Poucos rituais são mais agradáveis do que - na hora fria das manhãs - nos servirmos da refeição que nós mesmos elaboramos. Hoje cedo tomei meu café, que preparo de forma tão artesanal quanto possível. Nessa hora, de regra faço-me acompanhar da leitura, o que acaba me distraindo das sensações proprioceptivas do paladar, mas um dia a deixarei momentaneamente de lado, para quem sabe, me inteirar dos efeitos viscerais ou espirituais deste último.
Daqui a pouco enfrentarei as ruas no percurso de cinco quadras rumo ao hospital onde trabalho na atividade de ensinar.
Começo a caminhar, apresso o passo e na ausência de alguém para conversar, procuro pensar em alguma coisa durante o trajeto. Qualquer coisa serve para fugir da paisagem que dia a dia se desfigura, a exemplo dos tipos humanos que nela se movem ou se assentam.
Porém, muito além de ‘qualquer coisa’ - para compensar as decepções dos tempos atuais em relação ao ensino – acorre-me ideia de escrever sobre meus professores da escola primária e secundária.
Os colégios em que estudamos residem em nossa memória, e também os professores que tivemos. Entre esses, do mesmo modo que tudo na vida, havia os que gostávamos, os que não gostávamos e os que nos eram indiferentes.
A professora com quem aprendi a ler e escrever chamava-se Dona Martha. Uma figura neutra e sem traços marcantes, salvo pela ocasião em que me tomou um apito com o qual eu anunciara o início do horário do recreio. Eu tinha feito o anúncio de forma incisiva e absolutamente espontânea, mas ela não quis saber. Nunca mais vi o apito, apesar de eu lhe ter mostrado um bilhete escrito por minha mãe solicitando-o de volta. Levou-o embora e acredito que tenha se divertido bastante com ele. Concluí que ela não tinha espírito esportivo. Esta deve ter sido a experiência inicial a revelar meu inconformismo diante das injustiças do mundo.
Dona Maria do Carmo Rocha, nos seus 54 anos, era uma educadora nata que nos ensinou, ao lado do conteúdo curricular, noções básicas de bom senso e relacionamento humano, tudo de forma paciente e posso dizer, terna. Até para dar bronca ela tinha tato. Certa vez precisou faltar, sendo substituída por uma jovem inexperiente e que não sabia se impor, o que nós, meninos, interpretamos como um sinal verde para fazer uma bela algazarra. No dia seguinte, depois de chamar nossa atenção com firmeza, dona Maria do Carmo exortou-nos a tomar a água com que as meninas lavavam os pés à noite – tal qual uma espécie de poção medicinal que faria com que nos comportássemos melhor. Dessa forma, amenizando a repreensão com bom humor ela passou-nos sua mensagem. Sob sua regência aprendemos a cantar hinos, entre os quais o Hino à Bandeira, o mais belo de todos. Aquela senhora, com quem tive aulas no terceiro ano primário, é uma das minhas recordações carinhosas da infância.
Lembro-me do professor de Ciências na segunda série ginasial. Moreno claro, de sua fronte larga saíam entradas que prediziam uma calvície não muito remota, apesar de aparentar menos de trinta anos. Vestia sempre terno e gravata azul marinho para contrastar com o tom claro da camisa. Um bigodinho fino remontava os idos da década de quarenta. Não se importava muito com a bagunça que fazíamos na classe. Para falar a verdade às vezes parecia até gostar. E nós também gostávamos do professor Daniel ou simplesmente "baiano", como o chamávamos, por ele ser despojado. Ganhou nossa simpatia definitiva quando o surpreendemos certa vez no recreio comendo um sanduíche, em vez de tomar o lanche com seus colegas na sala dos professores. Nunca chegamos a saber sua real procedência, embora seus traços revelassem ser ele um filho do Ceará.
