Legere
Já
disseram que à medida que se envelhece, o passado torna-se mais interessante.
Este
não é um inventário de livros, apenas um breve recordatório, em que procurei me
lembrar dos que encontrei pelo caminho e as circunstâncias em que me foram
apresentados. Restringi os critérios de seleção à qualidade literária, ao valor
sentimental e ao entusiasmo com que foram lidos – notadamente os infantis. Uns
tantos que considero de boa qualidade, ficarão de fora, porque não couberam
nesta régua. Haverá aqueles de que gostei, mas que fugiram da lembrança (quem
sabe voltem um dia). E eventualmente aparecerão exceções que não preenchem os
dois primeiros parâmetros. Então, na prática, a escolha foi arbitrária, baseada
em afinidades e na memória.
Trilha inicial
Em
princípios de 1959, aos seis anos de idade, fui alfabetizado, o que me lançou
no mundo da leitura. Das pequenas histórias de livros que ganhava de meus
familiares do Sul, me agradou particularmente a de um camponês, que por ouvir
relatos de que se poderia ganhar dinheiro e ser próspero, decidira tentar a
vida na cidade grande. Decorridas semanas em que se mudara, na noite de um dia
cansativo e infrutífero, como os demais desde que lá chegara, ele estava só em
seu quarto da pensão. Desiludido por ter
sido passado para trás por indivíduos em quem acreditara, ele matutava com seus
botões sobre o que fazer, quando ouviu chamarem-no pelo nome. O som parecia vir
do armário de madeira à sua frente, o que o deixou intrigado. E entrou em
sobressalto quando, apresentando-se, a voz lhe revelou ser uma velha árvore que
ele conhecera no sítio onde morava. Agora, na forma de um móvel, conversava com
ele, tentando consolá-lo. Sábia, velha árvore alertou o rapaz sobre as maldades
do mundo e deu-lhe conselhos prudentes. Um pouco aliviado de sua tristeza,
depois de refletir, ele decidiu retomar à vida frugal e saudável que deixara em
seu rincão no campo, para continuar ao lado dos seus. Aquele conto simplório
chamou minha atenção por tratar dos perigos do mundo, do valor das coisas
simples e honestas e sobretudo da amizade.
Em
1960, alguns livros me ajudaram a subsistir face às três mudanças de escola e
de domicílio pelas quais passara nos últimos seis meses. Um dos primeiros foi Peter
Pan, que meu pai me comprou em uma livraria-papelaria quando subíamos
a rua Voluntários da Pátria. Era uma edição da Melhoramentos baseada na
adaptação simplificada da história do escocês JM Barrie feita por Walt Disney
em seu longa-metragem - o bastante para me cativar. Depois, Os mais belos
contos de fada tchecos (Editora Vecchi), de capa dura, que ele
trouxe em uma noite ao chegar em casa, como presente dado por não me lembro
quem – possivelmente de sua madrinha de formatura na Escola Técnica de Aviação.
Este livro, com texto mais elaborado, me animou por conter histórias de
cavaleiros da Idade Média.
Meu
universo literário era então povoado por criaturas fantásticas e personagens
heroicas. Era um começo. A seguir vieram Histórias das mil e uma noites, O
patinho feio, Soldadinho de chumbo, Robinson Crusoé (Daniel Defoe) a coletânea Histórias da Carochinha e Viagens de Gulliver (Jonathan Swift)
entre os que eu me lembro, e livros eu adquiria com o dinheirinho que vinha do
Sul pelo correio, junto com as ansiadas cartas de minha avó e minha tia Esther.
Naquele
mesmo ano fomos presenteados com duas obras clássicas por um dos irmãos do meu
pai, o tio Sergio, que era vendedor de livros. Minha mãe recebeu uma Bíblia
ilustrada, em dois volumes - o antigo e o novo testamento. De encadernação
luxuosa e capa vermelha, a edição primava por ilustrações a cores de matizes
sinistras. Impressionaram-me a figura de Lúcifer, a visão uma cisterna, as
imagens do julgamento de Cristo, e sua tentação no alto de uma montanha com o
diabo a oferecer-lhe “todos os reinos do mundo”, a figura de Barrabás, e o
desespero de Judas a caminho da oliveira onde se enforcaria. No velho
testamento, o jovem Davi, com sua funda, a enfrentar Golias. Mas
prefiro falar da coleção de três livros que ganhei, em capa dura de cor azul,
chamada Paraíso Infantil - A palavra através da imagem e da cor, que seria meu Vade mecum por um tempo. Na simplicidade dos meus oito anos,
em 1961 emprestei-o à dona Maria do Carmo Rocha, minha inesquecível professora
do terceiro ano primário, para que ela atestasse pessoalmente o quão instrutivo
e interessante era o conteúdo de suas páginas.
Desconfio que ela não tenha chegado a ler.
Certos
livros aos quais tive acesso entre 1960 e 1961 me agradaram. Reservo um lugar
especial ao infantil de Érico Veríssimo (Gente e Bichos) e a Os doze
trabalhos de Hércules de Monteiro Lobato, um mergulho inicial na mitologia
grega, cujo primeiro tomo li em seis dias, durante as férias de julho de 1961.
Em alusão à infância, reproduzo a primeira estrofe de “Meus oito anos” de
Casimiro de Abreu, que não por acaso conheci quando estava próximo dessa idade:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que
flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Fui
feliz em contar com uma boa biblioteca municipal, que ficava bem em frente
grupo escolar onde eu estudava. Em meio de uma ampla área ajardinada, a sede da
Biblioteca Narbal Fontes - imóvel tombado - é uma casa de formas arquitetônicas
normandas. Era para lá que eu e meu irmão íamos após concluir as lições de
casa. Mais do que biblioteca, simbolizava uma figura materna dadivosa a
alimentar seus filhos com suas estantes repletas de livros infanto-juvenis que
eu levava emprestados todas as semanas. Há menos de 1 ano conversei por
telefone com a bibliotecária para buscar informações sobre a escola em que
estudei ao chegar São Paulo. Atenciosa, ela não demonstrou ter pressa e
entendeu o meu intento, que era o de resgatar a memória escolar.
