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Idealismos

“If we take the man as he really is we’ll make him worse, but if take a man as he should be (looking at him that high) we’ll make him capable of becoming what he can be. So, we have to be idealists in a way…” (palavras do Dr. Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco, na conferência Youth in Search of Meaning em 1972, citando J.W. Goethe).  

A melhor fase da vida é aquela em que somos idealistas. Acreditamos em nós, obviamente, e no próximo. 

Escreverei aqui uma visão panorâmica e de cunho pessoal sobre o lado acadêmico do caminho profissional que segui. Para esse propósito servirão as imagens que subsistem na memória e a vivência acumulada, que aos velhos permite desenvolver a noção do que é normal, do que é incomum e do que é preocupante. 

A nostalgia torna tudo mais bonito, no entanto, sua ótica benevolente faz deslizar para o devaneio. Por isso, evitarei pormenores. Demoraria muito e eu me esqueceria de passagens que, afinal, só interessariam ao autor. Tampouco citarei nomes. Então, tomando emprestada a linguagem cinematográfica, tentarei lançar um wide shot e alguns breves close-ups sobre as diferentes épocas que se sucederam - idos e atuais. 

No aprendizado clínico 

No 4o ano de Medicina, transposta a insipidez do curso básico, eu começava a gostar bastante da prática clínica e do contato com os pacientes. Ainda não via no horizonte uma especialidade a seguir, mas atraiu-me, ao passar pela Pediatria, a ideia de agir preventivamente para evitar doenças na idade adulta. Mais tarde, na disciplina de Técnica Cirúrgica aprendi a cortar, suturar e a fazer pequenas cirurgias. Paralelamente, a grade curricular nos levava a estagiar nas enfermarias, o que aumentou o meu gosto pela futura profissão. 

Já no 5o ano passei mais de uma tarde no centro cirúrgico a fazer postectomias a troco de auxiliar outras tantas, sob orientação de um R1 japonês que já devia estar farto de operar as levas de internos de uma fundação que cuidava de menores. Ao sair do hospital – já era noite – marchava para casa com a empolgação de um futuro urologista ou pelo menos de alguém que cogitava vir a ser um.  

Mas a ideia foi efêmera. Nos meses finais daquele ano, minha atenção voltaria a balançar, apontando para a Ginecologia-obstetrícia quando, orientado por um R3 coincidentemente japonês, levei a cabo uma laqueadura tubária “de pele a pele”. Ou seja, inverteram-se as funções – eu operei e ele auxiliou. A experiência cirúrgica inicial na especialidade sairia perfeita exceto pela incisão um pouquinho desviada da linha média abdominal, detalhe observado pelo assistente na visita às pacientes na manhã seguinte. O R3 assumiu o deslize e em nenhum momento revelou ter sido um quintanista o cirurgião. Graças à sua generosa disposição de ensinar eu viria a repetir minhas incursões cirúrgicas durante o ciclo - cesariana, partos em primigestas e amniocentese. 

Ao entrar no 6o ano, meu estágio opcional seria na Pediatria - área na qual eu pensava firmemente depois de uma entusiástica hipótese de pneumonia (propedêutica clínica típica, confirmada por raios X) que fizera em uma menina durante um plantão noturno no ano anterior. 

Era o primeiro dia útil do mês de janeiro quando cheguei – alguns minutos atrasado - à reunião introdutória (voltava de um plantão de 24h em uma cidade próxima). Mal tomara lugar à mesa junto aos demais internos, a coordenadora - uma renomada hemato-oncologista - sem se dirigir a mim, emendou o que estava a dizer com esta singela advertência: “...e outra coisa: não permitiremos atrasos”. O episódio ilustrou, como logo percebi, ser aquele um departamento que exigia dedicação e disciplina absolutas. Por sorte (ou eu escolhi) passei 1 mês na UTI sob a orientação de um R3 igualmente motivado e amigável, vindo a nascer dali minha aproximação por essa área específica. Seu estilo contrastava com o de uma docente, que costumava crescer para cima de internos caso estes não atendessem às suas demandas – habitualmente acompanhadas de uma inerente jactância (“quem foi o boneco que tirou o estetoscópio da UTI?”). Felizmente, os demais ensinavam sem lançar mão de tais recursos. Foi a partir dos seminários e visitas com eles que cristalizei a decisão de ser pediatra. Além de seus exemplos, o fato de sermos exigidos era uma razão para estimular (ou afugentar) os internos. Era-nos atribuída a responsabilidade direta sobre os pacientes - em geral com doenças graves - e nos procedimentos práticos púnhamos “a mão na massa”. 