Eu disse que ele não se dava conta da bagunça durante as aulas? Bem, talvez fosse assim porque nossa classe era mista e em atenção às meninas ele contemporizasse. Disseram-nos os colegas da classe ao lado - constituída só de marmanjos, que certa vez, com os ânimos inflamados pela baderna, ele teria ameaçado tirar um revólver da cintura (segundo outra versão teria sido uma peixeira) dizendo qualquer coisa assim:
– “Quero ver cabra macho pra me desrespeitar!”
De feitio oposto era o prof. Mistretta, com quem, na quarta série ginasial, conhecemos a tabela periódica dos elementos químicos. De compleição física pequena, era jovem e sua personalidade formal estendia-se à vestimenta, que usava com apuro - trajes sociais finos, que incluíam terno, gravata e sapatos, todos de uma vez (não sei se fora da classe usava chapéu). Tal formalismo se justificaria por ele ser novo no colégio ou porque era aquele mesmo o seu jeito. De maneiras cerimoniosas, sua imagem mimetizava um bonequinho bem vestido e bem-educado. Certa vez, exibindo sua bela caneta tinteiro disse - com o ar grave de quem faz um alerta importante - que a caneta esferográfica (a Bic começava a se popularizar em 1967) fazia mal à saúde. Não sei se era verdade, mas é fato que a caneta tinteiro sobrevive até hoje, graças aos que (eu mesmo sou um deles) não fazem da escrita um ato simplesmente mecânico e insosso.
À época, o ensino público mantinha uma boa qualidade, o que alicerçou nosso aprendizado e nos habilitou a atuar nas atividades ao longo da vida. No que hoje equivale à sexta e sétima série, aprendemos o idioma Francês. Minha primeira professora foi Dona Jane, uma moça alta, de cabelos loiros e olhos verdes. Tinha 26 anos (ela sugeriu isso um dia). Além da capacidade didática (não falava em Português durante as aulas), Dona Jane era uma beldade. Em uma época em que moças usavam vestidos (e enfeite de homem era bigode), dizia-se que alguns colegas, de forma sorrateira, posicionavam um espelhinho no chão que ela pisava ao se deter diante da carteira de algum aluno para verificar sua lição de casa. Particularmente eu considerava aquilo uma lorota.
A primeira frase que me lembro dela ter pronunciado e escrito na lousa foi Qu’est-ce que c’est? A princípio achei complicada de escrever, mas ela nos fez logo entender de modo simples, quase sem recorrer ao Português. Sabia explicar de modo seguro e elegante ou de forma lúdica, quando nos ensinava a entoar as canções Frère Jacques, Quand trois poules s'en vont aux champs ou a La Marsaillese - essa por ocasião da vinda do presidente Charles De Gaulle ao Brasil.
Além do atributo formosura, Dona Jane harmonizava clareza e concisão com seu jeito categórico e ao mesmo tempo suave de falar. Na simplicidade de meus 11 anos eu me comprazia em admirar sua beleza - tão próxima e ao mesmo tempo intangível. As aulas de Francês com ela eram um maná celestial quando comparadas às de Desenho (não pela matéria e sim por quem a lecionava na primeira série).
No ano seguinte passamos a aprender o idioma com um senhor, que apesar de se autointitular Monsieur, era brasileiro – a mim parecia um octogenário chato e a antítese perfeita de Dona Jane. Se bem que pude desfazer tal impressão quando, em uma volta para casa, conversarmos amistosamente no banco traseiro do trólebus,
Dona Maria do Céu viria a substituí-lo no segundo semestre. Embora sem os mesmos atrativos femininos que a primeira, era simpática e comunicativa. Para um trabalho de final de ano, incumbira-nos de escrever uma monografia e apresentar a sinopse diante da classe. Tendo escolhido o tema Revolução Francesa, na capa em cartolina desenhei uma ilustração sugestiva: a invenção do Dr. Guillotin, que meticulosamente pintei com lápis de cor marrom. Até hoje recordo de sua expressão exaltada ao ver o desenho: “- Vocês sabem o que é isso, crianças”? E fez um discurso veemente a respeito da guilhotina e temas afins.