Um dia
retornarei lá.
Itinerários
Embalado,
lia espontaneamente tudo que encontrava, incluindo as Seleções do Readers Digest, Marcelino Pão e Vinho, Pinocchio (o
original de Carlo Collodi) e mais tarde o Tesouro da Juventude. Este
último, uma maravilhosa enciclopédia ilustrada em dezoito volumes, foi
presenteado por minha tia Esther em dezembro de 1962; lembro-me da euforia com
que ia retirando um a um, os volumes da caixa entregue pela VARIG.
Através
da leitura, eu entrava em um mundo desconhecido e às vezes mais instigante do
que o real. Nenhuma tela, algoritmo ou realidade virtual substitui as
impressões e a representação das imagens produzidas pelas conexões mentais que
ativamos ao ler uma história. É lamentável que as novas gerações não saibam
disso, e provavelmente não venham a saber.
A
partir dos dez anos de idade eu seguia conhecendo a essencial coleção de livros
infantis de Monteiro Lobato, alguns emprestados de amigos e colegas, como Geografia
de Dona Benta, Aritmética da Emília, Peter Pan, Caçadas de Pedrinho,
edições simplificadas das obras de Charles Dickens (Conto e Natal),
Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, Os Irmãos
Corsos), e as Viagens de Marco Polo.
De
regra, eu ficava à mercê do que meu pai trazia para casa - exemplares de
Seleções do Readers Digest e respectivas condensações de livros (através
dos quais travei contato com bons escritores, entre os quais Daphne Du Maurier
na edição em Inglês de The Scapegoat, A.S. Exupéry em Céus e Abismos,
John Fante em Estuante de vida
e Patrick Quentin com A viúva negra. Além destas há outras de que gostei
e que são mencionadas ao final do texto*.
Havia
também os da Biblioteca do Exército, que meu pai assinava; à medida que iam
tomando lugar na estante da sala, eu procurava ler, se me interessassem - e o
periódico mensal Revista Aeronáutica. Não poderia omitir Grandes benfeitores da humanidade, que
ganhei de meu pai no dia da cerimônia de formatura do curso primário, em que me
chamaram a atenção, sobretudo Benjamin Franklin, e da dupla de cirurgiões
dentistas - Thomas Green Morton e o (infeliz) Horace Wells que, a partir do gás
hilariante, desenvolveram a anestesia. E guardado na parte interna da estante
da sala, História da Civilização Ocidental, clássico de Edward McNall
Burns publicado em dois volumes pela Editora Globo (Porto Alegre), de capa
amarela e preta e em edição de 1947. Obviamente, não li na íntegra, embora
gostasse de consultá-lo com frequência.
Durante
os últimos anos da década de 1960, como parte do ensino de Português, li José
de Alencar (O Gaúcho, Senhora e A Pata da Gazela), Machado de Assis (Quincas
Borba, Helena) e voltaria a Érico Veríssimo com Clarissa e Música
ao Longe, entre outros.
Dos
livros da Biblioteca do Exército, as biografias de Heinz Guderian, de Otto
Skorzeny, Rommel e a invasão da Normandia, A Revanche dos dois
vencidos (de Max Clos e Yves Cuau, sobre o reerguimento econômico da
Alemanha e do Japão no pós-guerra), Arquipélago
Gulag, relato desolador escrito por Aleksandr Soljenítsin sobre o período
em que ele e outros dissidentes permaneceram em campos de trabalho forçado na
antiga União Soviética.
Guardo
até hoje História Secreta da Última Guerra, das Seleções do Readers
Digest - crônicas sobre episódios vividos por seus protagonistas ou
narrados por bons jornalistas correspondentes de guerra. Todas eram muito bem
escritas, tendo me chamado a atenção Lindberg
Narra seu Primeiro Voo de Guerra, em que Charles Lindberg, em prosa
ligeiramente romântica, filosofa sobre o porquê de os homens se baterem em
guerras; Uma noite inesquecível - relato de uma noite de bombardeio em
Londres em 1940; o dramático O fim do Bismark e o animador Como
Heidelberg foi salva, sobre um patrimônio mundial que eu viria a visitar
muitas décadas depois.
Nesta
mesma linha, havia os livros da Editora Flamboyant sobre a guerra aérea, que
devorávamos eu e meu irmão até princípios dos anos 70 – Piloto de Stuka,
Fogo no Céu, Príncipes do Céu, A Grande Caça e o Grande Circo, em
que Pierre Clostermann narra histórias vividas por ases de ambos os lados e por
ele mesmo. E Missão 60, em que Fernando Pereyron Mocellin conta a sua
saga para se tornar piloto de caça e integrar o grupo da FAB que lutou nos céus
da Itália durante a II Guerra Mundial.
No
início do curso colegial, tendo me filiado ao Clube do Livro, chegaram pelo
correio O Espião que saiu do frio (John le Carré) e outros, como Da
Terra à Lua (Jules Verne). Seguiu-se um período refratário, em que meu
interesse era mais voltado para o futebol, mas não deixava de reler alguns dos
que tinha em casa. Foi o caso de Urupês, de Monteiro Lobato, que minha
irmã lera como tarefa escolar. O escritor, deixando de lado a influência da
literatura francesa, comum na época, conta histórias da gente do interior - ora
engraçadas ora trágicas - em linguagem genuinamente nacional.