Já desde o 5o ano, nos plantões noturnos era nossa obrigação controlar - madrugada adentro - dados vitais, estado de hidratação, frequência e aspecto das eliminações e o gotejamento do soro (inexistiam as bombas de infusão), que anotávamos em uma folha de papel fixada à parede, junto ao leito do paciente. Sendo os últimos em uma hierarquia em que o R2 era a autoridade operante in loco e o assistente a remota, tínhamos que prestar contas por eventual omissão ou piora do paciente. Como contrapeso, a qualidade teórico-prática do ensino, a riqueza de casos clínicos, a proximidade dos pacientes e o espírito de fazer o melhor possível por eles. 

Do mirante em que agora reexamino os decênios passados, constato que como quintanistas, embora víssemos como uma tarefa enfadonha registrar os controles de pacientes, era no silêncio daquelas noites que, de forma espontânea, aprendemos a usar um recurso fundamental em Pediatria: a observação!  

Todavia, o grau de exigência e a linha hierárquica severa me pareciam um pouco doentios. Este foi um senão que me fez hesitar ao se aproximar a data das inscrições para o exame de residência. A Pediatria era uma das mais disputadas e considerando o risco teórico de ficar de fora, analisei a possiblidade de me candidatar à Radiologia - um departamento formado por gente de índole mais tranquila, com menos disputa de vagas para residência e sem a exigência dos plantões. Como os jovens costumam projetar as perspectivas de modo otimista, acabei, um tanto em cima da hora, por seguir o chamado da vocação.

Eu poderia cursar a residência lá, mas ao avaliar os possíveis cenários resolvi fazê-lo em outro hospital. Sairia de uma atmosfera carregada e voltaria para São Paulo onde tinha meu convívio familiar e social.

Residência e pós-graduação

A renovação foi substancial: em um hospital moderno, arejado e de grandes dimensões, colegas de outros estados e seus regionalismos curiosos compunham um ambiente amistoso. Executávamos nossas funções de residentes com responsabilidade e de forma natural. Faltava, o espírito acadêmico (às vezes quase religioso) a que nos acostumáramos, mas havia preceptores competentes que nos estimulavam a estudar. Por outro lado, ver colegas em idade madura desatualizados e acomodados funcionava como feed back negativo (eu pensava: “daqui a alguns anos não gostaria de ficar como aquele cara”). Hoje reconheço que, em nossa inexperiência, ignorávamos que a vida às vezes obriga as pessoas a seguir rumos não pretendidos. 

Sem me deter no assunto, vivíamos numa era de anistia e abertura política. Foi nesse cenário que começou, no mês de abril, uma greve de residentes. Greve que fora decidida sorrateiramente em petit comité, em um sábado de aleluia, à revelia da decisão tomada em uma assembleia ocorrida dois dias antes em que participaram todos os residentes. Estranhamos a manobra, embora de início tenhamos encarado o movimento com algum ânimo (a bandeira era ‘carteira de trabalho para os residentes’). Sendo jovens e crédulos, nos deixávamos iludir por palavras de ordem e discursos bonitos cheios de símbolos e significados, sem entender-lhes o referente, isto é, a coisa concreta. Conduzidos habilmente por um R2 ardiloso, os residentes se deixaram tanger como uma boiada. Como resultado, decorridas algumas semanas fomos expulsos, sendo depois readmitidos por uma liminar judicial, e perdemos dois meses de treinamento. Beneficiou-se do movimento o finório colega, que ganhou a visibilidade política que anos mais tarde o ajudaria a virar deputado federal e líder de governo na câmara. 