A base teórica da Língua Francesa que recebi naqueles dois anos não foi esquecida. O mesmo ocorreu com o Inglês, sob a condução de Dona Norma e Mister Melo. A primeira, que nos deu os fundamentos gramaticais do idioma, era expressiva, hábil em sua didática e sabia nos motivar. Mr. Melo já era diferente. Passando um pouco da meia idade, primava pela fleuma e por ser absolutamente impessoal no trato com os alunos. Não sorria, mas diziam que fora do ambiente escolar era bastante amistoso, o que fora evidenciado quando recebera alunos em sua casa de Campos de Jordão durante as férias de julho. Por suas proporções corporais diminutas, entre nós era chamado de ‘Melinho’. A propósito, no segundo ano colegial, por ocasião do dia dos professores, nossa classe presenteou-o com uma lata de Neston.
Apesar de sua frieza aparente, ‘Melinho’, cuja pronúncia possivelmente adquirira nos 2 anos em que residira nos EUA – sabia ensinar. Organizava seminários sobre assuntos diversos, que podíamos ilustrar com cartazes e expor diante da classe. De forma lúdica, auxiliados pelo gravador de fita cassete que ele trazia, aprendemos a cantar Light my fire (na versão interpretada por Jose Feliciano) e The sounds of silence (Simon & Garfunkel), grandes sucessos em 1968 e 1969.
Acho ele nunca pronunciou uma palavra em Português durante as aulas. Era imperturbável, até mesmo no caso de tomar medidas disciplinares. Em uma segunda-feira, logo após a semana santa, ele chamou um aluno à frente para contar o que havia feito durante o feriado. Mal o aluno começara a falar, foi interrompido por um colega que exclamou em Português:
- “Diga que comeu bacalhau na sexta-feira santa! ”
A fisionomia inflexível e o tom de voz de Mr. Melo, com o dedo em riste a apontar para a porta e proferindo a frase: “The clown, in the circus” – foi um recado que o galhofeiro entendeu de imediato, retirando-se da sala.
Nos anos 1960 ainda não havia o empobrecimento e a homogeneização da linguagem escrita e seus desastrosos efeitos sobre o desenvolvimento intelectual dos jovens. Aprendíamos com a leitura dos livros físicos que eram adotados pela escola. No curso fundamental era a Cartilha Sodré, ou a Caminho Suave, e depois as brochuras de conhecimentos gerais da Carolina Rennó Ribeiro de Oliveira. Mais tarde viriam os livros das diferentes matérias, incluindo o Atlas Geográfico Escolar do MEC. Caso precisássemos ampliar nossa ‘erudição’, servíamo-nos de um recurso mais complexo: a Enciclopédia BARSA que, ao lado de outros títulos interessantes, integrava o acervo da biblioteca do colégio. Todo o conhecimento do mundo estaria ali naquelas páginas, que eram anualmente atualizadas pelo “livro do ano”.
Com o espaço físico simulando um aquário delimitado por duas paredes de vidro transparente e em sua lateral esquerda amplas janelas de onde era possível avistar o pátio e a piscina – o que lhe dava uma atmosfera agradável – a biblioteca era cuidada pelos olhos e ouvidos atentos de Dona Augusta. Quando nos reuníamos com colegas para trabalhos em grupo era inevitável conversarmos e inevitável sermos interrompidos por Dona Augusta que, com um olhar de madre superiora por cima dos óculos e o dedo indicador à frente dos lábios nos advertia sobre o princípio - hoje esquecido - de ser aquele um ambiente em que se deve guardar silencio.
Louvo aqui menos três professores aos quais devo o bom emprego do nosso idioma: no ginasial, ‘Geraldão’ e Maria Aparecida e no colegial, Walter. O primeiro, pelo modo sistemático e paciente com que nos fez aprender todas as conjugações verbais, a segunda por nos iniciar nos autores brasileiros clássicos do século XIX - Machado de Assis e José de Alencar. O terceiro, notável por sua elegância nos gestos e no falar – recurso do qual naturalmente se beneficiava a sua didática.