Referências
Durante
o curso superior, por sugestão de um colega - que gostava de assumir ares de
erudito ao fazer digressões sobre assuntos que não dominávamos – li Somerset
Maughan (O fio da navalha), George Orwell (1984) e Johannes Mario
Simmel (Nem só de caviar vive o homem). Garimpando na então moderna e
ampla Biblioteca Municipal de Campinas encontrei o Admirável mundo novo
(Aldous Huxley) e Histórias que mamãe nunca me contou (Alfred
Hitchcock).
Mais
tarde, em 1978, a curta convivência com uma moça formada em Letras (Português e
Alemão) ensejou que eu ganhasse de Natal Batismo de Fogo (Mario Vargas
Lhosa) e, por sua recomendação, voltasse a me encontrar com Érico Veríssimo no
irreal Incidente em Antares. Dele, só recentemente li Olhai os Lírios
do Campo.
Há
outros que me foram indicados ou ganhei de pessoas que gostavam de ler: O
conto da ilha desconhecida (José Saramago), História da Música (Otto
Maria Carpeaux), Poetas Russos (vários), Contos Dublinenses
(James Joyce) e A peste, de Albert Camus, de quem leria também os
igualmente lúgubres O estrangeiro e A queda, e por último,
Diário de Viagem.
Quando
compartimos interesses com alguém de quem gostamos, estabelece-se
espontaneamente um elo mental que pode favorecer o afetivo e o resultado será
profícuo para ambos. De certas pessoas recebi referências sobre livros e até
motivação para ler. Duas mulheres com as quais tive ligação deram, cada uma à
sua maneira, contribuições decisivas para ambas as coisas.
A
primeira me levou a conhecer Jorge Amado (de quem ela lera tudo) - Farda,
fardão, camisola de dormir (mostra as tramas políticas para se conseguir
uma vaga na Academia Brasileira de Letras), depois Navegação de Cabotagem
(nesse ele estava mais engraçado) e Zelia Gattai, sua esposa. Às vezes
privávamos da leitura juntos, em revezamento, caso de Não verás país nenhum
(Ignacio de Loyola Brandão) comprado em uma manhã de quinta-feira santa na
antiga Livraria Cultura do Conjunto Nacional, e que no mesmo dia nos fez
companhia durante um acampamento (Hans Camping) em Penedo, na Serra da
Mantiqueira. Do autor viríamos a ler outros, com ênfase para O beijo não vem
da boca, Cabeças de segunda-feira e O verde violentou o muro. A
série de nossa comunhão literária é grande, notavelmente George Orwell, de quem
gostei mais na fase prévia a 1984 e Revolução dos Bichos, talvez
por ele acenar com pelo menos um fio de esperança na humanidade. Poucos livros
fizeram com que eu me identificasse mais com um escritor do que Lutando na
Espanha e Na penúria em Londres e Paris. Neste último, parece que
vivemos as suas desventuras junto aos camaradas pobres, vagabundos e tipos
excêntricos que integravam a população flutuante das pensões sujas e albergues
que lhe serviram de moradia nos tempos em que se viu sem dinheiro. Pode ter sido naquela época que adquiriu o
bacilo de Koch que iria levá-lo aos 46 anos, em 1950. Na sequência,
leríamos Dias na Birmânia, A Clergyman’s daughter, A caminho de Wigan, Keep
the Aspidistra Flying e Um pouco de ar, por favor.
Não
haver um aparelho de TV em casa foi um fator adjuvante, porém, a força
primordial para ler vinha de nossa vontade inata. O catálogo prosseguia: A Era da Incerteza
(John Kenneth Galbraith), A República de Weimar (Lionel Richard), Paris
nos tempos do Rei Sol (Jacques Wilhelm), A Guerra do Fim do Mundo
(Mario Vargas Lhosa), Walden - A vida nos bosques (Henry Thoreau)
e alguns sombrios contos de Kafka (Um artista da fome, A construção, A
Metamorfose) são os que me lembro agora, além de O Beijo da Mulher Aranha
(Manuel Puig), Mad Maria, A Condolência e A ordem do dia do
amazonense Marcio de Souza; Chega de saudade, O Livro de Insultos de
Mencken e A estrela solitária (Ruy
Castro); Cem Dias entre Céu e Mar (Amyr Klink); Ensaios Insólitos (Darcy
Ribeiro) e das histórias engraçadas do Luís Fernando Verissimo. E claro,
chegaram às nossas mãos aqueles de cunho histórico e marxista, como os dos
festejados Paul Singer e Hobsbawn, que estavam em voga, e cujas ideias nos eram
simpáticas por sermos jovens e crédulos - e, portanto, pouco informados. Nestes
não irei me deter. A título de citação, guardo, pelo valor documental, uma
edição em Português do propagandístico e caricato História da URSS – breve
relato da construção da sociedade socialista, que descobrimos por acaso
quando visitávamos uma livrara em Budapeste, em 1984.
Lembro-me
de De Caligari a Hitler - História psicológica do cinema alemão, de
Siegfried Krakauer, e de Lanterna Mágica, autobiografia de Ingmar
Bergman. Nos últimos tempos juntos, Imagens (Ingmar Bergman), que ela me
presenteou, Everest: Viagem à Montanha Abençoada (Thomas Brandolin) e
aquela considerada como a melhor biografia de Freud: Freud - Uma Vida para o
Nosso Tempo, de Peter Gay, que li panoramicamente e estimulado mais pela
perspectiva histórica do que por suas ideias.
Graças
àquela mulher de riso espontâneo e sorriso envergonhado, que primava pelo senso
prático, entendi a filosofia de Exupéry em O Pequeno Príncipe, que não é
um livro apenas para crianças. Os primeiros anos em sua companhia foram
auspiciosos, tamanhas eram as certezas que tínhamos e tantas as coisas novas a
descobrir.