Do ponto de vista técnico, respirar ar fresco serviu também para mostrar a base sólida de conhecimentos que recebêramos durante os anos de faculdade. Isso se evidenciou pela segurança com que desempenhávamos o trabalho no pronto socorro.

Em nossa turma, afortunadamente todos eram de bom trato, o que nos animava para descontrair o ambiente, em que as únicas duas meninas eram afáveis e muito estimadas. De uma delas, já no final da residência ouvi um comentário marcante: da importância de se aprimorar sempre, e entrar em domínios inexplorados. Suas palavras foram para mim significativas, se bem que eu achasse curioso que ela mesma se abstivesse de exercer na prática o que afirmava, limitando-se a cumprir apenas o “feijão com arroz”.

Após haver concluído a residência, eu prestara exame para ingressar em um curso de saúde pública (na época concorrido) com duração de 1 semestre. Deixando de lado matérias entediantes devido à inclinação ideológica de seus docentes, gostei particularmente de Epidemiologia e das noções básicas de estatística. Mas aquilo era pouco. Eu queria me aprofundar em áreas que gostava e entendi que a saída seria fazer uma pós-graduação stricto sensu em uma boa instituição. Para ser admitido como pós-graduando, o primeiro passo era ser apresentado por alguém de lá, conforme me disse o coordenador da mais próxima quando fui ter com ele. O problema era que eu - modesto trabalhador da linha de frente – não tinha relação próxima com figuras influentes. Saí da conversa com a sensação que devia ter um vendedor de aspirador de pó – uma personagem que antigamente visitava os domicílios – ao ser dispensado pela dona de casa logo na porta.

Minha intenção permaneceria em estado latente, transcorrendo-se mais cinco anos até que enfim pudesse fazer um estágio de 4 meses no setor que me interessava, levado pela mão de um professor na universidade que havia trabalhado no hospital onde eu fizera a residência. 

Dali até ser admitido na pós-graduação foi um processo natural, pois ao meu empenho aliava-se a maturidade adquirida ao longo de quase dez anos. O tempo que levou para eu conseguir concretizar o que pretendia e os fatos nele sucedidos acabaram determinando a escolha do campo no qual me especializei, sinalizando que às vezes os acontecimentos surgem na ocasião apropriada. 

A partir da observação clínica empírica dos pacientes e com o aval do meu orientador, escrevi o projeto que deu início a uma linha de pesquisa até ali quase inexplorada na Pediatria e que sobrevive, se bem que já a tenham banalizado. Aprendi, orientei, e posso dizer que certos estudos publicados se destacaram na comunicação médica internacional. 

A vida como ela é 

Talvez a maior lição aprendida no período de mestrado e doutorado foi a de que se você tem um trabalho a fazer, acredite e faça-o você mesmo. Não espere ajuda, ainda que possa vir a ser grato aos que porventura lhe ajudem. A sua vontade deve se traduzir em ação. 

Fiz boas parcerias e conheci gente capaz, com as quais o trabalho frutifica até hoje. Em contrapartida, durante o percurso, deparei-me com o chamado “vulgo da humanidade”, uma entidade que tem similar em outras espécies - vide os exemplos do chupim (ou chupim vira-bosta) e do pássaro cuco. Onipresentes, posam como coautores de artigos ou participam de eventos por critério exclusivamente político, sem ter mérito. No caso da coautoria de artigos científicos, a prática é adotada com frequência por alguns, que mesmo em face das recomendações do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) fazem ouvidos de mercador. 

Vem-me aqui uma reflexão. Na jornada acadêmica doamos parte da nossa energia a pessoas que julgamos merecedoras de crédito. Foi uma dádiva encontrá-las no caminho. São personae gratae por terem correspondido ao nosso empenho; confiaram em si e nós depositamos confiança nelas. Mesmo estando fisicamente distantes, nunca as esquecemos.   

