá-la e matar a fome a sede. Nosso enlevo, porém, durou até a hora em que resolvemos ir embora. Gradualmente foi dando lugar à preocupação de não acharmos qualquer ponto de referência para sair dali. E ali teríamos ficado para sempre se a Providência não nos mostrasse pessoas ao longe que se dirigiam ao local onde acampavam, próximo da subida para a Laguna Sucia (a quase 5 mil metros acima do nível do mar). Lagoa cercada pelo monte Fitz Roy, que para se alcançar seria preciso escalar uma encosta íngreme. Minha companheira declinou do convite. Mas eu estava determinado e porque gosto de lugares altos, comecei a subir, e à medida que subia, tinha que me segurar na vegetação. A perseverança foi recompensada. Ao chegar, dei com um lago de águas translúcidas, cor azul turquesa, rodeado pelo cinza das pedras e das rochas. Naquele lugar ermo era audível apenas o vaivém das águas agitadas pelo vento. Enxergar as dimensões diminutas da planície verde, rios e geleiras lá de cima dava sensação de isolamento, de se estar no fim do mundo, à mercê da natureza e ao mesmo tempo integrado a ela. Não me lembro de ter visto paisagem mais bonita. A operação de descida, que durou aproximadamente 1 h, tive que fazer de costas, gradualmente, com muito cuidado para não cair e segurando com mais força nos arbustos, dado o declive acentuado.

É notável que nas situações em que estamos perdidos e sem ter ideia de qual direção ou sentido tomar, continuamos caminhando decididamente e sem esmorecer da fé de encontrarmos nosso objetivo.  

Voltando ao tempo da infância, pergunto-me: qual seria a diferença entre as caminhadas daquele tempo e as atuais?

Eu caminhava para ir até a escola ou para cumprir os mandados de minha mãe - ir à padaria ou à granja comprar ovos (desta última eu não me agradava por ter que subir ladeira). No trajeto ia pensando em um jogo de futebol, em algum craque do nosso time ou nas peladas que disputávamos no campo de grama ou na quadra. Caso faltasse assunto, na professora e nas tarefas escolares. Havia uma expectativa quanto ao futuro - não sabíamos bem qual, mas era uma expectativa boa.

No pensamento vamos a qualquer parte.  Isso não é possível hoje dentro de uma estação ou vagão de metrô, onde a visão e o espaço são tomados por tipos não exatamente inspiradores que lá se aboletam (às vezes acomodando-se indevidamente nos assentos preferenciais) ou obstruem a passagem de quem quer sair do vagão...  

Subir o aclive da rua Voluntários não era penoso porque o fazíamos com música na cabeça.  O que pode ser penoso quando mentalizarmos os acordes e a harmonia de H̲a̲̲ve̲̲ Y̲o̲̲u̲̲ E̲̲̲ve̲̲r S̲e̲̲e̲̲n T̲he̲̲ R̲a̲̲i̲̲n ou L̲o̲̲o̲̲ki̲̲n' O̲̲̲u̲̲t M̲y B̲a̲̲ck D̲o̲̲o̲̲r cantados pelo Credence Clearwater Revival?  E ao avançar, nossa expectativa já era mais definida e otimista – entrar em uma boa universidade, definir nosso futuro profissional. Para vencer essa escalada,  confiávamos em nós e nas pessoas - pais e mestres - que nos orientavam. 

A considerar tal projeção,  subir a ladeira nunca foi difícil. Bem, deixando de lado por um momento a benevolência seletiva com que evocamos imagens do passado, reconheço que houve uma exceção: alguns anos antes, eu fizera o mesmo percurso a carregar com os braços, penosamente, uma lâmina de vidro de janela para repor a que havia quebrado durante um bate bola no pátio do colégio. O jogo estava mais para vôlei, mas a bola veio tão de jeito que espontaneamente eu a chutei para o alto. Foi um belo chute e tudo ficaria bem se estivéssemos em um campo ou quadra de esportes e não no pátio de recreio. Não esperava que a bola subisse à altura das janelas superiores do prédio. O vidro era de grandes dimensões e se arrebentou em estilhaços (felizmente não havia ninguém muito perto). Sumiram por encanto os alunos que participavam do jogo (parecia até que alguns nem mesmo estavam ali). Ante a patética prova de cooperação vi-me obrigado a tomar uma atitude voluntariosa, comuniquei o incidente a um funcionário e fui ter com o professor de educação física, que tirou as medidas da janela e com quem me comprometi a substituir o vidro que fora espatifado. Meu pai mandou confeccioná-lo, informando-me que o custo seria devidamente amortizado mediante a modesta contribuição de minha mesada. Caberia então a mim levá-lo até  ao colégio por meus próprios meios. E foi o que fiz. 