‘Geraldão’, quando o conhecemos era um professor de meia idade, pele morena, cabelos curtos e ligeiramente grisalho. Notabilizava-se por seu ar pachorrento e a forma cadenciada de articular as palavras, em especial ao término das frases. Seu olhar sério por trás dos óculos de casco de tartaruga quase nunca se arregalava e ele não costumava se expressar sobre assuntos que se afastassem do programa das aulas.
Gostava de passear pelas carteiras para ler o que anotávamos e por duas vezes ouvi sua voz (da segunda vez, menos sossegada) a me corrigir: “- Sujeito é com ‘Jota”! Intervenções proveitosas aquelas, pois se dali por diante se eu ainda ficasse em dúvida, ouviria sua voz a me alertar. Nunca mais errei a grafia.
Dificilmente perdia a paciência. Quando surpreendia uma menina em conversa, sua forma peculiar de chama-la à atenção era dizer, meio brincalhão, que ela estava muito agitada e aconselhava-a beber um chá de flor de laranjeira para se acalmar. Já com os meninos era mais rigoroso: tomava de uma caderneta preta (fazia questão de mostrá-la e ressaltar a sua cor) e anotava o nome do infeliz, asseverando que ao final do ano a abriria - uma espécie de dossiê a ser considerado para eventuais decisões que certamente não lhe seriam favoráveis. Nunca soubemos detalhes desse virtual desfecho embora alguns colegas se mostrassem preocupados (um deles chegou a chorar) ao terem seus nomes inscritos na tal cadernetinha preta.
Certa vez, mal começara a aula, ‘Geraldão’ mandou vir à frente para ser submetido à chamada oral um aluno que estava a alegremente a tagarelar. Abandonando seu suingue vocal, após uma rápida admoestação, disparou três perguntas em série, aguardando a resposta ao final de cada uma:
- “O que é próclise? “
- “O que é ênclise? “
- “O que é mesóclise? ”
O aluno - que de repente ficara sério - respondeu a todas corretamente. ‘Geraldão’ deve ter se desapontado, porque de modo lacônico, encerrou o interrogatório: - “Vá sentar”!
Porém, o maior legado que nos deixou ‘Geraldão’, além das redações às sextas feiras, foram as aulas semanais de conjugação verbal. Ele convidava um voluntário para ir à lousa (eram duas, sendo a lateral bem comprida, e tomavam duas paredes) e escrever todos os tempos possíveis de um determinado verbo. Pretérito perfeito, imperfeito, mais que perfeito, imperativo, futuro do subjuntivo, futuro do presente e do pretérito, e daí por diante. Quando o braço se cansava, ele chamava alguém para substituir. ‘Geraldão’ ensinava a conjugar e nós copiávamos no caderno aquelas formas verbais, que ficariam impressas de modo indelével em nossa na mente.
Houve pessoas que passaram por nossas vidas escolares, por contingência do destino, para que tivéssemos um contato inicial com os incontáveis traços que compõem o espectro da personalidade humana. Por terem índole diversa, alguns professores davam a impressão de que o calor humano seria algo remoto. Me reportarei a um deles, dada a importância da matéria na grade curricular e porque era, no mínimo, uma personagem curiosa. Durante 3 ou 4 anos letivos intercalados por algumas substituições breves e inesperadas - períodos em que assumia a direção do colégio - tivemos um professor de Matemática cujo nome não revelarei aqui – era o “A”, cujas iniciais eram OAC.
“A”, em geral começava o ano animado e com evidente disposição de ensinar. De fato, ele conhecia muito bem o seu ofício. Era impossível deixar de aprender quando ele estava naquela fase. Emprestava então clareza e entusiasmo às explicações, e o entusiasmo aumentava quando - nas raras vezes em que mudava de assunto - resolvia dissertar sobre a cidade de Brodowski - berço de Cândido Portinari - e dos planos de um futuro museu que abrigaria as obras do pintor. Não é à toa que deram o nome de Professor “OAC” à biblioteca municipal daquela cidade.
