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A mulher que gostava de brincar

Do nada, ele se viu em meio a uma movimentação de pessoas que conversavam. Não era possível identificar o local. A atmosfera era de certa alacridade e os rostos, de feições indistintas. Em um plano mais afastado havia uma mulher de semblante agradável, de cabelos aloirados que não condiziam com a pele morena. Se a cor dos cabelos era um artifício cosmético, de relance não era possível saber. Não podia afirmar se este seria o motivo do burburinho, mas segundo entendimentos tácitos (assim, lhe pareceu) ela se deitava com todos.

Mantendo-se afastado, ele observava a animação alheia – cuja razão não era difícil de entender, quando, ao longe, a mulher lhe acenou para que se aproximasse. Discretamente ele assentiu, ainda que meio contra a vontade. Porque não queria ir com alguém que se deitava com todos. Porém, sorrindo, convidativa, ela o atraiu para sua cama. Uma cama de lençóis claros, ele não distinguia mais do que isso.

Pensou que ficaria mal não aceitar. E ela já estava lá, despida, com um ar acolhedor, argumentos que acabaram por alicia-lo. Sem grande entusiasmo, ele acomodou-se em seu corpo. À medida que evoluíam, veio-lhe a impressão de que seus movimentos, em que empregava músculos e não sentimentos, eram similares aos de um metrônomo. Absorvido pela faina mecânica, seu olhar não se firmava em nenhum ponto em particular, mas ao ergue-lo levemente por um momento, notou que ela exibia uma tatuagem que se estendia como uma faixa ampla acima do umbigo. De contornos geométricos básicos, lembrava um mosaico de pequenos retângulos coloridos que se juntavam em um padrão regular, como na estampa de uma peça de tecido. Conjecturando vagamente sobre o significado de tais formas, anteviu que não iria muito longe naquele intercurso. Foi quando ela, gentilmente, quis saber porque ele não se empenhava com mais vontade.

Naquela altura ele já passara do andamento Allegro Moderato para o Adagio. Argumentou que, afinal, não poderia ser diferente, tratando-se de alguém que ia com todos. Ao que ela retorquiu, espontânea e candidamente, como se revelasse a coisa mais natural do mundo: 

-- Pois por toda a vida eu fui assim... sempre gostei de brincar!