Da
segunda, embora de início lhe tivesse
notado encantos, não a vislumbrara como uma jovem da qual um dia eu pudesse me
aproximar. Isso mudaria quando ela passou a me fazer companhia com suas
conversas sobre livros, nas altas horas de plantões que vivemos juntos.
Então eu passaria a conhecer mais profundamente Saint-Exupéry, através de Terra dos Homens (na tradução de
Rubem Braga), Correio Sul e Voo Noturno, me depararia com o
estranho mundo DH Lawrence (O amante de Lady Chatterley), leria contos William
Faulkner e O corvo (Edgar Allan Poe) - segundo ela dizia, o poema
mais traduzido do mundo. Na tradução ímpar de Fernando Pessoa, transcrevo
abaixo suas duas primeiras estrofes:
Numa
meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos,
curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já
quase adormecia, ouvi o que parecia
O som
de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma
visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só
isto, e nada mais."
Ah,
que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o
fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como
eu quria a madrugada, toda a noite aos livros dada
Pra
esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais
-
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas
sem nome aqui jamais!
Conversávamos sobre tudo - coisas importantes ou
não, e as ideias fluíam como as ondas de seus cabelos - longos e de uma cor
viva e marcante. Ela estava sempre em dúvida e costumava dizer que não confiava
em ninguém, nem nela própria. Mas onde encontrar alguém para discutir
Saint-Exupéry (que não só O Pequeno Príncipe), personagens da revolução
francesa (entre eles, Marat, cuja biografia me presenteou), e que
tivesse lido, de Michel Quoist , O Diário de Ana Maria?
O material de que era feita - uma mistura incomum de
pragmatismo e leveza – dava-lhe um encanto psicológico que me atraía. Lembro-me
do fim de tarde em que ao sair do trabalho a avistei no ponto de ônibus, antes
de um temporal que se anunciava. Movido por reflexo, parei e ofereci-lhe
carona. O vento que fazia voar as folhas das árvores e a visão quase onírica de
sua figura - a pele muito clara, os cabelos ondulados e revoltos - que
contrastava com tudo...ela aceitara e fomos conversando, como se nos conhecêssemos
de longo tempo.
Um dia me dei conta de que ela iria partir.
Tomado por uma sensação amarga diante de sua ausência iminente e antevendo que
o mundo ficaria desinteressante, escrevi e enviei a ela algumas linhas...
Dias depois, no final da tarde, eu me preparava para sair do trabalho, quando fui informado de que havia
alguém querendo me ver.
Era ela. Alegre e expansiva, trazia consigo um
diário de sua época de escola e um livro sem capa, de páginas amareladas pelo
tempo - aparentava ser um romance passado na corte do rei Luís
XIV. Apontando algumas frases - em seu olhar transparecia uma discreta
cumplicidade - parou em uma que dizia: ‘o amor pode tudo’. Eu, que nunca
recebera uma resposta tão suave, e agradavelmente surpreso com sua visita
imprevista, levei-a até o ponto de ônibus e sugeri que continuássemos a
conversa em outro lugar naquela noite, com o que ela concordou...
O bar estava iluminado e quase vazio ao chegarmos.
Acomodamo-nos, ela conduzida por palavras e eu, por pensamentos. Pareceu-me
ouvir ao longe - não me lembro se naquele instante ou depois - um bandoneon
discreto. Porque meus sentidos estavam atentos a outro foco: os contornos de
seu rosto, os ombros e o som de sua voz.
Tomado pela lucidez que nos assiste nos momentos
cruciais, percebi claramente que não havia mais o que falar ou pensar. Em certo
momento, encontrando uma brecha em meio à sua loquacidade, pedi-lhe alguma
coisa...Calados, juntamos tacitamente as mãos e olhamo-nos nos olhos. Assim
ficamos por instantes até que eu a puxei para mim - nossos lábios se
encontraram e então senti, visceralmente, o mesmo gosto e leveza que sentia
quando conversávamos. E à medida que sobrevinham, as sensações me transportaram
para aquilo que eu viria a ler, anos mais tarde, no epílogo de um conto de
Thomas Mann: “Pois uma felicidade, um pequeno
calafrio e atordoamento de felicidade toca o coração quando aqueles dois mundos
entre os quais oscila nosso anseio se tocam por um breve, enganoso instante”.
Nas ocasiões em que dava o ar da graça - estava
sempre a transitar e nunca permanecia em definitivo - ela certa vez me dissera
estar desconfiada de viver a encarnação de uma personagem histórica - Desiré,
que até ali eu desconhecia. Naturalmente achei estranho, e decidido a
investigar, adquiri o livro do mesmo nome, da autora Annemarie Selinko, que
narra a história de Bernardine Eugénie Desiré Claire, a primeira noiva de
Napoleão Bonaparte e que mais tarde seria, como esposa do Marechal Bernadotte,
rainha da Suécia.
Não
irei me alongar sobre o insólito relacionamento - as breves passagens aqui
resumidas são suficientes. Digo apenas ter sido ela um dos fatores que animaram
a vontade de escrever que desenvolvi na época.
Movimento inercial
No
compasso daquela fase apareceram Contos breves – O mago apodrecido de
Guillaume Apollinaire, Contos Fantásticos – O Horta & outras histórias
de Guy de Maupassant, Memórias de Lorenzo da Ponte - o principal
libretista de grandes óperas de W.A. Mozart, Clepsidra (Camilo Pessanha,
poeta do Simbolismo português – de quem enfatizo a sublime esperança
transmitida por Caminho), A paixão transformada (uma crônica
excelente de Moacyr Scliar sobre a história da medicina na literatura). Continuando,
Eu, de Augusto dos Anjos, que sabia extrair arte da
decadência e da morte, como nos versos:
Velho caixão a carregar destroços
Levando apenas na tumbal carcaça.