Até ali, estava tudo bem. O problema é que no decorrer do ano letivo OAC devia se enfadar: deixava então o empenho de lado e passava a ensinar de modo displicente, como se estivesse a dar a aula para si mesmo sem ter vontade. Independentemente do ânimo, não demonstrava empatia com os alunos e acho mesmo que os desprezava. Devia pensar que éramos todos uns “zé-manés”. Havia, contudo, exceções, que ele reservava às alunas bonitinhas. Se durante a aula, eventualmente as apanhasse em conversa paralela ou em atitude distraída, de modo jocoso ele as interpelava:
- “Fulana, o que é que há com o teu peru? ”
“Ãh? ”
- ”...o quê, você não tem peru? ”
Ou então:
- “Fulana, o que está olhando com tanto interesse pela janela? Está caçando homem? ”
- “?”
E o diálogo (que seria mais um monólogo) parava por ali. Talvez com aquela singular tentativa de prosa ele quisesse chamá-la aos brios e fazer com que prestasse atenção à aula. Nós, de certa forma nos acostumáramos a assistir tais abordagens, que de outro modo serviam de refrigério em nosso trabalho de acompanhar o raciocínio matemático.
Com os meninos já era diferente. Certa vez, incomodado com o súbito burburinho provocado por uma sonora emissão de gases desferida por um aluno da retaguarda e as risadas que se seguiram, OAC, sem paciência para apurar responsabilidades (do emissor ou de quem iniciara o desproporcional alvoroço), mandou para fora da sala um terceiro, que não tivera absolutamente nada a ver com o incidente. O irônico é que o colega expulso era um modelo de seriedade e circunspecção, tendo sido de um dos zombeteiros a autoria do traque.
OAC costumava chamar-nos à pedra para atuar como “cobaias” na resolução, em conjunto com a classe, de exercícios do ponto que acabara de expor. O jeito de se safar disso era não cruzar nossos olhares com o dele, o que nem sempre dava resultado. Ocasionalmente ele requisitava o incauto com palavras de ânimo:
“-Vai lá você, ô bucha de canhão! ”
E ai de quem não conseguisse resolver a equação. Ele o mandava de volta à carteira escoltado por vereditos promissores - “Futuro brilhante, heim? ”... e prosseguia: “Futuro brilhante igual ao sol da meia noite”. Todavia, acho que a maioria de nós sobreviveu.
Se não havia reclamações de nossa parte, é porque sua postura denotava autoridade ou por ele, de quando em quando, ocupar o cargo de diretor. Na verdade, houve uma exceção, que me foi revelada décadas mais tarde, por um ex-aluno que conheci casualmente. Nos fundos do colégio havia uma área onde os professores estacionavam seus veículos. Entrando lá, ele abrira o capô e despejara cimento no radiador do carro do “A.” – um Chevrolet Belair 1957 de cor verde e capota branca (pintura “saia e blusa”). Uma forma pouco ortodoxa de protestar contra as mencionadas provocações feitas a uma queixosa amiga sua. Tendo sido denunciado por um alcaguete, em represália “o enchera de porrada” (conforme suas palavras textuais). Em função dos eventos, acabou sendo expulso do colégio.
Em contraponto, no colegial tivemos uma professora de Matemática que era a encarnação da amabilidade. Dona Nilze recém se formara, mas desde então mostrava ter nascido para lecionar. De cabelos curtos que atrás terminavam como uma discreta penugem, exibia bom gosto ao usar brincos que combinavam com seu rosto. Atraente e com voz acolhedora, logo criou afinidade com a classe. Escrevia na lousa em cores diferentes e com caligrafia pequena e bonita.