Outras acabam se distanciando por deixar de comungar das mesmas devoções, ou porque nossa função utilitária se tornou dispensável. Dada a carência de luz própria há, como em todo lugar, os que cultivam a inveja silenciosa. Uma parcela destes adota o comensalismo, em geral abrigando-se sob um véu de simpatia e efusividade. Nessa classe se esconde uma subespécie (ou ordem) que, além de instintos predadores, quem sabe por insegurança cuida em manter afastados os sabidamente mais aptos quando se trata de atuar em funções relevantes, ascender ou ocupar posições vantajosas. A ela adequa-se um pensamento de Schopenhauer: “toda a maldade, inveja e estupidez que tivemos que suportar não devem ser atiradas ao vento, e sim usadas como alimenta misanthropiae e continuamente lembradas para termos diante dos olhos a índole real dos homens, e não nos comprometermos com eles”. Tenho procurado adiar o exercício pleno desse pensamento e dele tirar conclusões definitivas.  De qualquer modo, na hora crepuscular em que estou, é tarde para isso.  

O que acontece hoje

É do decurso natural de tudo que existe a fase de ascensão, sendo este o caso do desenvolvimento e uso dos recursos tecnológicos para diagnosticar e tratar doenças. Nesse ponto o progresso é incontestável e o louvamos. No setor que deve gerar conhecimento, entretanto, vemos o atrativo por pesquisa decair em consonância com a qualidade da produção científica. Antes havia grande interesse dos alunos por entender a fisiopatologia ou as bases da doença. Esse interesse parece ter estagnado. Mudou a visão dos mais novos, a quem devemos ensinar. A mudança é multicausal e reforçada pelo advento da internet, que lhes despeja uma enchente de informações. E que também lhes atrofia a curiosidade científica e a capacidade de análise. “Dá muito trabalho” é um argumento empregado se lhes sugerimos um estudo original para desenvolverem seus TCCs – que acabam entregando na certeza de que ninguém irá ler, o que realmente acontece.  

Seria injusto atribuir só aos mais novos a queda do padrão dos graduandos e pós-graduandos em relação a outrora; eles estão “no fluxo” e sequer se dão conta. Seguem   o que é determinado por quem dirige e administra, em todos os níveis, as políticas de ensino, as escolas e a residência médica. O número de cursos de graduação em Medicina (423) quase sextuplicou no período. Só em 2024 foram aprovados 64 cursos. Ou seja, uma iniciativa que requer avaliação rigorosa de viabilidade e eventual benefício, transformou-se, com a anuência dos ‘semipensantes’ encarregados em cuidar do assunto, em um mero negócio. Tais cifras refletem a incompetência dos administradores - que colaboram para aviltar a natureza da formação médica - e atestam a lucidez de Nelson Rodrigues quando, lá atrás, previu o tipo de “gestores“ que tomariam conta das coisas.  

Em sintonia com o definhamento da qualidade, viceja a interferência burocrática nas atividades de pesquisa. Ter um simples estudo observacional aprovado por comitês de ética sem pendências e em tempo oportuno (como era normal ocorrer) virou motivo para se comemorar. 

Frequentei duas bibliotecas, providas além do acervo, de amplos espaços destinados à consulta, reuniões, salas de aula – um ambiente propício ao estudo e à reflexão. Eu gostava de percorrer as estantes de revistas e livros e folhear os que me chamavam a atenção.  

As dependências da excelente biblioteca do hospital onde fiz a residência mudaram e diminuíram bastante. Mesmo assim, ela sobrevive.  O que aconteceu com a biblioteca regional é mais grave - ela funciona unicamente no modo virtual. Perdeu-se com isso o estímulo à leitura em páginas impressas e o “olhar calmo” – este necessário para se elaborar uma análise crítica. A sobrecarga de informações jogadas nas telas vai contra a própria natureza da leitura, induz à perda da paciência cognitiva e irá afetar a capacidade de escrita (o que é factual). Estariam os administradores cientes destes efeitos colaterais?