O pergaminho singular da pele
O chocalho fatídico dos ossos!
Vêm-me à imaginação sonhos dementes.
Acho-me, por exemplo, numa festa...
Tomba uma árvore sobre a minha testa,
Caem-me de uma vez todos os dentes!
E A Divina
Comédia, traduzida em prosa por
Hernâni Donato. Assim começa Dante Alighieri antes de encontrar o poeta
Virgílio, que o conduzirá por sua jornada :
No
meio do caminho desta vida me vi numa selva escura, onde me perdi da verdadeira
via. Ah, mas como é duro falar desta selva selvagem, que, só de relembrá-la,
traz-me de volta o pavor que lá senti. Tão amarga era que só à morte se
compara. Mas para tratar do bem que lá vi, direi de outras coisas que lá
encontrei.
Gostei
de ler a versão que, para leitores simples como eu, serve como prime para o poema original. Mas a interrompi quando Dante, depois de atravessar o
Inferno (onde convenientemente alojou seus inimigos) e o Purgatório, chega por fim ao Paraíso. Achei-o
insípido
Mais
adiante Flores do Mal (Baudelaire), Por um punhado de Gitanes (biografia
de Serge Gainsbourg), A estrada (Jack London), Servidão humana e O
destino de um homem (S. Maugham) além das biografias do cineasta François
Truffaut, de WA Mozart, de Exupéry, e de Beethoven. Nesta última, o autor
(Lewis Lockwood), docente aposentado de música em uma universidade americana
famosa, se excede nos termos técnicos e arrisca-se a evocar imagens do que
teria ido na cabeça do Beethoven para criar essa ou aquela composição. Se
excede ainda mais ao fazer comentários - a meu ver enviesados - sobre o
panorama político da época. Como não tenho erudição para entender as
peculiaridades teóricas de peças musicais e acho que o autor não deve ter
conhecimento apropriado para dissertar sobre a realidade europeia de então, não
fui além da metade do livro.
Devemos
louvar os escritores que mais contribuíram para nossa jornada literária. Na ordem em que me foi dado ler suas obras,
figuram no panteão, em ordem cronológica: Érico Verissimo, Machado de Assis,
George Orwell, Antoine de Saint-Exupéry, Hermann Hesse, Thomas Mann,
Dostoiévski, Liev Tolstói, Nikolai Gogol e Charles Dickens. Da literatura
infantil, Monteiro Lobato, Hans Christian Andersen e os Irmãos Grimm. Dos
pensadores, Arthur Schopenhauer (O mundo como vontade e representação e A
arte de escrever entre muitos); dos cronistas, Rubem Braga e dos poetas,
Mario Quintana, Fernando Pessoa (Quando fui outro), Manuel Bandeira (Meus
poemas preferidos), Carlos Drummond de Andrade (Memória; A bunda, que
engraçada) e Emily Dickinson (A Água se aprende pela sede...).
A propósito de poesia, por intermédio de uma psicóloga com quem tive alguma
interação cultural - e que admirava Lou Salomé - conheci Rainer Maria Rilke (Frutos
e Apontamentos, Histórias do Bom Deus, Cartas a um jovem poeta):
Reste
tranquille, si soudain
l’Ange
à sa table se décide:
efface
doucement les quelques rides
qui
fait la nappe sous ton pain.
Tu
offriras ta rude nourriture,
pour
qu’il en goûte à son tour,
et
qu’il soulève à la lèvre pure
un
simple verre de tous les jours.
Em um
plano não tão alto, merecem ser reverenciados: John Fante (A Caminho de Los
Angeles; Pergunte ao pó; Espere a Primavera, Bandini; O Vinho da Juventude; A
grande fome; Sonhos de Bunker Hill; 1933 foi um ano ruim) que, segundo
outro grande, Charles Bukowski, escrevia com as entranhas e o coração, e os que
mencionarei a seguir:
William
Somerset Maugham, hábil criador de tramas, era médico, mas não exerceu a
profissão; tendo atuado pouco tempo como agente do Serviço Secreto Inglês,
viveu sua longa vida para escrever.
Oscar
Wilde, gênio da prosa e da ironia e crítico sutil e sagaz das farsas sociais em
seus contos, poemas e histórias de fadas em que acontecia de tudo, menos um
final feliz.
De
Ernst Hemingway, aclamado pela crítica por seu estilo simples e direto, gostei
de Por quem os sinos dobram (na tradução de Monteiro Lobato, superior às
demais), O sol também se levanta, Paris é uma Festa e dos contos As
Neves do Kilimanjaro e Lá no Michigan e nem tanto de Adeus às
armas. Em Paris é uma Festa, publicado postumamente, o autor evoca a
Paris dos anos 20 – para onde iam os intelectuais e artistas da época – em uma
aparente atmosfera de otimismo, leveza e até humor, o que destoa das outras suas
histórias.
Erich
Maria Remarque, vim a descobrir tardiamente, embora tivesse adquirido o célebre
Nada de Novo no Front vinte anos antes, na mesma época que O lobo da
estepe e também por 3 reais. Porque me agradei tanto do livro, li quase
todos os demais de sua autoria – em geral de segunda mão ou no formato de
e-book, por não haver mais edições impressas. Entre eles, destaco Arco do
Triunfo, Uma noite em Lisboa e Três camaradas que deram origem - a
exemplo do primeiro e de outros - a filmes em que atuaram grandes nomes de
Hollywood. O melhor deles The night in Lisbon (Die Nacht von Lissabon)
que em minha opinião transmite a atmosfera de temor e de esperança
angustiante de suas histórias, foi dirigido com rara
sensibilidade pelo tcheco
Zbynek Brynych em 1971, tendo a interpretação marcante de grandes atores
alemães (https://youtu.be/R50rPYCJMuc?feature=shared). Nessa e em quase todas as suas histórias há medo, sofrimento e morte,
mas também amor, lealdade e esperança, vividas nas sagas das personagens que,
como ele mesmo, escaparam ou tentaram escapar do regime que dominou a Alemanha
de 1933 a 1945.