Vejo-a agora com suas pernas finas, esbelta e com o sorriso que acompanhava o modo gentil de explicar. Por vezes sentava-se na carteira junto ao aluno, para tirar eventuais dúvidas, - gesto com o qual uma vez ela me agraciou. O inusitado foi que, ao sentar-se junto de mim, o semblante externando grande surpresa, ela perguntou:
- “Nossa, Heitor! Você se casou? E não disse nada? ”
O que Dona Nilze notara em minha mão esquerda era um anel que eu havia recém-ganho de minha avó e que estava casualmente virado ao contrário, o que lhe conferia a impressão de uma aliança. Devo ter ficado mais colorido do que os gizes que ela usava, pendendo francamente para o escarlate. Passada a comoção inicial, desvirei o anel e naturalmente esclareci os fatos, tendo então percebido seu alívio depois que revelei a verdade. Enquanto ela falava, cativado, eu a ouvia, e cheguei a devanear no que aconteceria caso eu, seguindo meu viés romântico, fosse adiante e lhe confidenciasse:
“- Não, Dona Nilze, eu jamais lhe trairia”. Mas me contive e foquei em suas explicações matemáticas. E pelos dias seguintes permaneci assim, meio encantado, ao pensar na deferência com que ela me tratara.
O esmero estético com que Dona Nilze escrevia na lousa era excepcional e de modo geral os professores dispunham desse recurso expositivo de modo mais ou menos ordenado e seguiam uma didática protocolar. Havia, entretanto, um caso incomum: o da professora de Biologia do curso colegial, Dona Maria Neves Calefi. Penso que ela escolhia os temas de modo aleatório - botânica, citologia, histologia, genética, e se valia do quadro negro apenas para enfatizar algum conceito que julgasse essencial. A segurança e a empolgação com que ela argumentava eram tais, que parecia ter sido a descobridora original dos mecanismos biológicos que estava a descrever. Assim, ela tornava interessante qualquer assunto. Não usava maquiagem e eventualmente chegava na classe exibindo olheiras. Creio que fumava e em geral sua fisionomia não era lá muito alegre – dava, vez por outra, a ideia de estar atribulada, com o quê nunca soubemos. Parece-me ouvi-la, neste instante, a falar sobre as teorias da evolução natural:
– “A necessidade não cria nada! ”, dizia, enfática, ao citar Lamarck. Comentava-se que Dona Maria Calefi dava aulas não como se fôssemos colegiais e sim alunos de faculdade. Para aprender com ela, não eram necessários decoreba ou livros – bastava entender - ela gostava de fazer os alunos pensarem. Se você prestasse atenção às explicações, iria bem nas provas.
Uma disciplina que para mim era pura recreação (além de Canto Orfeônico, com a estimada Dona Maria Vitória, com quem aprendemos a cantar cantigas de roda) era História. Tivemos sorte de contar com Dona Nancy e Dona Ivete. A primeira era uma nissei bem-disposta, que admiravelmente interpretava as reações dos indígenas à chegada das naus portuguesas e as cenas dos primeiros contatos com os descobridores – nas quais reproduzia até os diálogos, e como teria sido trocar espelhos e quinquilharias pelo trabalho dos índios em cortar e levar toras de Pau-Brasil para as caravelas. Teria sido aquele o embrião que inspirou o funcionamento dos três poderes no país?
Ambas eram comunicativas e não raro tornavam a retórica inflamada, o que ocorria sobretudo com Dona Ivete. Com mais idade - uma senhora na casa dos sessenta anos e de cabelos curtos - dramatizava ao narrar fatos da Antiguidade. Dava gosto, por exemplo, vê-la relatar, como se tivesse assistido, os embates de Martinho Lutero na Dieta de Worms, em face da Reforma Protestante. Se o tema era o Império Romano, ela nos jogava em pleno Coliseu no momento em que hordas famintas de sangue assistiam aos embates entre gladiadores ou estavam prestes a presenciar o sacrifício dos cristãos deixados à sanha dos leões. Era emocionante.
Não poderia encerrar estas reminiscências sem saudar a memória do Prof. Ademar, ou ‘Bananão’, termo com o qual, carinhosamente o identificávamos. ‘Bananão‘ lecionava Artes Industriais na terceira série ginasial para os meninos (as meninas tinham Corte e Costura). Era novo no colégio, tendo ingressado alguns meses após o início do ano letivo (não me lembro de seu antecessor, mas certamente era alguém bem mais expedito).