Em conjunto com o atendimento aos pacientes, nossa instrução teórica baseava-se nas anotações das aulas que fazíamos nos cadernos e na leitura de livros físicos clássicos. Dava-nos satisfação estudar pela primeira vez e conhecer a fisiopatologia humana considerando a integração clínico-anatomopatológica. Entrar em uma biblioteca para pesquisar artigos em periódicos com o auxílio do Index Medicus ou percorrer as estantes com livros e consultá-los compunha o processo de aprendizagem – que passava pelo esforço exaustivo da procura, até se chegar à descoberta – “o aprendizado é a recompensa do cérebro”. Esta é uma experiência que a nova geração de nativos digitais desconhece. 

Assistimos ao desmonte gradual do corpo clínico do hospital onde cursamos a residência e trabalhamos – um hospital que foi pioneiro em áreas importantes. Em um dos serviços onde trabalhamos, a atividade de ensinar os residentes a interpretar uma informação científica é vista com indiferença por quem deveria incentivá-la.      

Como ficou a escola onde fui buscar mais conhecimento? As teses stricto sensu continuam sendo fabricadas a bem da produtividade dos programas de pós-graduação, porém com qualidade inferior às de antes – percebe-se a escrita pobre e a incapacidade em distinguir o essencial do acessório. Partes do texto ou em certos casos a tese inteira têm que ser reescritos pelo orientador. Levar a termo uma tese e redigir pelo menos um artigo pertinente - uma tarefa presumivelmente agradável - pode se converter em arrastada e penosa, em especial para o orientador.  

Títulos acadêmicos, habitualmente valorizados por colegas e pela “intelectualidade” brasileira, no presente nada significam. A proliferação de mestres e doutores, incentivada desde o início do milênio, caminha na razão inversa da qualidade. Em vez de buscarem o aprimoramento, os sistemas de recompensa são subvertidos para beneficiar os menos competentes, como um mecanismo de autodefesa de seu status de medíocres. Vivemos a era da mediocridade autossustentável. De mãos dadas com ela, prospera a “civilização do espetáculo”, em que é preciso estar em evidência – mais precisamente ‘aparecer’ – pouco importando o conteúdo e sim a coreografia. Este fenômeno da vida cultural, bem caracterizado pelo escritor Mario Vargas Llosa, vem crescendo rapidamente na esfera da comunicação cientifica. 

Atualmente o sistema é organizado de modo a dar respostas rápidas. Para deleite de alguns, com um clique (Reading Assistant, Summarize this article) gera-se explicações sucintas ou “mapas mentais” sobre um artigo científico, o que desmotiva o leitor potencial de lê-lo na íntegra. As informações produzidas por autores seminais são substituídas pelas de “autores” que não pesquisam nada. O que fazem é tão somente reverberar o que já é bem conhecido, tendo como porta-vozes as miríades de publicações redundantes que infestam editoras e bases de dados e atravancam a pesquisa bibliográfica. 

Instruir os residentes a apenas seguir as informações empacotadas de protocolos e algoritmos é insuficiente. Algoritmos são úteis, mas por serem direcionados a atender a um padrão genérico, é preciso, como em qualquer outra estratégia, adaptá-los sempre levando em conta o paciente como um ser individual. A maioria omite que os pacientes podem ter mais de uma condição, sendo necessário aplicar recomendações diferentes em paralelo. Porém, a aplicação simultânea de protocolo independentes em pacientes com várias condições simultâneas pode se associar a reações adversas graves relacionadas a interações medicamentosas ou entre medicamentos e doenças. Para os residentes, restringir-se aos protocolos traz um risco: o de passarem a agir como autômatos. Sem o pensamento crítico, eles cumprirão regras pré-estabelecidas. 