Stephan
Zweig, cuja vida foi abalada por duas guerras mundiais, escreveu Três
novelas femininas e as biografias de Tolstói e de Freud (com quem teve
alguma convivência). Retratou a nostálgica Viena de outros tempos em Autobiografia
- O mundo de ontem. Tendo perdido o seu mundo, veio se exilar em
Petrópolis, no Brasil, onde teria, junto com sua companheira, um triste
desenlace.
Há os
eu comecei e não terminei, como Em busca do tempo perdido, de Marcel
Proust (pulei o volume 4 e não fui além do 5) e O homem duplicado (José
Saramago). Tenho uma edição em Português de Portugal (Editora Europa América)
de 20.00 Léguas Submarinas, de Júlio Verne, que comecei e não fui
adiante por já conhecer a história (as edições para crianças eram muito
divulgadas em 1962) ... e é óbvio haver
um número infindável dos que gostaria de ler e ainda não li, ou li apenas
trechos - caso de Fausto, de W. Goethe, e de autores que provavelmente
não chegarei a ler, como Miguel de Cervantes, Gustave Flaubert, Mark Twain, e
Stendhal (O Vermelho e o Negro, de quem a segunda jovem mencionada dizia
gostar).
E de
novo, os livros que estavam bem à vista nos mostruários das livrarias acabaram
me alcançando, como O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (do
neurologista Oliver Sacks), O Físico (Noah Gordon) - história
interessante sobre os primórdios da Medicina, mas de narrativa linear e
insípida; O dia em que Nietzche Chorou, e Sobre a China (Henry
Kissinger) além de outros de que não me lembro.
Os que que foram e
não voltaram
No afã
de compartilhar leituras que eu havia gostado com pessoas de quem gostava,
perdi de vista, definitivamente, alguns bons livros. Teria sido por
esquecimento delas? Não. Penso que tinham por hábito adotar o meigo princípio
segundo o qual “o que meu é seu”, só que invertido – “o que é seu, passa a ser
meu...”. Entre tais livros estão Nêmesis Médica – A expropriação da Saúde
(de Ivan Illich, que comprei em 1980 em uma livraria na rua 24 de Maio), A
velhinha de Taubaté, Cabeças de segunda-feira, Keep the Aspidistra
Flying, emprestados a amigos que à época professavam o socialismo oposto ao
que pregou Jesus, ou seja, ao invés de pegar suas coisas para dividir com
próximo, pegavam as coisas do próximo para dividir com os seus. Correio Sul
e Voo Noturno acabaram ficando para aquela que gostava tanto do Exupéry,
além outros que não me ocorrem agora.
Mais tarde
Comecei
a ler a obra de Herman Hesse aos 46 anos, com O Lobo da Estepe,
publicação original da Editora Record, capa dura, pela qual paguei 3 reais em
1999, que estava em uma pilha de livros em promoção, à entrada da livraria
Nobel do cruzamento das avenidas Paulista e Brigadeiro Luiz Antônio. Agradou-me
por sua incomum personagem, e por tratar da psicologia do homem maduro. Tanto
que comecei a ler o livro em São Paulo e o levei comigo para uma viagem
solitária à Irlanda. É uma história fantástica no sentido exato do termo. A ela
se seguiriam outras – A arte dos Ociosos (que fortuitamente achei em um
sebo de Porto Alegre, em 2004), Demian, O Último Verão de Klingsor, e Sidharta,
que comecei e não terminei por achar monótono.
Na
sequência viria Thomas Mann, conhecido pela elegância e desenvoltura do
estilo. É o autor de A montanha
mágica e Doutor Fausto. Este último eu havia ganho de uma residente
em uma festa de amigo secreto quando tinha por volta de 30 anos; comecei a ler.
Não fui adiante, por falta de tempo e porque não estava preparado para entender
as interioridades da história. Voltaria a ele uns 25 anos mais tarde. É talvez
o único livro que me tenha dado a sensação de medo, na cena em que que o
protagonista, o compositor Adrian Leverkühn é abordado pelo Demônio. Na trama,
desenvolvida a partir de uma fábula do folclore alemão – ao que parece
publicada pela primeira vez em 1587 - Mann faz um paralelo com a derrocada da
Alemanha durante período de governo nazista. Em seus livros, ele consegue ser
dramático, irônico e engraçado, mas sempre com classe e sem resvalar no
lugar-comum. Certamente contribuíram para valorizar sua obra entre nós as
traduções de Herbert Karo. O trecho que transcrevo abaixo, dá ideia da sutileza
com que descreve, na pessoa do professor Zeitblom, narrador da história, a
jovem com a qual seu amigo Adrian, tencionava se casar:
“Estou em condições de esboçar um retrato de Marie Godeau, já que, pouco
depois, por boas razões, meus olhos se fixaram nela demoradamente para um exame
bastante intenso. Se jamais o epíteto "simpática" se adequou a uma
pessoa, certamente cabe ele para designar essa moça, que, da cabeça aos pés,
com cada palavra, cada sorriso, cada expressão, correspondia ao significado
sereno, moderado, estético e moral da palavra. Menciono, antes de mais nada,
que Marie tinha os mais lindos olhos negros do mundo, olhos pretos como
azeviche, como pez, como amoras silvestres maduras, olhos não muito grandes,
mas cuja mirada saía franca, clara, pura de profundezas obscuras, debaixo das
sobrancelhas, cujo desenho fino, regular, tão pouco se devia à arte cosmética
quanto o suave e inato vermelho dos lábios. Nessa jovem não havia nada que
fosse artificial, nada de arrebiques que devessem sublinhar, intensificar,
colorir os traços do rosto. A graça natural, sóbria, com que a basta cabeleira
castanha estava puxada para trás, pesando sobre a nuca, desnudando a testa e as
delicadas têmporas, e deixando livres as orelhas — essa graça impregnava as
mãos também, mãos belas e sensíveis, nada pequenas, porém delgadas e de
ossamenta fina. Os punhos de uma blusa de seda branca ajustavam-se nos pulsos.