Permanece muito nítido na memória, talvez pelo propósito diverso dos demais, um trajeto nem um pouco fascinante que meu irmão e eu fazíamos, cada um em dias diferentes da semana. A partir de casa pegávamos a rua Lusitana e após um pequeno trecho na Doutor César subíamos a ladeira da Chemin del Pra, virávamos a Alfredo Pujol na esquina do CPOR e prosseguíamos por 1 km ou pouco mais, para chegar à então tranquila rua Heliodora.  A Alfredo Pujol, embora com algumas ondulações de plano, não era ruim. Vencidos alguns quarteirões passava-se defronte à Escola Estadual Barão Homem de Mello e mais um quarteirão adiante dobrava-se à esquerda. Compondo uma sequência de construções geminadas, situava-se a casa da Guiomar. Apertávamos o botão da campainha e dali a pouco ela surgia à porta. Em geral torcíamos para ninguém atender, mas salvo circunstâncias excepcionais isso não acontecia. Ela sempre aparecia e então, conformados, subíamos os poucos degraus até a porta de entrada onde ela nos esperava.  Guiomar era nossa professora de acordeon.  

Permito-me agora fazer algumas digressões. Caminhar até lá não era problema. Excetuando-se a ladeira do CPOR, o itinerário era até agradável e eu o fazia em pouco mais de 30 minutos. O problema eram as aulas da Guiomar. Sua didática (se é que posso definir assim) destoava muito da adotada pelo Bianchin e pela Leonor que, em compensação, eu considerava bonzinhos demais como professores. Porque lecionavam em um bairro distante, a Água Fria, e tinham compromissos mais relevantes, eles haviam sugerido que continuássemos as aulas com aquela nova professora. 

Do ponto de vista educativo, no meu entendimento, o que tínhamos com Guiomar não eram propriamente aulas. Seriam antes sessões de cativeiro musical ministradas por aquela mulher magra, de idade indefinida e que usava óculos. Nem bonita nem feia, ela não sorria para mim - provavelmente lhe faltariam motivos. Aos meus olhos seria considerada insípida não fosse a determinação de nos empurrar goela abaixo seus conceitos musicais. Para começar, eu não podia tocar uma música de modo espontâneo e corrigir os erros, ou simplesmente tocar lendo a partitura como fazia com o easy-going Bianchin. Tinha que fazê-lo sempre marcando o compasso e para tanto ela me exortava a levantar e baixar o pé e ao mesmo tempo proferir alternadamente as palavras “tesis” e “arsis”. Mas era difícil saber quando dizer “tesis” ou dizer “arsis” e quando levantar ou descer o pé. O significado disso, até há pouco era para mim um enigma. Li na Britannica que ‘arsis’, um vocábulo de origem grega, significa «levantar o pé ao marcar o ritmo». Refere-se, na poesia, à parte mais leve ou mais curta de um pé poético (a unidade rítmica fundamental na métrica que define o ritmo de um verso) e ‘tesis’ é a parte acentuada. Na poesia latina os significados destas palavras inverteram-se — ‘arsis’ passou a significar a parte acentuada e tesis’ a parte não acentuada. Seja lá o que for, não era algo fácil para uma criança entender. Eu não conseguia levar a bom termo aquela espécie de mantra integrada aos movimentos do pé. Meus erros e eventuais acertos eram saudados com expressões de exasperação ou de algum ânimo (estas mais raras) da Guiomar, que apesar da minha sofrível performance seguia em resoluta crença na infalibilidade de sua técnica pedagógica. Habitualmente a paciência de ambos findava antes que concluíssemos toda a leitura, quando então ela a interrompia (para meu alívio, porque estava a ponto de chorar). Bem ali ao lado estava um exemplar do método de divisão musical e solfejo Bona, que Guiomar em seguida abria para encetar uma segunda sessão de tomentos, se bem que menos requintada que a primeira. A propósito, se ela fosse um livro, estou certo de que seria um Bona. 

Eu disse há pouco que salvo circunstâncias excepcionais Guiomar abria a porta quando tocávamos a campainha. Tais circunstâncias, confesso, eram desencadeadas unicamente por minha vontade: ao chegar ao portão da casa eu pressionava o botão de modo tão suave que ela dificilmente soaria. Esperava por um tempo correspondente ao habitual para ela aparecer, e como não aparecia, arrancava de volta para casa com uma sombra de remorso, que era logo espantada pelas sensações de alento e leveza que sobrevinham. Seja por seus métodos pedagógicos ou por não lhe ver nenhum encanto (mesmo que oculto) eu desisti de aprender aquele instrumento de que até gostava. 