É oportuno citar aqui o que escreveu a educadora sueca Inger Enkvist em ‘Educação - guia para perplexos’ referindo-se aos sistemas educacionais ‘modernos’: “A educação não consiste em entender o passado e construir sobre ele, mas em encontrar um caminho fácil e rápido para o futuro”.

Cada vez mais se transmite informações sem se preocupar em formar sujeitos capazes de testar sua veracidade ou de compreende-las. Ontem assisti a uma sessão científica internacional online em que o palestrante (um holandês) descarregou uma profusão de dados sobre o tema. Seria até uma aula informativa, não fossem a velocidade excessiva com que articulava as frases, mudava os slides, e sobretudo a entonação. Afora os cacoetes (ahn, er...) sua voz era mecânica, monotônica como a gerada por um leitor de texto online ou das que se ouve em mensagens gravadas (embora estas já tenham recebido um acento similar ao humano, o que de outro modo as deixa mais enjoadas). A sessão da semana seguinte conseguiu ser pior, graças ao excesso de texto, tiques verbais que se interpunham entre as frases (Ahm…) e uma voz de barítono que mudava para mais grave à medida que corriam para o término, adquirindo então um timbre gutural. E em setembro último, em um congresso europeu, assisti a apresentações em que reconhecidos experts pareciam metralhadoras a atirar informações. Ao término, esvaziadas as munições, ficava-se em dúvida, uma vez que “mais estudos são necessários...” 

Exibições como as mencionadas são a antítese da arte de ensinar e evocam nostalgicamente nossos professores, que com propriedade, clareza e animação nos inspiraram. Se eu abrir o arquivo de cenas e impressões do passado - que à medida que envelheço revela-se mais interessante - enxergarei a disposição com que no estágio cirúrgico nos ensinavam a escrever uma monografia ou a interpretar distúrbios metabólicos, o docente do setor de Emergência e seu tesouro de  vivências clínicas, os bons preceptores da residência e as aulas de um professor da pós-graduação, que com simpatia, quadro negro e giz tornava o aprendizado de bioestatística descomplicado como como uma tabuada.   

Haverá ainda margem para idealismo? 

Quando eu estava na graduação, ouvi de um “chegado” que no ano 2111 os homens estariam loucos. Ao atentar para suas palavras, notei-lhe no semblante um ar convicto e sereno, que condizia com o real significado do presságio. Apesar da entonação e do sentido da frase, despreocupei-me, porque logo adiante havia um amanhã em que acreditar. Vivíamos em um tempo promissor.

Decorridas 5 décadas, ao examinar a realidade que descrevo agora (e outras ao redor), constato desapontado, que a hipótese aludida está a se confirmar muito antes do previsto. E curiosamente, em seu próprio caso, o profeta se antecipou: semanas depois precisou ser internado em um serviço psiquiátrico. 

Prognósticos sombrios à parte, ante os eventos que retratam a decadência do que já foi bom, melhor do que esbravejar ou ficar inertes é entender as circunstâncias e continuar, caso permitam, a lida silenciosa - e casualmente quixotesca - de ensinar o que aprendemos. Tentar preservar o espaço do trabalho onde contribuímos e criamos valor. Até, por fim, sermos lançados longe pelas pás do moinho dos novos ventos, cujas engrenagens continuarão a girar, sem se importar com o que tenhamos feito. 

  “Tu te tornas eternamente decepcionado pela expectativa que cultivas", costumava lembrar um colega de turma, hábil prosador. Contrapondo-se à filosofia de Antoine de Saint-Exupéry (“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”) a sátira denota a sabedoria adquirida na vivência com seres humanos. Seria o produto final de nossas idealizações. 

Entretanto, as decepções podem servir de matéria-prima para forjar a vontade de mudança. E o homem precisa de poesia ou de uma ficção para viver. 

Então vamos acreditar, como aconselha o trecho introdutório. E testar mais uma vez a validade da premissa de J.W. Goethe. 


Fevereiro/Março/Abril de 2026