A gola lisa envolvia da mesma forma o pescoço, que, esbelto e redondo, qual
coluna magistralmente esculpida, saía dela, coroado pelo graciosamente afilado
oval do rosto ebúrneo com o narizinho fino, bem plasmado. A vitalidade com que
Marie abria as narinas chamava-me a atenção. Seu sorriso não muito frequente,
suas risadas ainda mais raras, que sempre exigiam algum esforço quase comovente
da quase diáfana região temporal, punham a descoberto o esmalte dos dentes
regulares, muito juntos”.
No
início, a leitura de Doutor Fausto pode soar morosa para quem não é
versado em Teologia e Teoria Musical, temas sobre os quais os protagonistas se
embrenham em densos diálogos, que depois passa a fluir bem. Aos que nunca leram
o autor, sugiro começar por seus contos, como eu fiz com Os Famintos e
Outras Histórias da Editora Nova Fronteira, que foi a plataforma de
lançamento para que eu chegasse a ler Doutor Fausto.
A
montanha mágica, retrato da alta sociedade europeia à beira da primeira guerra mundial
reúne questões culturais, sociais, médicas, sobre arte, amor, entendimentos e
desentendimentos que movem o quotidiano dos habitantes daquele mundo particular
- em que o tempo e a morte também são protagonistas - narradas às vezes com
ironia através da lente de perfeição estética do autor. É o livro que mais me fascinou até hoje.
Outras
obras maiores que li a seguir – Os Brudenbrook, As cabeças trocadas, O
eleito e Confissões do Impostor Felix Krull, Sua Alteza Real –
pela profundidade e diversidade dos temas, mostram a extraordinária erudição de
Thomas Mann. Foi divertido ler Confissões do impostor Felix Krull,
história descontraída, que infelizmente ele não chegou a concluir.
Devo
citar, mesmo que rapidamente, autores
que nos ajudam a ver o mundo como ele realmente é: Nelson Rodrigues (O óbvio
Ululante, Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo) - a lucidez
personificada, que em suas crônicas retratava personagens sem máscaras; o
psiquiatra e ensaísta inglês Anthony
Daniels, sob o pseudônimo Theodore Dalrymple (Podres de mimados, Qualquer coisa serve, O prazer de pensar) que
faz a sua crítica coerente e sutil da grande mídia, sociedade e governantes; o
hoje decano economista Thomas Sowell, que em Os Intelectuais e a Sociedade
examina a influência em geral equivocada de indivíduos tidos como ‘geradores de
ideias’ ou ‘formadores de opinião’ sobre o público e através deste, indiretamente, sobre os que estão no poder. De outra forma e
em contextos diferentes, alinha-se a eles Olavo de Carvalho (O imbecil
coletivo, O Jardim das Aflições). Todos eles põem a nu, de forma ora
mais ora menos contundente, a infinita estupidez humana. E finalmente, de
caráter jocoso, Febeapá - O Festival de Besteira que Assola o País, de
Sergio Porto, vulgo ’Stanislaw Ponte Preta’. Tendo suas histórias originalmente
publicadas entre 1966 e 1968, faleceu precocemente. Se estivesse vivo nos
tempos atuais, teria hoje um material imensurável para escrever. Não daria conta.
Na
sequência, depois do singular O que há de errado com o mundo, e Tremendas
Trivialidades, gostaria de conhecer outros de GK Chesterton. Mais
recentemente Rei Lear - escrito por Shakespeare como peça de teatro
(desgraça no mais alto grau), O Príncipe (Nicolau Maquiavel), Pigmaleão
(George Bernard Shaw), Pensar é transgredir e Perdas e Danos (Lya
Luft), The Daring Young Man and the the Flying Trapeze and other stories
(literatura americana escrita pelo armênio americano William Saroyan - edição
de 1934 em Inglês, que baixei da internet), Farenheit 451, de Ray
Bradbury (ficção publicada em de 1953, mas tristemente atual, que em 1966
François Truffaut transformou em um bom filme, estrelado por Julie Christie e
Oskar Wener) e coletâneas de contos de Machado de Assis.
E
afinal, em analogia à suposta frase de Mané Garrincha na Copa de 1958, fui
“conversar com os russos”. Inicialmente Anton Tchekhov, depois Dostoiévski,
Liev Tolstói, Nikolai Gogol (Almas mortas e O Capote e Outras
Histórias, e teria escrito bem mais se a morte prematura não o levasse) e
Ivan Turguêniev (Pais e Filhos).
Crime e
Castigo foi o primeiro de Dostoiévski, depois Os Irmãos Karamázov, Noites
Brancas, O eterno marido e O adolescente. Situações não resolvidas,
expectativa e tensão, conflitos de consciência e sofrimento - que compõem a
aura de suas histórias - às vezes parecem intermináveis, o que causa
impaciência para chegar ao desfecho. À exceção do último mencionado, que
arduamente consegui terminar, todos me agradaram, em principalmente Crime e Castigo, um drama que mantem o
leitor em expectativa tensa o tempo inteiro.