E vejam que Guiomar dava aulas não apenas de acordeon, mas também de violão e piano, ostensivamente dispostos na parte da frente de sua sala de estar, preparada para tal. Alguns meses mais tarde, ganhei de minha tia um violão Giannini com cordas de aço, que chegou trazido por uma sempre benfazeja portadora – a Kombi da VARIG. A Guiomar, nossa única referência, era a alternativa natural para me familiarizar com o novo instrumento. Minha vontade era a de aprender a solar, mas Guiomar limitava-se a ensinar acompanhamento. Pois aprenderia com ela os primeiros acordes, o que afinal, era melhor do que nada. 

E voltei a fazer o trajeto até a rua Heliodora. No começo até entusiasmei-me com “Lampião de Gás” (Inezita Barroso), “O teu orgulho” (Carlos José) e “Ensinando a bossa-nova” (versão de Blame it to bossa nova, de Eydie Gormé, interpretada pelo Trio Esperança) - canções que além de executar a harmonia básica eu tinha que cantar, em geral secundado por ela (ou vice versa). Mas esta é outra história. 

Decorridos dez anos, vejo-me agora, já no 5o ano da faculdade, a retornar do  hospital onde, no centro cirúrgico, passara a tarde a fazer postectomias a troco de auxiliar outras tantas, sob orientação de um residente japonês que já devia estar farto de operar as levas de internos de uma fundação que cuidava de menores. Já era noite e eu marchava para casa sentindo-me de um urologista nato ou pelo menos alguém que ponderava ser um. 

Uma das jornadas que mais me agrada recordar é a que, em 1999, fiz durante uma viagem solitária à Irlanda. Mal chegara a Dublin, saí no final da tarde da Hydra House, casa onde me hospedara, na Ionna Road, rumo a Temple Bar, zona boêmia tradicional. A perspectiva de ir à procura do novo suavizava o esforço. De posse do Frommer’s Guide,  de um mapa fornecido pelo Johnny (meu anfitrião) venci – após algumas desavenças com mapa - dez quarteirões até chegar à ponte sobre o rio Liffey. Anoitecia e transitando pelas imediações, onde passava muita gente, me surpreendi de ver muitos jovens. Um tanto eufórico, já tinha me esquecendo de coisas básicas quando fui alertado por um aroma de peixe frito e batatas – especialidade da Beshoff Bross desde 1905. Decidi arriscar, entrei no self-service e não obstante o teor nutricional pouco saudável, dei boas-vindas à refeição. 

No regresso, a caminhada me pareceu mais branda e já próximo à moradia, avistei o Mapples Pub. Vindo do interior do pub, um convite sonoro me atraiu e entrei. Aos poucos, identifiquei a harmonia e a cadência daqueles sons: às vezes cheia de energia e movimento ou transmitindo suavidade e quietude, mas sempre passando longe do convencional. Lá dentro, dei com uma atmosfera bem distante da agitação e barulho dos botecos comuns – nada de gente a gritar ou a rir alto, apenas pessoas conversando serenamente.  Acomodar-me - auxiliado por um generoso copo de cerveja – e sintonizar com a harmonia do ambiente, decorado com móveis estofados de cor vermelha e ares dos anos 1940, diminuiu gradualmente o estado hiperdinâmico em que eu estava. Saí de lá descansado e entrevendo que meu caminho por aquelas terras seria promissor. 

Confirmei o prognóstico ao me embrenhar pelos recônditos do Jardim Botânico dublinense. Era outono, estação em que no hemisfério norte as folhas das árvores atingem sua beleza suprema e derradeira. Percorri as acolhedoras alamedas e dei com as majestosas estufas brancas que se erguiam bem alto contra o fundo azul da manhã. Lá dentro, contemplei as flores, orgulhosas a se exibir para escolares adolescentes, que as desenhavam tão absortos que parecia que eles é que estavam a posar. Do lado de fora, monitoras passeavam suas crianças por uma orgia de ideias coloridas... 

Mas tarde, a caminho do ponto de ônibus, eu parava por instantes diante das entradas de algumas das casas da Ionna Road para admirar as belas portas dublinenses, junto das quais se via, sobre o tapete da entrada, o pão e o leite. 

Tudo isso eu observei logo nos primeiros dias. Foram cenas que me transportaram a um Brasil de antes, perdido no tempo. Sinto tristeza ao retornar aos dias atuais.

Abril, 2026