A razão do apelido possivelmente se devia ao estilo ‘boko moko’ ao qual ele juntava uma forma gradual de falar. Vestia um paletó surrado de tweed verde e um pouco justo, camisa de cor creme ou amarela, gravata vermelha e calças de qualquer cor escura, nada combinando muito...
Se ele fosse um disco de vinil, seria posto para rodar nas vitrolas antigas a uma rotação de 16 rpm. Na primeira aula que tivemos com aquele cavalheiro de idade ao redor dos 45 anos, fenótipo lusitano, hirsuto e que usava óculos de lentes verdes e grau razoável, chamou-nos a atenção, ao discorrer sobre veículos automotores, a definição que ele passou de um caminhão, enquanto tentava, sem muito sucesso, desenhar um exemplar na lousa:
- “Vamos ver, por exemplo... um caminhão...o que é um caminhão? Bem, um caminhão é um caminhão grande...”
Não havia correspondência entre sua lentidão ao argumentar e expor ideias e a fé que ele depositava em nós no cumprimento das tarefas que nos solicitava. Entre elas, a construção de uma maquete em madeira de uma via urbana (o que me deu bastante trabalho, pois na minha instalei até um poste com iluminação a pilha) e a montagem de uma campainha elétrica.
Porque víamos no Prof. ‘Bananão’ uma boa alma que acreditava em nós, habitualmente não o decepcionávamos. Bem, não posso generalizar. Em relação à última incumbência mencionada, ficou notório o caso do dispositivo fabricado por um colega, que ao ser testado em sala de aula, pegou fogo logo após ser ligado na tomada. Tudo foi repentino – ao som seco seguiu-se a fumaça e eu vi ambos - professor e aluno - estatelados no chão. Mas fora o susto, o cheiro de queimado e eventuais chamuscos, a demonstração parece não ter causado outros efeitos adversos. A não ser o fato de ‘Bananão’ ter desenvolvido uma certa cautela em relação ao construtor do artefato.
“Bananão” era um idealista. No contexto pedagógico, seu sonho era restaurar o motor de uma Kombi velha estacionada próxima ao hall de entrada do teatro do colégio. Animava-se com a reforma e botava fé na gente para ajudá-lo a executar a empresa. Porém, os anos se sucediam e a Kombi continuava inerte no mesmo lugar. Por fim, constatamos, desapontados, que sua aspiração não se realizara provavelmente por falta de fundos. Mesmo sem o projeto ter se realizado, o que considero uma pena, foi estimulante alimentar a ideia – afinal, o Bananão, apesar do cunho da matéria que lecionava, como muitos de nós não abria mão de uma poesia...
Olhando através das perspectivas de então e as de hoje, os professores que mencionei tiveram participação marcante em nossa formação primária e secundária, ou pelo menos eram os que mais próximos estiveram de nós. Obviamente havia outros e quero citar aqueles de quem eu gostava: Franco (Educação Física) – entusiasmado e cordial; Neide (Geografia) com sua boa vontade e empatia; Ademir Potiens (Português), sempre agradável nos poucos meses em que nos deu aulas; os sóbrios e competentes Edmur e Dona Jair (Desenho Geométrico) e no terceiro colegial noturno, a tranquilidade do Siegfried (Química) e o dinamismo da Conceição (Biologia).
Na era da informação efêmera e descartável, os mecanismos de busca da internet identificarão muitos poucos dos nomes aqui citados. Decorridos cinco ou seis décadas, ignoro se o colégio guarda registros do período. Pode ser que se encontre alguma informação no Arquivo Público do Estado de São Paulo, mas da forma em que os dados estão lá armazenados, por experiência sei que demoraria muito tempo para se localizar informações de interesse.
E o que importa? Suas lembranças permanecerão vivas nos corações e mentes dos alunos e também aqui, nestas linhas.
Heitor, junho de 2026