Fala-se
bastante sobre Liev Tolstói. No posto de simples leitor, considero Guerra e
Paz, Ana Kariênina, e A morte de Ivan Ilich indispensáveis, para
quem quer começar a conhecer a literatura clássica. Caraterizada por realismo,
a descrição dos dramas e tragédias da vida humana desenvolve-se de modo claro,
prescindindo-se de erudição para interpretá-las. Há uma frase de impressionante
lucidez em Ana Kariênina: "Toda a
diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de
luz".
Atualmente
Reler Charles
Dickens foi como rever um velho amigo de infância com quem tínhamos empatia e
nunca mais vimos. Mesmo tratando-se de temas e histórias diferentes de Conto
de Natal, eu notava traços de familiaridade e humor – há muito encobertos
pelo tempo - à medida que mergulhava nos textos de Aventuras do senhor
Pickwick - que é hilário e às vezes comovente. Grandes Esperanças, além
destes atributos é às vezes trágico e nos faz viver, na pele do protagonista,
em meio às contradições, qualidades e defeitos – suas grandes expectativas. É
uma daquelas leituras que não queremos que acabe e quando isso acontece, a
atmosfera e as impressões suscitadas em nossa mente persistem a ressoar por um
bom tempo, como se a história fosse real.
O
número de livros que listei é moderado, a considerar o tempo em que estou na
estrada. Não seria preciso e eu nem gostaria que fosse maior. Em A vida
Intelectual, A.D. Sertillanges - que proscreve a compulsão pela leitura
quando o objetivo é o aprendizado para o trabalho - aconselha a ler pouco e
saber escolher os livros: “Não acreditar nas
propagandas interesseiras nem nos títulos aliciantes (...) Só ler em primeira
mão, lá onde brilham as ideias mestras. Essas são pouco numerosas. Os livros
repetem-se, diluem-se, ou então se contradizem, o que é outra maneira de se
repetirem. Se observarmos com cuidado, os achados de pensamento são raros; o
fundamento antigo, o fundamento permanente é o melhor; é nele que temos que nos
apoiar...Só é novo aquilo que foi esquecido, no entender de uma comerciante de
modas... penso que o significado desta última frase se aplicaria
bastante ao que temos visto na literatura científica atual.
Arthur
Schopenhauer, em A arte de escrever,
sustentava ser, quando possível, melhor ler os verdadeiros autores, os
fundadores e descobridores das coisas, ou pelo menos os grandes e reconhecidos
mestres da área. E que é melhor comprar livros
de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão’.
Acabei de ler Oliver Twist e Um conto de duas cidades (Charles Dickens) e A máscara de Dimitrios (de Eric Ambler, que teria sido o grande precursor da literatura de espionagem) e tenho embalados, à espera de serem abertos: David Copperfield (Charles Dickens), O idiota (Dostoiévski) e Sobre a natureza humana (Roger Scruton), além José e seus irmãos I (Thomas Mann) Auto de fé (Elias Canetti), que já comecei a ler.
Paro por aqui, pois dirijo minha atenção a Verdades e Mentiras (Mario Vargas Lhosa) que, revirando a estante, descobri, em estado impecável (pela nota de compra, adquirido em 2006 na extinta Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
O percurso é interminável e é bom que seja assim.
Setembro/Outubro de
2025
*Das
condensações de livros de Seleções do Reader’s Digest, além dos
mencionados, lembro abaixo os que mais gostei:
Horizontes sem fim (Dick Grace).
Pioneiro e ás da
aviação que atuou como dublê de acidentes aéreos no cinema e combateu na
segunda grande guerra. Perícia e sorte fizeram com que ele sobrevivesse para
contar suas aventuras.
Vai começar a
função (Dan
Mannix).
A vida atípica dos
artistas das feiras itinerantes de espetáculos - um mundo que não existe mais -
narrada por um jornalista que queria ser e acabou sendo um deles.
Deixei de ser
freira (Monica
Baldwn).
A escritora entrou
em um convento em 1914, permanecendo em estrita clausura até 1941, quando
emergiu para um mundo estranho e bem mais complicado
Ressureição de
Lázaro (Betty
Martin).
Relato envolvente
de uma jovem de 19 anos, que descobre estar com hanseníase e é internada em um
hospital específico para o tratamento da doença.
A trágica farsa
(Budd Schulberg).
Drama sobre a
realidade do mundo do boxe profissional, estrelado no cinema por Humphrey
Bogart e Rod Steiger. Não é preciso dizer mais.
O pai da noiva (Edward Streeten).
Venturas e
desventuras de um homem maduro cuja filha querida resolve se casar. Bestseller,
gerou três versões para cinema: a melhor com Spencer Tracy (1950); a segunda
com Steve Martin e Diane Keaton (1991), não tão boa. A mais recente foi
considerada fraca.
Um tostão que caiu
do céu (Max
Winkler).
Jovem e humilde
lenhador da região dos Cárpatos – Romênia, emigra com a família para os EUA,
onde graças a seu trabalho e perseverança viria a fundar e dirigir uma grande
editora do ramo musical.
Pusemos a família
em polvorosa (Hildegard
Dolson).
História
bem-humorada da jovem de uma cidade pacata que decide se mudar para Nova York
para tentar a vida como escritora.
A caça ao Bismark (Com. Russell Grenfeld).
Baseada em arquivos
capturados e nos depoimentos dos sobreviventes do encouraçado alemão afundado
em 1941.
Demônios de
bombachas (Ross
Carter).
A realidade nua dos
combates de infantaria vivida por um sargento paraquedista norte-americano e
seus companheiros de batalhão durante a campanha da Sicilia, na segunda guerra
mundial.
2025